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Manifestante contrário ao Brexit agita bandeiras do Reino Unido e da União Europeia Frank Augstein/AP

Brexit: o que muda após a saída do Reino Unido da União Europeia

Como ficam os vistos para os brasileiros? E o comércio britânico com o resto do mundo? Faltará peixe para o fish and chips? Confira as mudanças após o Brexit

Redação, O Estado de S.Paulo

31 de janeiro de 2020 | 12h03
Atualizado 31 de janeiro de 2020 | 22h20

LONDRES - O Dia do Brexit, ou "Dia da Saída", como prefere o primeiro-ministro Boris Johnson, chegou. Nesta sexta-feira, 31, às 23 horas de Londres (20 horas em Brasília), o Reino Unido deixou oficialmente a União Europeia, depois de mais de quatro décadas de uma ligação umbilical.

Uma hora antes do anúncio da saída, um relógio foi projetado nos muros da 10 Downing Street, a residência oficial do primeiro-ministro, para fazer a contagem regressiva para a saída, que foi seguido de uma exibição de luzes vermelha, branca e azul (as cores da bandeira britânica). O horário oficial da saída corresponde à meia-noite em Bruxelas, sede da União Europeia.

O Brexit finalmente aconteceu, 1.317 dias após a decisão dos britânicos de deixar a União Europeia. Confira abaixo as principais mudanças que devem acontecer com a saída oficial do Reino Unido do bloco. 

O Brexit muda algo na viagem dos brasileiros?

Com a saída do Reino Unido da União Europeia, a embaixada britânica assegura que nada muda para os turistas -- pelo menos durante o período de implementação das regras que definirão o divórcio do bloco.

Em relação aos vistos de trabalho, cada país europeu concede o seu próprio sob critérios diferentes. É por isso que alguém com visto de trabalho para a Suécia só pode trabalhar na Suécia. 

O mesmo vale para vistos de estudo por períodos superiores a três meses: alguém com um visto de estudo para a Bélgica só pode estudar na Bélgica. 

No caso do Reino Unido, que já regulamentava seus vistos independente das regras da União Europeia, nada mudará. Os brasileiros que quiserem estudar ou trabalhar no Reino Unido terão que continuar pedindo vistos específicos para a embaixada britânica.

Já os brasileiros com cidadania europeia terão até o fim do período de transição (31 de dezembro de 2020) para poder viajar ao Reino Unido para estudar ou trabalhar livremente. Depois dessa data, ainda não estão claras quais serão as regras.

O que muda de imediato com o Reino Unido saindo da União Europeia? 

Nada! Pelo menos a princípio. Para o restante de 2020, livre comércio e livre circulação entre o Reino Unido e a UE continuará igual. O Reino Unido ainda contribuirá para o pagamento das despesas da UE.

E ainda terá de respeitar as leis e regulamentações do bloco - mesmo que os membros britânicos do Parlamento Europeu tenham feito as malas e perdido a voz na maneira como essas leis são determinadas.

A maior sacudida da política britânica em uma geração não será sentida pela maioria das pessoas até o final de um período de transição de 11 meses. É aí que todos verão uma profunda mudança no relacionamento do Reino Unido com a Europa e o mundo. E ainda há muito a ser ordenado de vez em quando.

O impacto econômico será grande, e deve ser sentido por toda a Europa - por isso a importância e a urgência na negociação de acordos comerciais.

Fish and chips está garantido?

É tudo sobre bacalhau. Os pescadores britânicos e as pessoas que os amam vêm discutindo há anos sobre frotas irlandesas, francesas e dinamarquesas que exploram as ricas águas britânicas.

A pesca representa uma pequena porcentagem - um mero peixinho - do Produto Interno Bruto do Reino Unido, e emprega apenas 24.000 pessoas. Mas a questão é altamente emocional, despertando fervor nacionalista.

Johnson prometeu que o Reino Unido irá recuperar sua "espetacular riqueza marítima".

Enquanto isso, o primeiro-ministro da Irlanda, Leo Varadkar, alertou a BBC na segunda-feira: "Você pode ter que fazer concessões em áreas como a pesca para obter concessões de nós em áreas como serviços financeiros" em um acordo comercial pós-Brexit.

A Guerra do Bacalhau de 2020 está apenas começando.

