Sergey Ponomarev/The New York Times
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Brexit ameaça futuro de Londres como capital mundial

Com saída do Reino Unido da União Europeia, britânicos enfrentam desafio: como uma grande cidade global deve se ajustar a um futuro incerto, regido por princípios que parecem a antítese de seu ser

Sarah Lyall / The New York Times, O Estado de S.Paulo

25 Abril 2017 | 14h41

LONDRES - A estação St. Pancras International, com arquitetura vitoriana ressuscitada para o século XXI, abriu há 10 anos como a personificação de uma noção particular: a de que o Reino Unido é parte de algo maior que si mesmo e pertencer a uma organização de nações é tão fácil e natural quanto entrar em um trem.

No começo, foi um tanto chocante e emocionante poder pegar um Eurostar em uma plataforma em Londres, passar sob o Canal da Mancha, cortar o interior da França e, menos de três horas depois, descer na Gare du Nord, em Paris. Embarcar nesse trem era se maravilhar com a ideia de que essas capitais faziam parte de um mesmo empreendimento.

O Eurostar também simbolizou uma época na qual Londres parecia estar inevitavelmente correndo em direção à Europa. Pelo menos, essa era a ideia até agora, com o início do processo conhecido como Brexit - a saída do Reino Unido do bloco. Os trens ainda estão funcionando, mas a era que criou a Londres moderna parece ter acabado.

"Fizemos uma declaração horrível para o resto do mundo, e isso é muito triste. Deveríamos estar juntos em vez de nos afastarmos", disse Martin Eden, editor que esperava para pegar o Eurostar para Paris.

Desafio. Agora que os britânicos tentam dizer adeus a sua distante parceira de 44 anos, Londres enfrenta um desafio diferente: como uma grande cidade global, cujos habitantes votaram contra o Brexit no referendo de junho, deve se ajustar a um futuro incerto, regido por princípios que parecem a antítese de seu ser. O Brexit separou o Reino Unido da Europa, mas também dividiu a própria Grã-Bretanha, com Londres de um lado e a Inglaterra do outro - Escócia e Irlanda do Norte, que também votaram por ficar, são outra história.

Para muitas pessoas na capital, o referendo de 2016 passa uma sensação não apenas de rejeição à Europa, mas também aos valores incorporados por Londres, talvez a cidade mais vibrante e cosmopolita do mundo: abertura, tolerância, internacionalismo e o sentimento de que é melhor olhar para fora do que para dentro. Apesar de uma melancolia parecer se abater sobre St. Pancras, grande parte do Reino Unido está comemorando.

É nessa região onde estão as pessoas mais ricas e muitas das mais pobres, vivendo lado a lado em relativa paz. Londres está cheia de marcos britânicos - o Big Ben, o Palácio de Buckingham, a Catedral de St. Paul - e de pessoas de 270 nacionalidades, 8,7 milhões de habitantes ao todo.

O Brexit bagunçou essa grande experiência de tolerância. Ninguém consegue prever como a cidade vai ser em 10, 20 ou 30 anos. Se as viagens espontâneas entre a Europa e o Reino Unido já não parecem tão simples, o mesmo acontece com o trânsito de pessoas, capital, empregos, negócios e línguas.

"Londres é um lugar estranho no momento", disse o escritor Nikesh Shukla, cujo livro The Good Immigrant é composto de ensaios de britânicos não brancos sobre um país no qual eles se sentem cada vez mais alienados. Ele agora vive em Bristol, mas cresceu em Londres. A cidade, diz ele, "parece uma versão excepcionalmente encapsulada do que a Grã-Bretanha significa” para ele.

"O governo diz que está tentando conseguir o país de volta, mas no processo está perdendo o coração do seu povo em Londres. As pessoas se sentem desconfortáveis, porque é o futuro que está em jogo. É gente que vive na cidade e contribui para ela, que tem família, estrutura social e compromissos financeiros, cujo futuro está agora em dúvida", disse Shukla em uma entrevista por telefone.

Londres mudou muito ao longo dos anos. A cidade passou a ser mais aberta, mais internacional, mais entusiasmada, mais emocionante. A comida ficou melhor e os lugares ficam abertos até mais tarde. Ela também ficou muito mais rica, o que não necessariamente é uma coisa boa, já que o centro se tornou praticamente inacessível.

A Europa, que parecia um conceito distante, de repente estava bem ali na porta. Multidões de franceses, e depois poloneses e espanhóis e, mais tarde, os romenos vieram. A ascensão das companhias aéreas baratas facilitou o voo para a Europa quase tanto quanto a viagem de trem.

Em 2012, Londres sediou os Jogos Olímpicos, anunciando a si mesma como uma cidade do mundo e provando como a terra poliglota trabalha com suavidade e alegria quando tem uma meta e como as pessoas que viveram na cidade se davam bem.

Imigrantes. A despeito do sentimento antimuçulmano e anti-imigração que deu força ao voto a favor do Brexit, Londres tem um prefeito muçulmano, Sadiq Khan, cujos pais, um motorista de ônibus e uma costureira, saíram do Paquistão.

"Em Londres nunca me sinto como um estrangeiro, porque todo mundo é de fora", disse Paolo Martini, 32 anos, cabeleireiro oriundo do Brasil. Ele tem uma mulher polonesa e uma filha nascida no Reino Unido. Ele vive no país há mais de uma década, mas não sabe o que o Brexit pode fazer com sua família.

Parte do que faz Londres diferente é como tudo se combina com perfeição, as pessoas de diferentes origens, econômicas ou étnicas. "Não somos só eu e você, ricos e pobres. Todo mundo se mistura aqui", disse Dara Djarian, 25 anos, corretor de imóveis em Kilburn, cujos pais são da França e do Irã. Ele comparou os bairros de Londres aos banlieues mais uniformes da periferia de Paris, ocupados principalmente por imigrantes árabes.

Ao observar alguns bairros ingleses, é possível ver uma delicatessen polonesa ao lado de um restaurante italiano, em frente a um tradicional pub londrino. "A única coisa que realmente não vemos muitos por aqui são os ingleses. Eles se mudaram para o interior ou para os subúrbios", contou Djarian.

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