EFE/ Facundo Arrizabalaga
EFE/ Facundo Arrizabalaga

Brexit está finalmente pronto, mas já parece desatualizado

O mundo mudou radicalmente desde junho de 2016; o Reino Unido finalizou seu divórcio, ficando isolado em um momento em que o caminho a seguir parece mais perigoso do que antes

Mark Landler, The New York Times

25 de dezembro de 2020 | 05h00

Foram necessários onze exaustivos meses para que os negociadores elaborassem os termos de um acordo comercial pós-Brexit. Em muitos aspectos, o acordo já está 4 anos e meio desatualizado.

O mundo mudou radicalmente desde junho de 2016, quando uma pequena maioria da população britânica votou pela saída da União Europeia, tentada pelo argumento de que o país iria prosperar quando se livrasse das amarras burocráticas.

Naquela época, a visão de um Reino Unido ágil e independente - livre para desenvolver setores lucrativos da próxima geração e fechar seus próprios acordos comerciais com os Estados Unidos, China e outros países - era um argumento de venda atraente.

Mas isto foi antes da ascensão do presidente Donald Trump e de outros líderes populistas que ergueram barreiras ao comércio e à imigração, voltando seus países para dentro, sob o impulso da onda anti-imigrante e anti-globalista. Foi antes de a pandemia de coronavírus expor as vulnerabilidades das cadeias de suprimentos de longa extensão, levando a apelos para trazer as indústrias estratégicas de volta para casa.

O mundo agora é dominado por três blocos econômicos gigantescos - EUA, China e União Europeia. O Reino Unido finalizou seu divórcio, ficando isolado em um momento em que o caminho a seguir parece mais perigoso do que antes.

Enquanto conduz o Reino Unido para um futuro pós-Brexit, o primeiro-ministro Boris Johnson também corre o risco de tropeçar politicamente. O acordo chega no exato momento em que o presidente eleito Joe Biden está substituindo o credo trumpista “América em primeiro lugar” por uma mensagem de consertar as alianças e colaborar em questões como saúde e clima.

Embora o acordo evite tarifas e cotas sobre mercadorias que cruzam o Canal da Mancha, no fundo se trata de separar vizinhos que ficaram profundamente integrados ao longo de quatro décadas. Esse distanciamento, dizem os analistas, deve enfraquecer os laços entre os dois lados em outras áreas, como segurança e diplomacia.

“Biden quer ver alianças, multilateralismo e cooperação, e o Brexit vai totalmente contra isso”, disse Mujtaba Rahman, analista do Eurasia Group, uma consultoria de risco político. Trump aplaudiu a iniciativa britânica de se separar da União Europeia. Como recompensa, prometeu negociar um acordo comercial com Johnson. Mas Biden se opôs ao Brexit e descartou a negociação de novos acordos comerciais até que os EUA melhorem sua posição competitiva. Isto anula um dos principais pontos de venda do Brexit.

O Reino Unido também se promoveu como defensor dos valores democráticos em lugares como Hong Kong, ao lado dos EUA. Mas, em um mundo menos hospitaleiro, talvez não encontre muitos aliados para esse tipo de missão. “Quem são os parceiros óbvios para eles?”, perguntou Thomas Wright, diretor do Centro para os Estados Unidos e a Europa da Brookings Institution. “Há quatro anos, eles poderiam ter dito Brasil, mas o Brasil agora é governado pelo Bolsonaro”, acrescentou, referindo-se ao presidente populista Jair Bolsonaro.

Também há limites para o tamanho da musculatura do Reino Unido no confronto com estados autocráticos como a China e a Rússia.

O Reino Unido acaba de negociar um acordo único na diplomacia comercial - que separa parceiros, em vez de uni-los. Sua capacidade de realizá-lo, dizem os analistas, é um sinal de esperança para sua capacidade de se remodelar mais uma vez. No entanto, “o mundo de junho de 2016 não é o mundo de hoje”, disse Wright. “Eles também sabem disso”. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.