Durante o período de transição, o Reino Unido permanecerá na união aduaneira e no mercado único da UE, mas depois disso, tudo estará em disputa. O impacto da saída na economia da União Europeia será enorme. O secretário do Brexit, Stephen Barclay, declarou que o Reino Unido quer um pacto comercial de “tarifa zero, cota zero” com a UE. até o final do ano.

Mas a nova presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, alertou - de uma maneira muito amigável, muito calorosa e muito pública - que é quase certamente "impossível" para os dois lados concluir um acordo abrangente dentro desta agenda apertada. Ela sugeriu que Johnson terá que pedir um atraso. Ou aceitar um acordo parcial - e continuar negociando.

O primeiro-ministro insiste que ele se afastará se seus prazos forem estourados e se dirige (novamente) à temida beira do precipício de uma saída sem acordo. Nem todo mundo acredita nisso.

Um acordo com o presidente Trump

Com o Reino Unido oficialmente fora da UE, Johnson poderá começar a negociar com países que ainda não têm acordos comerciais com a União Europeia. No topo dessa lista estão os Estados Unidos.

O presidente Trump, um fã do Brexit, prometeu um acordo “gigantesco”. Ambos os lados disseram que querem elaborar algo rapidamente. Mas poderia haver obstáculos, inclusive sobre preços e impostos sobre produtos farmacêuticos e em grandes empresas de tecnologia.

Há também o debate sobre o "frango com cloro". Acredite ou não, isso é uma grande coisa. Maior que o bacalhau.

Para ter fácil e livre comércio de produtos agrícolas, a Europa está pressionando o Reino Unido a permanecer alinhado com a UE em regras sobre segurança alimentar e bem-estar dos animais. Mas isso coloca o Reino Unido em rota de colisão com os Estados Unidos e seus regulamentos relativamente frouxos sobre agricultura industrial.

 Os processadores de alimentos americanos enxaguam suas aves em um banho de cloro e imbutem sua carne com antibióticos - ambos processo ilegais na Europa.

Se Johnson vai se curvar aos americanos com frango clorado e permitir que empresas farmacêuticas dos EUA acessem o mercado de serviços de saúde do Reino Unido foram pontos de discórdia nas eleições gerais do mês passado. Os britânicos estão assistindo o que ele faz.

Então faça um acordo com todo mundo

Como o Reino Unido segue seu próprio caminho, ele efetivamente vai se retirar de centenas de pactos assinados entre a União Europeia e o o restante do mundo.

O Financial Times contou mais de 750 tratados, “publicados em centenas de milhares de páginas e abrangendo 168 países fora da UE. Dentro deles estão cobertas quase todas as funções externas de uma economia moderna, desde voar de avião até os Estados Unidos e trocar porcos com a Islândia até pescar em mares distantes”.

O governo de Johnson disse que a maioria desses tratados será revisado rapidamente “com algumas linhas adicionais de texto e estampadas nas laterais”. De qualquer forma, o Reino Unido precisará de muita tinta.

Imprimir novos passaportes e "retomar o controle" das fronteiras

O Reino Unido começará a introduzir novos passaportes - azuis, como nos velhos tempos - no início deste ano. Em meados de 2020, todos os novos passaportes britânicos estarão azuis.

Mas eles não terão o selo "União Europeia" na capa, que permite que os 500 milhões de cidadãos do bloco viajem sem esforço pelos Estados membros.

A livre circulação continuará durante o período de transição. Os londrinos ainda podem se mudar livremente para Lisboa, e os berlinenses podem aceitar empregos em Birmingham. 

Mas os cidadãos da União Europeia que vivem no Reino Unido devem solicitar direitos de residência até junho de 2021 - ou estarão no país ilegalmente.

No futuro, os europeus não terão preferência automática sobre pessoas de outros países que querem viver e trabalhar no Reino Unido. E os britânicos não poderão facilmente viver e trabalhar na Europa.

Este será um dos maiores impactos do Brexit? Um fim à liberdade de movimento.

Johnson em breve divulgará um plano de imigração pós-Brexit, que deve ser algo semelhante ao método baseado em pontos da Austrália. 

Johnson sugeriu que uma queda no número de trabalhadores europeus pode ser compensada com medidas que facilitam a imigração de outras regiões do planeta.

