Cedrick Isham CALVADOS / AFP
Cedrick Isham CALVADOS / AFP

Brexit forçará ilhas britânicas no Caribe a implementar controle de fronteira

Anguilla, por exemplo, fica a apenas 8 quilômetros de Saint Martin - território dividido por Holanda e França -, e recebe diariamente milhares de cidadãos da ilha vizinha; Ilhas Virgens Britânicas, Ilhas Cayman, Montserrat e as Ilhas Turcas e Caicos também serão afetadas

O Estado de S.Paulo

30 de outubro de 2018 | 14h44

THE VALLEY, REINO UNIDO - Oito quilômetros de mar azul turquesa separam a pequena ilha britânica caribenha Anguilla de seu vizinho franco-holandês Saint Martin. Apesar da pequena distância, muito em breve - quando o Brexit for efetivado, em março - será necessário criar  controles de fronteira entre os dois territórios.

Após a chegada da balsa no que resta do porto de Anguilla, devastado como seu vizinho pelo ciclone Irma em 2017, os habitantes de Saint Martin passam pela alfândega sem ter que se submeter a controles de segurança.

"Em  2016, foram contabilizadas mais de 300 mil idas e vindas entre as porções francesa e holandesa de Saint Martin e o território britânico de Anguilla", disse Tim Foy, governador de Anguilla e representante local da coroa da Inglaterra. Os dados de 2017 foram perdidos durante o furacão Irma.

O ministro-chefe de Anguilla, Victor Banks, diz que os habitantes da ilha consideram Saint Martin como "o centro" de Anguilla. "As pessoas vão para lá fazer compras, negócios ou para passar por consultas médicas", afirmou Banks.

Tradicionalmente, existe uma livre circulação de bens e pessoas entre as três administrações, explica Sherman Williams, gerente financeiro da Autoridade Aérea e Marítima de Anguilla, que administra os três portos da ilha e seu pequeno aeroporto.

Este acordo tradicional foi reforçado legalmente pelas normas da União Europeia, mas agora está em dúvida em razão da decisão da Grã-Bretanha de abandonar o bloco econômico. "Os britânicos votaram de acordo com suas próprias preocupações", lamenta Banks.

Separar famílias

Por outro lado, há pouca preocupação em razão da atividade econômica da ilha britânica, que em 2017 registrou um PIB de € 320 milhões e tem pouco mais de 15 mil habitantes. Quase tudo é importado dos Estados Unidos por conta da proximidade geográfica.

E se a Europa tem uma abundância de fundos para ajuda ao desenvolvimento (1% a 2% do orçamento total de Anguilla, ou seja, € 5,2 a € 6,1, excluindo a ajuda especial em caso de catástrofe), as autoridades estão considerando a possibilidade de negociar, depois do Brexit, os valores com Londres.

Quanto a economia da ilha, quase 80% está voltada aos serviços, como as finanças offshore e o turismo, que não requerem fronteira para operar. E a maioria dos turistas chega por meio do maior aeroporto de Saint Martin, famoso por sua pista de pouso ao lado da praia.

"Não sabemos exatamente o que o Brexit significará para Anguilla", diz Shellya Rogers, gerente de assuntos corporativos da Junta de Turismo de Anguilla. "Mais de 80% dos turistas que recebemos são americanos. Para os Europeus, tememos que fique mais complicado por conta da burocracia."

Também há preocupações em outros territórios caribenhos ultramarítimos da Gra-Bretanha: as Ilhas Virgens Britânicas, as Ilhas Cayman, Montserrat e as Ilhas Turcas e Caicos. Banks diz que está trabalhando com todos estes territórios, "mas nenhum enfrenta os mesmo desafios que Anguilla".

Daniel Gibbs, presidente do conselho territorial da parte francesa de Saint Martin, compartilha do ponto de vista de Banks, mas espera que o Brexit não imponha mudanças drásticas nas ilhas. "Estamos decididos a colocar em prática um acordo para facilitar os intercâmbios que sempre caracterizaram nossa relação", disse. 

"O Brexit pode ser justificado na Europa, mas no Caribe quase equivale a separar famílias", considera Sherman Williams. "A família, os amigos, a cultura, a etnia e a herança, no Caribe não há diferenças." / AFP

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