Suzie Howell para The New York Times
Suzie Howell para The New York Times

Brexit e tarifas de Trump preocupam fabricantes de uísque escocês

Governo Trump estabeleceu tarifas de 25% sobre queijos, uísque e outros produtos vindos da União Europeia; medida entrou em vigor nesta sexta-feira, 18.

Amie Tsang, The New York Times, O Estado de S.Paulo

19 de outubro de 2019 | 08h00

ISLAY, Escócia – A planejada saída do Reino Unido da União Europeia (UE) transformou o trabalho diário de Anthony Wills,  proprietário de uma destilaria, numa maratona de logística.

Durante meses, ele se comunicou com os importadores para se certificar de que o seu single malt – uísque destilado da cevada plantada em sua fazenda na ilha de Islay – fosse enviado para o continente europeu e para os Estados Unidos em tempo para as festas do fim do ano.

Mas, com o prazo de saída do país da UE, em 31 de outubro, se aproximando, o governo Trump decidiu impor tarifas de 25% sobre uma série de produtos que incluem o vinho francês, queijo italiano e, numa medida que poderia levar um escocês a se embriagar – o uísque single malt.

“É uma pancada”, disse Wills, proprietário da Kilchoman Distillery, que abriu uma pequena empresa no interior da Escócia.“Não importa como vamos diminuir o problema, ainda assim é um grande abalo”.

Tarifas já estão valendo

Os Estados Unidos aplicaram as tarifas, em vigor a partir desta sexta-feira, 18, depois de decisão da Organização Mundial do Comércio (OMC) no caso de uma disputa que durou um ano envolvendo subsídios oferecidos à empresa de aviação Airbus. O que gerou um grande contratempo para a Escócia.

O uísque sustenta a economia de Islay e de grande parte da Escócia. A empresa Kilchoman e oito destilarias escocesas rivais floresceram na região na última década. Turistas dos Estados Unidos, Europa e Japão chegam à ilha para apreciar sua beleza costeira, tirar fotos das colinas repletas de carneiros e dos bovinos peludos das Terras Altas, e se embebedarem com o caro uísque local.

As exportações anuais do uísque escocês equivalem a cerca de US$ 5,9 bilhões e respondem por 70% de todas as exportações de alimentos e bebidas da Escócia e 21% do Reino Unido, com um volume de uísque equivalente a mais de US$ 1,2 bilhão indo para os Estados Unidos e a quase US$ 1,8 bilhão vendido na União Europeia.

O uísque movimenta o turismo na região

À medida que o entusiasmo pelo single mal aumentou, o turismo na região disparou. Cerca de dois milhões de turistas visitaram o país este ano, o dobro em relação à década passada, segundo a Scotch Whisky Association. Muitos vieram da Alemanha e dos Estados Unidos e os produtores de uísque como Wills lucraram com sua sede. Conhecedores de uísque são vistos degustando uísque durante visitas na Kilchoman, com os enormes alambiques de cobre funcionando ao lado.

E encontrar a bebida certa envolve um pouco de aventura. Os turistas passam por pântanos e pelos lagos escoceses de um azul profundo a caminho das destilarias. A água dos lagos é transformada num excelente uísque. O ar salgado e da turfa aromatiza a bebida. Mesmo quando você inspira mais profundamente um vestígio do álcool é sentido na garganta.

Wills passou quase a metade da sua carreira transformando esta experiência em algo que os recém-chegados bebem à vontade. O seu single malt se tornou um produto de exportação popular e ele não consegue acreditar no aperto que passa a destilaria. Ele se queixa do custo de absorver as tarifas de 25%. Wills exporta 80% de toda a sua produção e vende em torno de 40 mil garrafas por ano nos Estados Unidos. As vendas nos EUA contribuíram para o crescimento da sua empresa nos últimos nove anos.

Consequências das tarifas

O Brexit é uma espécie de sofrimento autoimposto no Reino Unido, afirmou. As tarifas estabelecidas por Trump vêm se somar a esse sofrimento. “Somos uma empresa em crescimento e precisamos de todo o apoio possível, acrescentou ele exasperado.

Para Karen Betts, diretora executiva da Scotch Whisky Association, a decisão do governo americano de tarifar somente o uísque single malt teve por fim atingir mais duro os pequenos produtores.

“A combinação de tarifas impostas ao nosso mercado mais valioso e ter de atenuar o impacto potencial do Brexit é difícil”, disse ela.

Os donos de destilarias como Wills não conseguem atrair seus clientes americanos para uísques alternativos, os blended, porque não o produzem, além do que o single malt é comercializado com uma bebida distintiva com foco na sua origem.

Liam Hughes, diretor de uma pequena destilaria em Glasgow, disse que sua empresa acabara de fechar um contrato de venda de uísque para os Estados Unidos quando as tarifas foram anunciadas.

“Estávamos comemorando e quando acordamos na manhã seguinte  vimos que fomos atingidos pela tarifa de 25% da noite para o dia”, disse Hughes numa entrevista por telefone, antes de viajar para o Japão para lançar os produtos da Glasgow Distillery nesse país.

Sua fábrica gastou mais de US$ 128 mil dólares e se preparou durante 18 meses para começar a exportar para os Estados Unidos. A companhia instalou dois novos alambiques para dobrar a produção para 1,2 milhão de garrafas por ano. Ele contratou mais seis funcionários e sua equipe vinha acelerando o trabalho de preparar moldes e projetar novos rótulos para as garrafas maiores que são exigidas nos Estados Unidos.

Hughes vinha planejando lançar um uísque especial com um produtor de barris do Kentucky. “Agora o custo desse lançamento aumentará em 25%, o que pode ficar proibitivo”, disse.

Ele comparou os últimos dias na Escócia a um pequeno barco no mar tempestuoso, “sendo golpeado à direita, à esquerda e no centro”. “Isto obviamente nos deixa extremamente nervosos, ser envolvidos numa disputa comercial que não tem nada a ver conosco”,

Até os consumidores – ou pelo menos alguns turistas sortudos tomando alguns goles esta semana em Islay, acham que as tarifas são uma censura das empresas e ambições globais.

“Alguns dos nossos mais importantes aliados no mundo se sentem traídos por este governo pois ele não vê o valor do livre comércio e do comércio justo”, afirmou Jeremy Henderson, 34 anos, de Portland, Oregon. “Eu tomaria um scotch como um desafio a isto”. / Tradução de Terezinha Martino

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