"Ao priorizar pessoas em vez de suas nacionalidades, teremos a capacidade de atrair os melhores talentos de todo o mundo, onde quer que estejam", disse ele na segunda-feira, anunciando um visto expresso para cientistas que entrará em vigor em 20 de fevereiro.

Já nos últimos anos, essa tendência de substituir a imigração europeia pela de fora do bloco começou a aparecer nas estatísticas.

Embora o saldo líquido anual de migração dos cidadãos da UE tenha caído após o plebiscito, o dos cidadãos de fora do bloco aumentou.

Em março de 2016, esse saldo era de 168 mil. Em junho de 2019, havia crescido 36%, para 229 mil.

O saldo migratório inclui pessoas de todas as idades (e ocupações, podem ser turistas) — ele representa a diferença entre os que chegam e os que saem.

Como fica a União Europeia

Após Brexit, União Europeia planeja cortar subsídios agrícolas e gastar mais com segurança para compensar a saída do Reino Unido, mas os limites dessa decisão ainda são desconhecidos.

Fronteira com a Irlanda segue sendo o desafio

Pela proposta de Johnson, uma fronteira alfandegária será efetivamente criada entre a Irlanda do Norte e o Reino Unido. 

Algumas mercadorias entrando na Irlanda do Norte serão submetidas a inspeções e terão de pagar impostos de importação - o valor será reembolsado caso as mercadorias permaneçam no território e não encaminhadas à Irlanda. 

Atualmente, não há postos de fronteira, barreiras físicas ou verificações de pessoas ou mercadorias que cruzam da Irlanda para a Irlanda do Norte.

Há o temor de que a restituição de postos de checagens de passaportes e mercadorias na divisa entre os dois países - a chamada "fronteira dura" - traga à tona antigas tensões entre irlandeses e norte-irlandeses. 

O tratado de paz de 1998 pôs fim a três décadas de conflito entre nacionalistas, que queriam a integração com a Irlanda, e unionistas, que queriam continuar fazendo parte do Reino Unido. 

 

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Reino Unido deixa de ser membro da União Europeia

Saída acontece nesta sexta-feira, 31; primeiro-ministro Boris Johnson afirmou que ato não é 'um fim, mas sim um começo'

Célia Froufe, correspondente em Londres, O Estado de S.Paulo

31 de janeiro de 2020 | 20h00

LONDRES - O Reino Unido se tornou nesta sexta-feira, 31, o primeiro país a abandonar a União Europeia, depois de quase 47 anos de integração, e entrou em um período de transição de 11 meses no qual deverá negociar um novo relacionamento com o bloco. O primeiro-ministro, Boris Johnson, proclamou em seu discurso o “amanhecer de uma nova era”, na qual espera fechar as feridas na sociedade britânica provocadas pelos três anos de negociações sobre a saída.

O Brexit ocorreu no último segundo desta sexta-feira na Europa continental, quando, para os britânicos, o relógio marcava 23 horas (20 horas em Brasília). Um relógio que fazia a contagem regressiva, projetado na famosa fachada de Downing Street, residência oficial do premiê, marcou o momento em que a UE perdeu um membro pela primeira vez na sua história.

“Isso não é um fim, mas um começo”, afirmou Johnson, em mensagem à nação. Com um Brexit que durante muito tempo pareceu impossível, Johnson conseguiu uma enorme vitória pessoal. “A cortina se levanta para um novo ato”, afirmou o premiê, depois de presidir um conselho especial de ministros, na cidade operária de Sunderland, na região norte da Inglaterra, de maioria pró-Brexit.

No final do dia, instituições como o Conselho da UE e o Parlamento Europeu, em suas sedes em Bruxelas e em Estrasburgo, retiraram as bandeiras britânicas de suas fachadas. A data, no entanto, é sobretudo simbólica, pois quase nada mudará na prática até o fim do período de transição, em dezembro.

Comemorações

Sob uma chuva fina, cerca de 5 mil pessoas se reuniram na sexta-feira à noite em frente ao Parlamento britânico para celebrar o Brexit. A maioria estava trajada com o mesmo figurino: bandeiras do Reino Unido, chamada pelos britânicos de “Union Jack”, amarradas nas costas como capas de super-heróis.

