Andrew Testa / The New York Times
Andrew Testa / The New York Times

Brexit pode ser momento de retorno à plena soberania do Reino Unido

'É a data mais importante desde que Henrique VIII nos tirou da Igreja de Roma', afirma líder anti-UE

Redação, O Estado de S.Paulo

31 de janeiro de 2020 | 10h36

O Reino Unido se torna nesta sexta-feira, 31, o primeiro país a abandonar a União Europeia (UE). Um momento histórico durante muito tempo incerto e que, com festa para alguns e tristeza para outros, abre um futuro solitário para a nação.

Como se fosse uma metáfora do que para alguns foram quase 47 anos de preponderância europeia, o Brexit acontecerá no último segundo desta sexta-feira, quando o relógio dos britânicos marcar 23h (20h, no horário de Brasília). Em Downing Street, residência oficial de Boris Johnson, um relógio projetado na fachada fará a contagem regressiva com um espetáculo de luzes.

"Isto não é um fim, e sim um começo", deve afirmar o primeiro-ministro, em uma mensagem transmitida esta noite à nação. Com um Brexit que durante muito tempo pareceu impossível, Johnson conseguiu uma enorme vitória pessoal.

"A cortina se levanta para um novo ato. É um momento de verdadeira renovação e mudança nacional", afirmará o primeiro-ministro, de acordo com trechos antecipados do discurso.

Sem as badaladas do Big Ben, em silêncio devido a uma grande restauração, alguns britânicos devem utilizar seus próprios sinos em uma grande festa programada para acontecer diante do Parlamento de Westminster, que durante três anos foi o cenário dos intensos debates sobre a questão mais importante e divisiva na história recente do país.

Não devem faltar lágrimas entre os detratores do Brexit, muito deles jovens que não votaram no referendo de 2016 e agora veem seu futuro separado com a UE.

"Sei que estão preocupados, como muitos britânicos partidários da União Europeia", afirmou a centrista Luisa Porritt, um dos 71 nomes entre os eurodeputados britânicos que agora perdem suas cadeiras. "É a data mais importante desde que Henrique VIII nos tirou da Igreja de Roma", celebrou o líder anti-UE Nigel Farage, um dos idealizadores, ao lado de Johnson, da vitória do Brexit na consulta de 2016, quando 52% dos britânicos votaram a favor da saída do bloco europeu.

De acordo com uma pesquisa publicada esta semana, apenas 30% dos pró-UE concluíram o "luto" psicológico da ruptura. Para os eurocéticos, no entanto, o momento representa o retorno à plena soberania.

47 anos de relação complicada

O Reino Unido entrou na Comunidade Econômica Europeia - antecessora da UE - em 1973, depois de sofrer dois vetos da França, em 1963 e 1967, preocupada com a possibilidade do país ser um "cavalo de Troia" dos Estados Unidos.

Mas a relação entre Londres e Bruxelas sempre foi complicada: os britânicos não adotaram a moeda única, nem a livre circulação de pessoas, além de pedirem uma importante redução de sua participação no orçamento europeu e sempre negarem uma integração política maior.

Apesar das dificuldades de relacionamento, o resultado do referendo surpreendeu muitos analistas. Alguns o explicaram como uma reação desesperada dos esquecidos pela globalização, que desta maneira desejavam ser ouvidos.

O Brexit estava previsto para 29 de março de 2019. Mas a disputa no Parlamento entre os defensores da saída e os críticos provocou mais de três anos de ásperos debates e paralisação política. A ex-primeira-ministra Theresa May negociou um complexo acordo com Bruxelas e buscou uma aprovação impossível pelos deputados, antes de renunciar ao posto.

Então entrou em cena Johnson, carismático e polêmico, que cumpriu a promessa de concretizar o Brexit graças à esmagadora vitória que obteve nas eleições legislativas antecipadas de dezembro.

País solitário

A partir de sábado, embora pouco mude na realidade no período de transição previsto até dezembro, o Reino Unido cavalgará de modo solitário. E o primeiro-ministro terá pela frente a difícil missão de negociar acordos comerciais com a UE e os Estados Unidos, sua grande aposta para substituir seu principal sócio comercial.

"Sou otimista porque havia coisas que o Reino Unido tinha que fazer como membro da UE e agora poderá fazê-las de forma diferente", afirmou o secretário de Estado americano, Mike Pompeo, na última quinta, em Londres. "Quando olharem no retrovisor, verão os enormes benefícios para nossas duas nações", completou.

Mas as negociações não serão fáceis: Washington pressionará por mais flexibilidade de Londres nas áreas de saúde e meio ambiente, enquanto Bruxelas - que teme uma concorrência desleal - pedirá respeito aos padrões trabalhistas e ecológicos.

"Vamos pedir aos britânicos que evitem o 'dumping' fiscal, social, as ajudas do Estado", declarou o negociador europeu Michel Barnier em uma entrevista na qual garantiu que os 27 países da UE "cultivam a unidade" e nenhum outro Estado fala sobre abandonar o bloco.

"O Brexit é um fracasso e uma lição para todos", considerou o presidente francês Emmanuel Macron, um dos líderes europeus com mais críticas a respeito dos britânicos. Ele afirma que hoje é "um dia triste". Especialmente na Escócia, nação semiautônoma britânica que votou contra o Brexit e onde, por decisão de seu Parlamento, a bandeira europeia permanecerá hasteada. / AFP

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