Brilho de equipe não reduz riscos

?Melhores e mais brilhantes? de JFK atolaram país no Vietnã

Frank Rich *, The New York Times, O Estadao de S.Paulo

08 de dezembro de 2008 | 00h00

Em 1992, David Halberstam escreveu uma apresentação para o 29º aniversário da publicação de The Best and the Brightest (os melhores e mais brilhantes), sua história clássica da arrogante equipe de John F. Kennedy que acabaria atolando os EUA no Vietnã. Ele observou que o título do livro havia entrado no idioma, mas não da forma que ele esperava. "Ele é freqüentemente mal empregado, sem o tom de ironia que o original pretendia", escreveu. Halberstam morreu em 2007, mas se ainda estivesse por aqui, suspeito que estaria falando alto e francamente sobre o que está ocorre agora. No momento em que Barack Obama apresenta seu gabinete, a qualificação de "melhores e mais brilhantes" se tornou a honraria da hora. Poucos parecem recordar que a expressão original pretendia soar irônico e não laudatório. Os organizadores do fiasco do Vietnã tinham pedigrees que fazem lembrar sinistramente alguns nomeados por Obama. McGeorge Bundy, o consultor de segurança nacional, era, como Halberstam o descreveu, "uma lenda em seu tempo, o rapaz mais brilhante de Yale, reitor de Harvard em idade precoce". Seu vice, Walt Roscow, "sempre foi um prodígio, sempre o mais jovem a fazer alguma coisa". Robert McNamara, o secretário da Defesa, foi o mais jovem e mais bem pago professor assistente da Escola de Administração de Harvard de seu tempo antes de se fazer notar como analista do Exército da 2ª Guerra, e, aos 44 anos, tornar-se o primeiro não-Ford a presidir a Ford Motor Co. Na transição de Obama, nossa cultura política fixada por Bill Clinton tem sido hiper-discutida, sobretudo a respeito da equipe de segurança nacional, mas não é isso que me faz meditar. Hillary Clinton e Robert Gates estavam ambos errados sobre a invasão do Iraque, mas nenhum dos dois foi arquiteto dessa loucura e ambos são muito mais conhecidos nos últimos anos pela cautela na formação de consenso do que pela arrogância. Os que temem uma eclosão de drama clintoniano na administração ficam advertindo que Obama nomeou uma secretária de Estado que não sabe atirar. Mas por que não pegá-lo pela palavra quando ele diz "a responsabilidade é minha"?Se Truman pôde demitir o general Douglas MacArthur, Obama certamente poderá demitir um nome de marca do gabinete no caso (improvável) de ela se tornar perigosa. Mas é a sua equipe econômica que evoca lembranças residuais de nossos melhores e mais brilhantes do passado. Lawrence Summers, o novo consultor econômico, foi o mais jovem professor titular da história de Harvard e é famoso por nunca deixar ninguém esquecer seu brilho. Foi a desconsideração desdenhosa de seus colegas, e não as observações politicamente incorretas sobre gênero e ciência, que o obrigou a deixar a presidência da Harvard. Timothy Geithner, o nomeado para a Secretaria do Tesouro, é o garoto prodígio presidente do Federal Reserve Bank de Nova York. Ele não vem com a bagagem pessoal de Summers, mas falta a seu currículo faiscante um ativo crucial: experiência fora da academia e do governo, no mundo real dos negócios e das finanças. Pós-graduação na escola Kissinger & Associates não conta. Summers e Geithner são ambos protegidos de outro senhor do universo, Robert Rubin. Seu aparecimento na foto promocional dos consultores econômicos da transição de Obama três dias depois da eleição foi, sendo indulgente, desconcertante. Desde seu aclamado serviço como secretário do Tesouro na administração Clinton, Rubin trabalhou como consultor sênior e diretor do Citigroup, que agora está sendo salvo pelos contribuintes numa sangria potencial de cerca de US$ 300 bilhões. De algum modo, o sempre alerta Rubin não notou os derivativos hipotecários tóxicos nos livros do Citi até ser tarde demais. O Citi pode não dormir nunca, mas Rubin cochilou.Geithner não foi menos moroso em descobrir a jogatina irresponsável que grassava nos grandes cassinos de Wall Street, que se estatelaram todos sob a sua, ao menos nominal, supervisão regulatória. O próprio fato de um monstro bancário tentacular como Citigroup ter-se criado já é um subproduto da desregulação capitaneada por Rubin e Summers no Departamento do Tesouro de Clinton (no qual Geithner também serviu). A reforma do New Deal que eles ajudaram a repelir, a Lei Glass-Steagall, foi sancionada em 1933, em parte porque o ancestral do Citigroup, National City Bank, havia implodido após reembalar empréstimos podres no oba-oba dos anos 1920. Bem, ninguém é perfeito. Considerando que a equipe econômica de John McCain seria encabeçada por Carly Fiorina e Joe, o encanador, o país estaria evitando ter de engolir um osso fiscal, mesmo que Obama tivesse escolhido a consultora de investimentos populares da TV Suze Orman. * Frank Rich é colunista

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