Um casal de brasilienses, em férias pela Europa, também participou da festa. A advogada Grasiele Miranda, que já morou em Londres, disse que sentiu a imigração mais forte e relatou que até os passageiros com passaporte europeu tiveram de pegar a mesma fila dos demais cidadãos que entravam na Inglaterra.

A poucos metros dos que comemoravam, os críticos do Brexit, entre eles jovens que não votaram no referendo de 2016, caíam no choro. Muito tempo passou desde a vitória do Brexit, quando 52% dos britânicos votaram a favor da saída do país do bloco europeu. Contudo, uma pesquisa publicada esta semana aponta que apenas 30% dos pró-UE concluíram o “luto” psicológico da ruptura.

Uma tristeza especial afeta muitas pessoas na Escócia, território semiautônomo britânico que votou contra o Brexit e onde, por decisão de seu Parlamento, a bandeira europeia permanecerá hasteada.

A primeira-ministra escocesa, Nicola Sturgeon, prometeu fazer todo o possível para conseguir um novo referendo sobre a independência, apesar da intransigência demonstrada pelo governo de Londres.

Na Irlanda do Norte, onde teme-se que o Brexit desestabilize uma paz dificilmente alcançada após três décadas de um confronto violento, os pró-europeus ergueram em Belfast um cartaz que dizia “Esta ilha rejeita o Brexit”.

O Reino Unido entrou na Comunidade Econômica Europeia – antecessora da UE – em 1973, depois de sofrer dois vetos da França, em 1963 e em 1967, preocupada com a possibilidade de o país ser um “cavalo de Troia” dos EUA.

A relação entre Londres e Bruxelas sempre foi complicada. Os britânicos não adotaram a moeda única, nem a livre circulação de pessoas, pediram uma importante redução de sua participação no orçamento europeu e sempre foram contrários a uma integração política maior.

Apesar das dificuldades de relacionamento, o resultado do referendo surpreendeu muitos analistas. Alguns o explicaram como uma reação desesperada dos esquecidos pela globalização, que desejavam ser ouvidos.

A partir de agora, Johnson terá pela frente a difícil missão de negociar acordos comerciais com a UE, mas também com os EUA, sua grande aposta para substituir seu principal sócio. As negociações, porém, não serão fáceis: Washington pressionará por mais flexibilidade de Londres nas áreas de saúde e meio ambiente, enquanto Bruxelas – que teme uma concorrência desleal – pedirá respeito aos padrões trabalhistas e ecológicos. / COM AFP, NYT e AP

 

 

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Escócia estuda fazer referendo sobre independência sem autorização do Reino Unido

"Se o governo do Reino Unido continuar negando o direito de escolha da Escócia, podemos chegar ao ponto em que seja necessário que essa questão seja analisada”, disse a primeira-ministra do país, Nicola Sturgeon

Redação, O Estado de S.Paulo

31 de janeiro de 2020 | 21h50

LONDRES - A primeira-ministra da Escócia, Nicola Sturgeon, disse nesta sexta-feira, 31, que não descarta testar a legalidade da convocação de um referendo consultivo sobre a independência do país, se o governo conservador do primeiro-ministro britânico, Boris Johnson, continuar se opondo a uma nova votação.

Em declaração em Edimburgo no dia em que o Reino Unido deixa a União Europeia, Sturgeon afirmou que a dúvida sobre se o Parlamento escocês tem o poder de realizar uma votação não vinculativa sobre a independência nunca foi ao tribunal.

“Agora, se o governo do Reino Unido continuar negando o direito de escolha da Escócia, podemos chegar ao ponto em que seja necessário que essa questão seja analisada”, disse. “Eu não estou descartando isso.”

Sturgeon quer realizar outro referendo escocês, mas não pode fazê-lo sem o consentimento do governo britânico.

Ela pediu a Johnson que iniciasse negociações sobre a transferência de poder para realizar um referendo de Londres a Edimburgo, e disse nesta sexta-feira que esse passo é a melhor maneira de tirar a dúvida sobre a legalidade de uma votação.

Ela já havia sinalizado que não queria realizar um referendo ao estilo da Catalunha, organizado sem o consentimento ou reconhecimento do governo nacional.

