Andrew Urwin/The New York Times
Andrew Urwin/The New York Times

Brexit pode deixar flores presas na fronteira

A partir de março, quando está previsto que o Reino Unido se despeça da UE, Holanda e Reino Unido devem se tornar mercados separados, divididos por uma nova e importante fronteira 

Peter S. Goodman / The New YorkTimes, O Estado de S.Paulo

15 de novembro de 2018 | 05h00

Yme Pasma enfrenta um sério problema logístico criado pelo longo e tedioso processo de saída do Reino Unido da União Europeia (UE). Pasma é o chefe de operações da Royal FloraHolland, um mercado no qual são vendidas anualmente 12 bilhões de flores e plantas – mais de um terço do comércio mundial do gênero. 

No interior dos enormes armazéns da cidade de Aalsmeer, a 13 km de Amesterdã, a Royal FloraHolland opera uma central de leilões e de distribuição. Uma frota de empilhadeiras guiadas por computador transporta feixes de rosas, caixas de amarílis e folhagens diversas para docas de carga. Dali, as flores – algumas cultivadas na Hollanda, outras na África, Ásia e América Latina – saem de caminhão para serem em seguida despachadas para consumidores do mundo inteiro. O penetrante perfume parece um tanto estranho em meio ao incessante ruído das máquinas. 

Cerca de US$ 1 bilhão dessas flores vai anualmente para o Reino Unido, que hoje ainda faz parte da UE. Flores procedentes da Europa têm entrada livre pela alfândega britânica.

A partir de março, porém, quando está previsto que o Reino Unido se despeça da UE no processo conhecido como Brexit, Holanda e Reino Unido devem se tornar mercados separados, divididos por uma nova e importante fronteira. 

A menos que as duas partes conflitantes desse complicado divórcio cheguem a um acordo sobre um arranjo menos traumático, os bens que serão transportados pelo Canal da Mancha estarão sujeitos a checagens e inspeções sanitárias nas alfândegas. Flores, que hoje têm livre trânsito, podem ficar sujeitas a tarifas. 

“Dois lados, os governos estão prontos a colaborar, mas mesmo assim, para os ajustes serão necessárias centenas de pessoas, que terão de ser treinadas, armazéns para checagem e novos sistemas de computação”, disse Pasma. “Poderá haver grandes congestionamentos na Holanda. Se a mudança começasse amanhã, os problemas seriam enormes.”

Quênia

Mulheres, em esmagadora maioria, trabalham nas estufas próximas ao Lago Naivasha, a noroeste de Nairóbi. Elas cortam rosas e as reúnem em maços, que são levados de caminhão para o aeroporto de Nairóbi e embarcados em jatos para seus destinos na Europa e Oriente Médio. 

Um fluxo cada vez maior dessas rosas vai diretamente para o Reino Unido, evitando o tradicional centro de distribuição na Holanda. Mesmo assim, o Brexit ainda representa uma variável significativa. 

A União Europeia tem um acordo comercial com o Quênia que permite a importação de flores livre de tarifas. Mas, após o Brexit, o Reino Unido terá de negociar acordos próprios com o Quênia e outros exportadores. Até que um acordo seja fechado, flores enviadas do Quênia para o Reino Unido incorreriam em tarifas de cerca de 7% - um grande baque para uma indústria que se tornou grande fonte de empregos nessa nação do leste da África. 

Mas a maior parte das rosas cultivadas no Quênia destinadas ao Reino Unido ainda chega aos consumidores pela tradicional rota que há décadas domina a indústria de flores – a rota pela Holanda. 

Desvio

Numa sala envidraçada na FloraHolland, operadores olham os computadores e dão lances no agitado leilão. Antes de concluírem seus pedidos, eles caminham entre as flores para examinar o produto, como apostadores que inspecionam os cavalos no padock antes do páreo. 

Treze mostradores eletrônicos exibem a atividade leiloeira e os lances online dados por participantes de lugares tão distantes como China, Rússia e Estados Unidos. 

O processo inteiro depende de um contínuo e desimpedido fluxo de bens durante a vasta operação. O Brexit surge como um gigantesco obstáculo. Ele pode levar marchands a negociarem diretamente, fora da central de leilões, fazendo diminuir o volume de negócios por meio de lances. Grandes operadores se adaptariam com alguma facilidade, mas os menores – que dependem da central de leilões – poderão ser prejudicados. 

Pasma estuda a possibilidade de separar o fluxo de flores em duas correntes – as que chegam a Amsterdã e se destinam a compradores da Europa, não necessitando de mudanças no atual sistema; a que se destinam ao Reino Unido pós-Brexit, cuja comercialização pode requerer novos e ainda não especificados procedimentos administrativos.

Ele espera convencer autoridades europeias e britânicas a realizar na Holanda todas as checagens necessárias, para evitar atrasos. “O produto tem de cruzar rapidamente o canal ”, adverte. 

No escuro

Ainda de madrugada, floristas de todo o sul da Inglaterra chegam ao mercado de Covent Gardem, em Londres, para escolher o que vão comprar. Também chegam decoradores que fazem arranjos para hotéis e escritórios, e ainda planejadores de casamentos e donos de funerárias.

O mercado é o maior centro atacadista de flores da Grã-Bretanha. Cerca de 80% do material vem da Holanda. O Covent Garden original, no centro de Londres, é onde Eliza Doolittle vendia suas flores quando conheceu Henry Higgins em My Fair Lady

Os floristas de Covent Garden veem com crescente preocupação a aproximação da data oficial do Brexit.

Dennis Edwards, dono de uma floricultura que vende por atacado, vê o Brexit como “um passo histórico para trás”. Em meio a um mar de rosas de todas as cores concebíveis, ele ainda se lembra de quando os compradores britânicos examinavam os carregamentos de flores que chegavam ao porto inglês de Dover procedentes do porto de Roterdã, Holanda. 

“Se os inspetores encontrassem um inseto num lote de orquídeas vindas de Cingapura,condenavam o lote inteiro”, lembra ele. Edwards saía então desculpando-se com seus clientes: “Sinto, mas hoje vou deixar você mão”. Ele teme que, com o Brexit, essas dsculpas voltem a ser comuns. / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.