'Bric não existe como bloco', diz ex-conselheiro dos EUA

Zbigniew Brzezinski, próximo ao atual governo americano, diz que Brasil precisa parar de ser o país do futuro

Jamil Chade, de O Estado de S. Paulo,

14 de setembro de 2009 | 08h42

"O Bric (Brasil, Rússia, Índia e China) não existe como bloco". O alerta é de Zbigniew Brzezinski, ex-conselheiro de Segurança Nacional dos Estados Unidos e uma das pessoas mais influentes em termos de geopolítica americana e hoje próxima ao atual governo de Barack Obama. "Os grupo Bric é apenas um amontoado de letras", disse, indicando que os países que formam o grupo tem interesses e aspirações diferentes. Ele ainda alerta: "O Brasil precisa parar de ser o país do futuro".

O norte-americano, conhecido por ter ajudado a fazer a transição nas relações com a China nos anos 70, agora estima que os países emergentes não podem ter "a ilusão" de pensar que a China vai fazer parte de um bloco por muito tempo. "Eles já estão caminhando para ser terceira maior economia do mundo. Em 2030, provavelmente vão dividir o mundo econômico com os Estados Unidos. A China está em outra dimensão", avaliou, em declarações em Genebra em uma conferência internacional sobre geopolítica.

 

A sigla Bric foi criada em 2001 pelo economista Jim O'Neill, chefe de pesquisa em economia global do Goldman Sachs. Seu objetivo não era criar um grupo, mas identificar um conjunto de países que, até 2050, teria um peso na economia e política mundial possivelmente superior às economias industrializadas.

 

Neste ano, Brasil, Rússia, Índia e China tiraram o acrônimo Bric do papel e organizaram pela primeira vez uma cúpula do bloco. Em várias instâncias internacionais, passaram a agir de forma coordenada. Há uma semana, em Londres, o grupo ainda emitiu um comunicado conjunto exigindo uma reforma do Fundo Monetário Internacional para garantir maior voz e voto aos países emergentes.

Os países do bloco ainda discutem a criação de acordo entre eles para reduzir suas dependências ao dólar e poder comercializar em suas próprias moedas. A crise ainda teria fortalecido o grupo, que ganhou posições entre as economias mais competitivas e saiu da recessão antes dos países ricos.

 

Mas por mais que os países emergentes estejam ganhando terreno na economia internacional e de fato realizando cúpulas entre chefes de estado, Brzezinski estima que eles não formam um bloco coeso. "A China é muito mais que um Bric. Ela é uma categoria especial de país", disse o americano, que afirma ter sido quem incentivou a Casa Branca a tentar a criação de um diálogo bilateral entre os dois países, em uma espécie de G-2.

 

O americano lembra que a secretária de Estado norte-americana, Hillary Clinton, não usa essa classificação de países. "Hillary fala em outra espécie de grupos. Há as grandes potências e, em um patamar diferente, estão Brasil, India, Russia, Turquia, Coreia do Sul", explicou Brzezinski.

 

Sobre o Brasil, o americano não poupou críticas. "O Brasil era chamado de o País do futuro. E continua sendo. Isso não mudou. A questão é que seus problemas são atuais", disse.

 

Brzezinski ainda aponta as intenções suspeitas da Rússia de voltar a ter uma atuação "imperialista" em seus vizinhos. "O governo russo ainda pensa que a maior calamidade do século XX foi a desintegração da União Soviética. Isso mostra o que é seu desejo", disse.

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