A região espanhola declarou unilateralmente a independência em outubro de 2017, após um referendo considerado ilegal pelos tribunais, provocando a maior crise política da Espanha em décadas.

Sturgeon disse na sexta-feira que um referendo não vinculativo pode medir o apetite por uma Escócia independente. Mas era incerto se alguém poderia ser mantido sob os poderes existentes do governo escocês, disse ela, e um teste jurídico poderia levar a causa adiante ou recuá-la.

E ainda seria necessária a transferência de poder adicional de Londres para Edimburgo para implementar qualquer resultado pró-independência, disse ela. Por isso, ela disse que era melhor para os nacionalistas escoceses se concentrarem em construir e conquistar argumento político pela independência.

“Primeiramente, continuarei fazendo tudo o que puder para garantir um referendo este ano”, disse a premiê. “O Brexit colocou a Escócia no caminho errado. E quanto mais adiante continuarmos, mais tempo levará e mais difícil será voltar ao caminho certo. Precisamos voltar ao caminho certo o mais rápido possível.”

Uma pesquisa na quinta-feira mostrou que uma pequena maioria dos escoceses agora apoia a independência, reforçada pelo apoio daqueles que anteriormente rejeitavam uma cisão do Reino Unido, mas que agora apoiam por causa de sua oposição ao Brexit. Em um referendo de 2014, os escoceses rejeitaram a secessão por 55% a 45%. /Reuters

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Boris Johnson diz que saída pode ser um 'esplêndido sucesso'

Vídeo foi publicado no Twitter oficial do premiê na noite desta sexta-feira, 31

Redação, O Estado de S.Paulo

31 de janeiro de 2020 | 19h16

O primeiro-ministro britânico Boris Johnson afirmou em discurso que a saída do Reino Unido da Europa pode ser um ‘esplêndido sucesso’. O vídeo foi publicado no Twitter oficial do premiê na noite desta sexta-feira, 31, uma hora antes da oficialização do Brexit. 

No vídeo, Johnson afirma entender os diferentes sentimentos que os ingleses experimentam neste momento –  destacando que há aqueles que encaram o Brexit como um 'momento de esperança' e outros que experienciam 'ansiedade e 'perda'. 

“Eu entendo todos esses sentimentos e nosso trabalho, enquanto governo – o meu trabalho – é unir este país agora e nos levar à frente”, disse.  E acrescentou: “a coisa mais importante para dizer hoje à noite é que este não é um final, mas um começo. Este é o momento em que amanhece e a cortina sobe em um novo ato no nosso grande drama nacional”. 

Confira a íntegra do discurso:

"Hoje estamos saindo da União Europeia.

Para muitas pessoas, este é um momento surpreendente de esperança, um momento que eles pensavam que nunca chegaria. E há muitos, é claro, que sentem uma sensação de ansiedade e perda.

E depois há um terceiro grupo – talvez o maior – que começou a se preocupar com o fato de que toda a disputa política nunca chegaria ao fim.

Entendo todos esses sentimentos e nosso trabalho como o governo – meu trabalho – é reunir este país agora e nos levar adiante.

A coisa mais importante a dizer hoje à noite é que isso não é um fim, mas um começo. É o momento em que o amanhecer se abre e a cortina sobe em um novo ato em nosso grande drama nacional.

E sim, trata-se em parte de usar esses novos poderes – essa soberania recapturada –para realizar as mudanças pelas quais as pessoas votaram. Seja controlando a imigração, ou criando franquias, ou liberando nossa indústria pesqueira, ou fazendo acordos de livre comércio. Ou simplesmente fazendo nossas leis e regras para o benefício das pessoas deste país.

E é claro que acho que é a coisa certa, saudável e democrática a se fazer. Porque, por todos os seus pontos fortes e por todas as suas qualidades admiráveis, a UE evoluiu mais de 50 anos em uma direção que não se adequa mais a este país.

E esse é um julgamento que você, o povo, confirmou agora nas pesquisas. Não uma, mas duas.

E, no entanto, este momento é muito maior que isso. Não se trata apenas de uma liberação legal, é potencialmente um momento de verdadeira renovação e mudança nacional.

Este é o início de uma nova era na qual não aceitamos mais que suas chances de vida – as de sua família – dependam de em que parte do país você cresce.

