Ben Stansall / AFP
Ben Stansall / AFP

Brexit é aposta da carreira e sonho da vida de Boris Johnson

Ao cumprir sua palavra e acabar com anos de crise, o homem que foi uma das figuras mais polarizantes do país sai legitimado deste processo

Redação, O Estado de S.Paulo

31 de janeiro de 2020 | 10h59

Boris Johnson apostou toda sua carreira na arriscada promessa de concretizar o Brexit. E venceu. Ao cumprir sua palavra e acabar com anos de crise, o homem que foi uma das figuras mais polarizantes do país sai legitimado deste processo. Nesta sexta-feira, 31, às 23h (20h, no horário de Brasília), o Reino Unido encerra 47 anos de um relacionamento complicado com a União Europeia (UE) e torna-se o primeiro país membro a abandonar o bloco.

Foi justamente com a promessa de cumprir "a todo custo" o resultado do referendo de junho de 2016 que aprovou o Brexit, que "BoJo" chegou ao poder em julho, tornando realidade o sonho de sua vida. Pouco depois, contra os prognósticos, conseguiu nas eleições legislativas antecipadas de dezembro uma maioria esmagadora que os conservadores não registravam desde a década de 1980, o que deixou claro como seus compatriotas depositavam esperanças nele.

Quando conseguiu renegociar com determinação e seriedade um acordo de divórcio que parecia bloqueado, Johnson ganhou também o respeito dos colegas europeus, alguns deles céticos a princípio, como o francês Emmanuel Macron. Mas, embora seja um dos políticos mais populares do país, este homem de 55 anos com uma cabeleira loira revolta desperta muitas críticas por sua retórica populista, que lhe valeu a comparação com Donald Trump e uma falta de rigor que muitos denunciam como mentiras.

Exercício incomum no Brexit

No referendo de 2016, este grande fã de Winston Churchill - sobre quem escreveu uma biografia - surgiu como um dos principais defensores do Brexit, mas só após realizar um exercício incomum. Colunista do jornal conservador The Daily Telegraph, ele havia preparado um artigo anunciando que apoiava a permanência no bloco e outro afirmando o contrário, o que deu a impressão de que sua decisão escondia um cálculo político.

"O único em que Boris Johnson acredita é Boris Johnson", disse à AFP o ex-diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC) Pascal Lamy, que conhece a família Johnson desde que Boris era um rapaz na Escola Europeia de Bruxelas, onde seu pai foi um eurodeputado. 

Trajetória clássica

Seguindo a trajetória clássica das elites britânicas, Boris Johnson estudou nas prestigiosas Eton e Oxford. Em 1987, iniciou uma carreira de jornalista no The Times, que o demitiu um ano depois por inventar algumas declarações. Entre 1989 e 1994, ele foi correspondente do Telegraph em Bruxelas, onde escreveu artigos que ridicularizavam as regulações europeias.

"Não inventava as histórias, mas sempre caía no exagero", lembra Christian Spillmann, jornalista da AFP em Bruxelas nestes anos. Eleito deputado em 2001, ele perdeu um cargo na cúpula conservadora três anos depois por mentir sobre um caso extraconjugal. Um dos vários escândalos pessoais de um político que não quer dizer quantos filhos tem, além dos quatro reconhecidos. 

Divorciado duas vezes, Johnson mora hoje em Downing Street com a namorada, Carrie Symonds, de 31 anos. Ganhou status de estrela após ser eleito prefeito de Londres em 2008 e, embora lhe atribuam alguns projetos desastrosos, brilhou com os bem sucedidos Jogos Olímpicos de 2012.

Foi nomeado ministro das Relações Exteriores por Theresa May em julho de 2016. É acusado de ter cometido erros diplomáticos graves antes de pedir demissão dois anos depois, por divergências sobre a estratégia do Brexit. Ainda assim, demonstrou que a sua estratégia era a mais eficaz. Resta, no entanto, a tarefa de negociar a futura relação com a UE, que se anuncia complicada e voltará a testar sua capacidade de sedução e convencimento. / AFP

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