Briga política deixa Buenos Aires sem metrô

Cristina e prefeito da capital não se entendem e greve dos metroviários entra em seu décimo dia causando muita dor de cabeça para os argentinos

ARIEL PALACIOS , CORRESPONDENTE / BUENOS AIRES , O Estado de S.Paulo

13 de agosto de 2012 | 03h06

A greve do metrô de Buenos Aires completa hoje dez dias, deixando cerca de 1 milhão de pessoas sem transporte na maior cidade da Argentina. Em razão da paralisação, o caos tem tomado conta da cidade, com o trânsito da capital entrando em colapso. Além das reivindicações salariais, a crise é causada pela briga entre a presidente Cristina Kirchner e Mauricio Macri, prefeito portenho, que tem aspirações presidenciais para 2015.

Os sindicalistas afirmam que a paralisação é por "tempo indeterminado", enquanto Macri admite que a greve pode durar ainda "várias semanas". "A duração da greve dependerá da presidente Cristina. Ela já decidiu que não haverá metrô", disse Macri. Segundo ele, os sindicalistas do metrô, que se reuniram com Cristina na Casa Rosada, são kirchneristas.

O governo está retaliando as críticas de Macri com uma série de publicidades na TV direcionadas contra o prefeito. O clima de tensão, afirmam os assessores de Macri, pode se estender até 2015, quando haverá novas eleições presidenciais.

"Há muito tempo que essa briga não tem a ver com o metrô. Já virou um assunto 100% político. Ela não quer um acordo. Ela deseja submeter. É uma questão de valores. Está em jogo a liberdade, o pluralismo e a possibilidade de divergir. A presidente quer levar o país a um modelo chavista", acusa Macri.

Reeleição. Segundo o prefeito, a presidente está por trás de uma reforma constitucional para permitir sua reeleição indefinida, como ocorre na Venezuela. Mais magro, exibindo profundas olheiras, Macri diz que se "enganou" ao acreditar que seria possível negociar de forma racional com o governo Kirchner.

Há poucos dias, os sindicalistas pediram 28% de aumento salarial, mas obtiveram 23%. No entanto, quando o acordo estava quase fechado, uma dissidência colocou o pacto à pique ao insistir nos 28%.

O imbróglio vem desde 1989, quando o então presidente Carlos Menem decidiu privatizar o metrô. O serviço passou a ser administrado pela empresa Metrovías a partir de 1994, que venceu a licitação feita pelo Estado. No entanto, a cidade ficou com a propriedade das linhas, suas instalações e material de transporte. Além disso, o governo da capital ficou a cargo das obras para a expansão do metrô.

Nos últimos anos Macri pediu ao governo a transferência do controle do metrô para a cidade. Em janeiro, o governo federal e a prefeitura assinaram uma ata de entendimento. No entanto, o prefeito foi pego de surpresa pela decisão de Cristina de reduzir os subsídios fornecidos ao metrô, fato que levaria a cidade a graves problemas financeiros.

Popularidade. Sem os subsídios, afirma Macri, o preço da passagem subiria em mais de 100%. O prefeito afirma que não pode assumir um metrô "falido". O ministro do Interior e Transporte, Florêncio Randazzo, respondeu, garantindo que Buenos Aires tem dinheiro para assumir o serviço.

Os analistas políticos dizem que os portenhos ficaram "reféns" da disputa entre Cristina e Macri. Embalada pela crise do metrô, as pesquisas de opinião indicam uma queda da popularidade de ambos.

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