Este é o momento em que realmente começamos a nos unir e subir de nível: derrotando o crime, transformando nosso NHS, e com melhor educação, com excelente tecnologia e com o maior renascimento de nossa infraestrutura desde os vitorianos, espalharemos esperança e oportunidade para todas as partes do Reino Unido

E se conseguirmos acertar, acredito que a cada mês que passa, cresceremos em confiança, não apenas em casa, mas no exterior. E em nossa diplomacia, nossa luta contra as mudanças climáticas, nossas campanhas por direitos humanos, educação feminina, redescobriremos os músculos que não usamos há décadas. O poder do pensamento e ação independentes

Não porque queremos prejudicar tudo o que nossos amigos da UE fizeram – é claro que não.

Queremos que este seja o começo de uma nova era de cooperação amigável entre a UE e uma enérgica Grã-Bretanha.

Uma Grã-Bretanha que é simultaneamente uma grande potência europeia e verdadeiramente global em nosso alcance e ambições.

E quando olho para os ativos incríveis deste país, nossos cientistas, nossos engenheiros, nossas universidades líderes mundiais, nossas forças armadas, quando olho para o potencial deste país que está prestes a ser lançado, sei que podemos transformar essa oportunidade em um sucesso esplêndido.

E quaisquer que sejam os obstáculos na estrada à frente, sei que teremos sucesso.

Obedecemos ao povo, recuperamos as ferramentas do autogoverno.

Agora é a hora de usar essas ferramentas para liberar todo o potencial deste país brilhante e melhorar a vida de todos em todos os cantos do nosso Reino Unido. ”

Despedida final

O Brexit acontecerá às 20h desta sexta-feira, 1.317 dias após a decisão dos britânicos de deixar a União Europeia. No entanto, o texto final do acordo prevê um período transitório até 31 de dezembro de 2020, durante o qual os britânicos seguirão aplicando e sendo beneficiados pelas normas europeias.

A transição busca evitar uma ruptura abrupta, especialmente para as empresas, e dar tempo para negociar a futura relação entre Londres e a UE.

Segundo o acordo, o período pode ser prorrogado até o fim de 2022 no máximo. Mas o Primeiro-ministro britânico Boris Johnson rejeita a possibilidade e incluiu no projeto de lei apresentado aos deputados um dispositivo que proíbe qualquer extensão da transição.

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Celso Ming
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Enfim, o Brexit. O que vem agora?

Ficará para ser avaliado se a saída da União Europeia não terá sido apenas uma troca de autonomia limitada por outra autonomia também limitada

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

31 de janeiro de 2020 | 19h10

Quem já foi rei nunca perde a majestade, diz o ditado. De outro jeito, alguém já disse que país que já foi sede de império continua mantendo comportamentos imperiais, mesmo muito depois de ter sido o que foi. Rússia, Irã, Turquia, Itália e França, de maneiras diferentes, podem ser apontados como exemplos disso. A Inglaterra, então, mais ainda.

Além de continuarem a se considerar imperiais, os ingleses imaginam que, em plena globalização, terão condições de gozar de plena independência, até porque seu centro de decisão está localizado numa ilha que no passado foi considerada inexpugnável.

Depois de muito vaivém e 3 anos de 15 árduas rodadas de negociações, aconteceu a planejada troca de bandeiras, desfile de fanfarras e muita comemoração. O Brexit finalmente está formalizado desde a meia-noite do dia 31 de janeiro. Os 73 representantes do Reino Unido que não podem ser mais membros do Parlamento Europeu têm prazo até dia 7 de fevereiro para limpar suas gavetas.

Mesmo depois de quase metade de sua população ter se manifestado contra a separação, a sensação prevalecente é de alívio, porque, afinal, o Reino Unido entende que sacudiu a dependência de Bruxelas e de tudo quanto a União Europeia significa em compromissos e em limitações de sua autonomia. Mas há razões de sobra para acreditar que a população inglesa não saiba ou finja não saber o que está comemorando, porque o futuro parece ainda mais incerto.

Esse movimento de separação saiu caro, perto de US$ 170 bilhões até agora e, provavelmente, outros US$ 90 bilhões ainda a cair na conta do Tesouro inglês apenas com despesas de transição, conforme estimativas que variam pouco. E há os negócios e os mercados que se perdem, mais a transferência de empresas e de empregos para países que não enfrentam as mesmas incertezas. Mas que importam esses custos e eventualmente outros quando comparados com vantagem maior, a da recuperação da autonomia, bem que não tem preço? Um império de fato olha com desprezo para mesquinharias argentárias dessa ordem...

