'Brics precisam ampliar cooperação na área política'

Para diplomata, isso ajudaria grupo a defender interesses em comum e democratizar as instituições internacionais

LISANDRA PARAGUASSU, BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

14 de julho de 2014 | 02h05

Embaixador da China no Brasil desde o início de 2012, Li Jinzhang assistiu os momentos de maior aproximação entre os dois países, culminando na Cúpula dos Brics, que ocorre esta semana em Fortaleza. Nesse segundo ciclo do grupo, formado em 2009, o embaixador crê que os cinco países precisam incrementar sua cooperação, até mesmo na área política. "É necessário acertar posições sobre questões importantes internacionais. Esse é um poder muito importante desse mecanismo", disse. A seguir, trechos da entrevista.

Os Brics estão iniciando um segundo ciclo de cúpulas, desde a primeira, em 2009. Depois de cinco anos, quais são os desafios, na visão da China?

A primeira coisa é implementar os consensos já alcançados, especialmente tirar do papel o banco de desenvolvimento e o Arranjo Contingente de Reservas (CRA, na sigla em inglês). Depois, discutir ativamente o estabelecimento de uma parceria econômica mais estreita entre os cinco países. Essa será a maneira de injetar mais vitalidade no crescimento econômico, especialmente nesse momento de dificuldades no cenário mundial. Também é o momento de continuar a afinar as posições sobre as questões relevantes internacionais, seja na área econômica, na política ou segurança, para que possamos defender os interesses comuns dos Brics e democratizar as instituições internacionais.

O senhor acredita que os Brics precisam, então, ter uma articulação maior também nas questões de política internacional?

Os Brics já deixaram de ser apenas uma concepção econômica e financeira e formaram um mecanismo que inclui todas as áreas de cooperação. Isso precisa ser usado. É necessário acertar posições sobre questões importantes internacionais. Esse é um poder muito importante desse mecanismo.

Então a crise entre Rússia e Ucrânia pode ser um tema dos Brics?

Esse é um tema das Nações Unidas. Temos anotado a posição russa, que salientou várias vezes que tenta resolver a crise por meio de diálogos pacíficos. Ficamos na expectativa que essa crise seja resolvida o mais rápido possível para alcançar a estabilidade regional.

O banco de desenvolvimento e o CRA são a primeira ação concreta dos Brics. Isso já é o resultado dessa ação política? Serve como uma forma de pressão aos organismos internacionais, que ainda não conseguiram fazer as reformas necessárias?

São questões interligadas, claro, a criação desses instrumentos e a necessidade de reformas no Banco Mundial e no FMI, mas não há essa relação tão direta. O banco de desenvolvimento e o CRA não servem para substituir o FMI e o Banco Mundial. Na verdade, são complementares e podem ajudar a aprofundar a cooperação e garantir a estabilidade dos países. Mas faz todo sentido que esses novos organismos ajudem a promover a reforma das instituições financeiras. Não há dúvida que é necessário aumentar a participação, a representatividade e a voz das economias emergentes na governança econômica mundial.

O governo brasileiro gostaria de ver mais investimentos chineses no País. Essa ampliação no relacionamento deve acontecer?

Sim, as empresas chinesas e brasileiras podem se complementar. Juntas, podem explorar o mercado da América Latina, África e Ásia. No Brasil, a infraestrutura é uma das prioridades. O Brasil já manifestou interesse de atrair mais investidores chineses e as empresas chinesas estão vindo ao Brasil para procurar parceiros e investir e têm apoio do governo chinês.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.