Daniel LEAL-OLIVAS / AFP
Daniel LEAL-OLIVAS / AFP

Britânicos estão céticos com consequências alarmistas do Brexit

Para muitos, estimativas de caos com a saída sem acordo da União Europeia é excesso de alarmismo, e não terá consequências graves

New York Times, O Estado de S.Paulo

15 de janeiro de 2019 | 20h42

LONDRES - Analistas e políticos britânicos têm alertado com insistência para os graves riscos que o Reino Unido corre se deixar a União Europeia sem um acordo: um milhão de empregos perdidos, queda de 8% no produto interno bruto, risco de fábricas ociosas, escassez de insulina, fuga de capitais, queda da libra.

Mas no pub Hare and Hounds, em Sunbury-on-Thames, em um bairro que votou para deixar a União Europeia, conversar com os clientes dá uma ideia de como estas estimativas foram recebidas com ceticismo e escárnio. “Já mentiram para nós tantas vezes, não é?”, disse Steve Ridley, de 60 anos, que importa peças de motos. “Um Brexit sem compromisso significa um pouco mais de burocracia, mas nada sério”, disse. 

“Isso é puro alarmismo”, disse Darren Smith, de 47 anos. “Se o governo tivesse elaborado esses fatos e números antes, talvez eu acreditasse. Eles fizeram a votação para sair da Europa, e agora atrasam e atrasam. É só uma farsa. É tudo uma farsa. Eu não confio em nenhum deles.”

O Reino Unido está à beira de uma das maiores escolhas políticas de sua história assim: golpeado por três anos de oportunismo político e debate partidário, com eleitores cada vez menos confiantes nas instituições do país. Grande parte do público, sugerem as pesquisas, concorda que há alarmismo. 

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Em pesquisas realizadas na semana passada pelo YouGov / Best for Britain, 31% dos entrevistados disseram que prefeririam deixar a União Europeia sem um acordo, e 36% escolheriam um segundo referendo, e 16% não sabiam o que fazer.

Rob Ford, professor de ciência política da Universidade de Manchester, disse que os alertas sobre os problemas do Brexit não convenceram a população por causa das vezes em que May disse o contrário. “Ela repetiu que ‘nenhum acordo com a União Europeia é melhor do que um mau acordo’, e tenta fazer o contrário agora. Ela não é considerada uma fonte confiável”, diz Ford.

Em questões altamente técnicas, como os efeitos do Brexit na política comercial, os eleitores tendem a adotar as opiniões de fontes em quem confiam, disse Ford, como os políticos, meios de comunicação e grupos de afinidade que refletem sua visão de mundo. A análise de Ford das visões britânicas sobre uma saída sem acordo chegou a duas conclusões: os especialistas levaram os riscos mais a sério do que o público em geral e a opinião polarizou-se ao longo das linhas partidárias, sugerindo que estava enraizada em "lealdades tribais".

"Uma vez que o pensamento tribal tenha se estabelecido, não tenho certeza se há alguém que possa mover significativamente o mostrador com o público", disse ele. "Essa é a minha grande preocupação, que a única coisa que pode mover o mostrador com pessoas que não acreditam que haverá conseqüências desagradáveis ​​para um Brexit que não negocia, são conseqüências desagradáveis ​​acontecendo com elas."

Darren Smith, mecânico de caminhões, diz que a expectativa de caos com o Brexit é igual ao Bug do Milênio, quando na virada de 1999 para 2000 acreditava-se que os sistemas informatizados sofreriam uma pane por causa de um erro de lógica decorrente da mudança da numeração. “Você lembra? Todos estavam em pânico, o mundo ia acabar, a rede elétrica ia cair ”, disse Smith. “Nada aconteceu. Com o Brexit será igual.” /NYT

 

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