O problema é que os ingleses não sabem ao certo o que os espera nem que novos compromissos acabarão por cercear essa sensação de liberdade, que o governo do primeiro-ministro Boris Johnson tanto alardeia. O período de transição, previsto para terminar no fim deste ano, parece de longe insuficiente para definir tantos acertos ainda a serem feitos entre as duas partes desse jogo.

Até agora, não se sabe, por exemplo, como ficarão os direitos dos ingleses que vivem fora do Reino Unido e dos demais europeus que vivem dentro do Reino Unido. Até que ponto poderão contar com o acesso aos serviços de saúde e de aposentadoria a que hoje têm direito? Os acordos preveem um sistema de regularização provisória para quem tem menos de cinco anos de residência no Reino Unido. Enquanto o reconhecimento dessa regulação não vem, os passaportes ficam retidos. Como crescem as pressões contra estrangeiros, o risco de que milhões de pessoas se tornem ilegais parece alto.

A nova situação das Irlandas é um mistério que desafia a compreensão de qualquer um. A Irlanda do Norte, que faz parte do Reino Unido, tem ao sul fronteira física com a Irlanda, membro da União Europeia. Pelas cláusulas da Paz de Sexta-feira Santa, não haverá interrupção do livre fluxo de mercadorias entre os dois países e, no entanto, para fins aduaneiros, o acordo prevê a criação de uma fronteira virtual ao longo do Mar da Irlanda. Sabe-se lá como isso vai funcionar.

O Reino Unido perderá o valioso mercado cativo da União Europeia, para onde é embarcada hoje, sem tarifas alfandegárias, mais da metade de suas exportações. Mas pretende compensar essa perda com um amplo acordo comercial com os Estados Unidos.

O primeiro-ministro Boris Johnson aposta que, até o final do ano, os tratados comerciais estarão sacramentados, quando se sabe que negociações desse tipo levam anos. Mais do que isso, para esses e outros acordos, os Estados Unidos não se contentarão apenas com acertos comerciais. Exigirão que o Reino Unido se engaje em mais amplos e mais profundos compromissos globais. No meio disso, poderá estar a necessidade de rever as atuais posições em relação às questões de preservação ambiental.

Enfim, ficará para ser avaliado se o Brexit não terá sido apenas uma troca de autonomia limitada por outra autonomia também limitada.

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Reino Unido lança moeda para marcar Brexit

Sete milhões de moedas devem entrar em circulação até o final do ano

Redação, O Estado de S.Paulo

31 de janeiro de 2020 | 19h04

LONDRES - Começou a circular nesta sexta-feira, 31, no Reino Unido a nova moeda cunhada pelo governo britânico para marcar a saída do país da União Europeia. A moeda de 0,50 libra esterlina traz a inscrição "Paz, prosperidade e amizade com todas as nações" e a data do Brexit  – 31 de janeiro de 2020.

Cerca de 3 milhões de moedas serão distribuídas a bancos, correios e lojas a partir desta sexta-feira, informou o governo. Outras 7 milhões entrarão em circulação no final do ano. 

O ministro das Finanças, Sajid Javid, que também comanda a Casa da Moeda, recebeu o primeiro lote de moedas na última semana. “Sair da União Europeia é um momento decisivo em nossa história e esta moeda marca o início deste novo capítulo”, afirmou na ocasião.

O Reino Unido tentou lançar moedas comemorativas do Brexit em duas ocasiões anteriores. A primeira tentativa trazia a inscrição 29 de março de 2019, primeira data prevista para a saída. Com o adiamento do prazo para o dia 31 de outubro, outras moedas foram cunhadas  – e precisaram ser derretidas depois. 

O projeto de lei que implementa a saída do Reino Unido do bloco europeu tornou-se oficialmente lei na quinta-feira. Depois de mais de três anos de disputas amargas sobre como, quando e se o Brexit deve acontecer, o Reino Unido deixará a UE às 23h GMT nesta sexta-feira (20h de Brasília). /Reuters

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