Brincadeiras e solidéus

Janeiro de 1998 foi um momento de descobrimento e criatividade, de cenas inéditas e orações em voz alta. João Paulo II nos visitou e na Praça da Revolução - o marco mais vermelho da Cuba ateia - fez uma homilia na qual pronunciou mais de dez vezes a palavra liberdade. Além do rito e da liturgia, no nível da rua e das pessoas, a vida também estava em ebulição. A produção de piadas disparou. Uma verdadeira avalanche de brincadeiras e histórias satíricas teve como protagonista tanto o próprio papa quanto o então presidente Fidel Castro. Quando acreditávamos que a picardia nos havia abandonado e a crise econômica do "período especial" havia transformado o nosso sorriso em esgar, renascia a zombaria e a risada.

Yoani Sanchez, O Estado de S.Paulo

04 de março de 2012 | 03h04

Até Pepito, o eterno menino malicioso dos nossos contos, reapareceu para surpresa dos que achavam que fugira durante a crise dos balseiros. À direita do báculo papal e à esquerda do guerrilheiro de verde-oliva, uma cabecinha hirsuta zombava do humano e do divino, do milenar e do imediato.

Entretanto, agora, a poucas semanas da chegada de Joseph Ratzinger à ilha, a fonte dos nossos sarcasmos parece ter-se esgotado, minguado.

Apenas uma piada ridícula e batida fica nos rodeando. Uma tosca palhaçada que indaga sobre a semelhança entre o Ministério da Agricultura e o Vaticano. Sem pensar muito, os interrogados a respeito respondem: "Sim... já sei. Que em 50 anos se produziram somente quatro papas ..."(papa significa também batata em espanhol), numa alusão ao desabastecimento deste tubérculo, tema hoje de conversas, boatos e até extensas reportagens na TV oficial.

A pergunta que devemos nos fazer é se este empobrecimento satírico é uma medida das poucas expectativas em torno da chegada do máximo representante da Igreja Católica. Ou então é um processo de apatia que invade nossa sociedade, que pode ser resumido com a frase: "Nada vai mudar, ninguém vai conseguir que as coisas mudem".

No final dos 90, Karol Wojtila nos incentivou a esperar. Neste 2012, a dose de cinismo nacional conspira contra o entusiasmo. Já sabemos que a frase: "Se Cuba se abrir para o mundo, o mundo se abrirá para Cuba", ficou na bela intenção de um papa polonês.

Nos quase 15 anos entre uma visita e outra, a Igreja ganhou espaço na nossa vida pública. Mas para tanto, sua hierarquia teve de fazer concessões que decepcionaram parte da congregação de fiéis, leigos e até alguns ateus iludidos. Quando indagamos entre os sacerdotes a respeito dos passos cuidadosos e lentos da Igreja cubana, eles sempre respondem com a frase: "Sobrevivemos dois milênios apesar das piores dificuldades, não podemos nos apressar agora".

João Paulo II afirmou que "o homem é o principal caminho da Igreja" e a defesa dos direitos humanos é a pedra angular desta premissa. No caso de Cuba e diante da evidência de que outros espaços de liberdades civis foram proibidos e satanizados, os templos e seminários deveriam assumir um papel menos cauteloso. A negociação entre o governo cubano e o cardeal Jaime Ortega para a libertação dos presos políticos da Primavera Negra não se concluiu - como se esperava - com um aumento do prestígio da Igreja na ilha. Mas levantou questionamentos e críticas, inclusive entre os familiares dos próprios libertados. Em parte, porque na mesa do pacto faltou a voz das Damas de Branco, que há sete anos pressionavam para que seus esposos condenados em 2003 voltassem para casa. O governo cubano escolheu o interlocutor menos incômodo para entregar os reféns. As estratégias milenares tropeçam - às vezes - nestas artimanhas do transitório.

O papa chegará a um país onde a hierarquia eclesiástica conseguiu ampliar instalações, abrir novo seminário, criar uma cátedra para discutir temas sociais com convidados muito seletos. Uma nação onde já ninguém é expulso do trabalho ou estudo por rezar o Pai Nosso, e onde a TV oficial transmite a Missa do Galo e outras tantas cerimônias. Mas também encontrará um cardeal que já passou da idade da aposentadoria, um presidente que há 5 anos superou os 80 e um povo onde os jovens escasseiam, pela emigração e pela baixa natalidade. Chega num momento de flexibilização econômica e radicalização do discurso político, de expectativas comerciais e desenganos ideológicos. Indubitavelmente, sua visita não será precedida pelo torvelinho de esperança, curiosidade e humor que João Paulo II conseguiu arrancar dos cubanos. Mas quem sabe! Quem sabe nem o mesmo Pepito tenha conseguido adiantar as surpresas que nos trará Joseph Ratzinger. De minha parte, sonho que na Praça da Revolução, ateia e exclusiva, ele proponha que "Cuba se abra a Cuba".

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