Brigada chefiada por filho de Kadafi usava armas brasileiras

Bombardeios da Otan destruíram fábrica de enlatados usada como armazém pelas tropas leais a ditador

Lourival Sant'Anna, O Estado de S.Paulo

01 Setembro 2011 | 00h00

ENVIADO ESPECIAL / TRÍPOLI

A principal base da Brigada Khamis, comandada por um dos filhos de Muamar Kadafi, 20 km a oeste de Trípoli, foi bombardeada repetidamente pelos aviões da Otan. Mas não a fábrica de feijão e ervilha enlatados, situada em frente - um alvo civil.

Por isso mesmo, ali, a brigada armazenou centenas de caixas de bombas, foguetes, granadas de morteiros, munição de artilharia pesada e até pistolas 9 mm de 15 tiros, fabricadas pela indústria brasileira Taurus. O repórter do Estado foi escoltado pela fábrica por um nervoso combatente, que entrava em cada recinto examinando atentamente o lugar e apontando o fuzil para todos os lados.

Anoitecia, e o lugar é um alvo muito provável, no caso de ação de comandos leais a Kadafi, que hoje completaria 42 anos no poder, e recusa-se a render-se. Pilhas de engradados de feijão e de ervilha enlatados ainda ocupam parte do galpão principal da fábrica, mas aparentemente fazia algum tempo que a sua produção dera lugar ao armazenamento de armas, a salvo dos ataques.

Na portaria de entrada da fábrica foram deixadas fardas militares, segundo o combatente de mercenários subsaarianos. No escritório de um oficial, no segundo andar do prédio central da base em frente, há documentos de militares sudaneses, egípcios e chadianos. "Vou levar para o Conselho Militar em Benghazi", disse o combatente Ibrahim Harabi, originário da "capital rebelde", guardando as pastas na mochila.

A base da brigada, uma das principais do aparato militar do regime, foi semidestruída pelos bombardeios. Os telhados de seus galpões, que abrigavam não só foguetes, morteiros e munição de artilharia pesada, mas também tanques, foram arrancados pelos mísseis da Otan.

A maior parte do armamento é de fabricação russa. Há também caixas de rifles para dispersão de multidões com munição não letal, fabricados pela belga FN Herstal. No escritório do oficial no segundo andar, há um prospecto de sistema de rádio, produzido pela australiana Q-Mac. A Líbia tinha acesso fácil ao bazar de armas internacional.

Ameaça. A chegada de Kadafi ao poder, em 1º de setembro de 1969, completa hoje 42 anos, e há receios em Trípoli de que pessoas leais a ele possam atacar. Apoiados por peças de artilharia e tanques, os rebeldes cercam Sirte, 400 km a leste de Trípoli, mas dizem preferir uma saída negociada. Ali Tarhouni, vice-primeiro-ministro do governo de transição, estima que os rebeldes devam levar uma semana para tomar Sirte se não houver rendição. Centenas de pessoas se reuniram na Praça dos Mártires para a oração do Eid el-Fitr, que celebra o fim do Ramadã, o mês islâmico do jejum diurno.

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