Britânicos fora da realidade

Enquanto país luta para sair da crise econômica, nascimento do bisneto da rainha distrai as massas de seus verdadeiros problemas

LIONEL , SHRIVER, THE NEW YORK TIMES, É ESCRITORA, JORNALISTA, LIONEL , SHRIVER, THE NEW YORK TIMES, É ESCRITORA, JORNALISTA, O Estado de S.Paulo

24 de julho de 2013 | 02h02

O nascimento do príncipe de Cambridge é o pior tema possível para um cínico como eu. Os do contra e desdenhosos como nós são obrigados a fechar a boca. Simplesmente ninguém, mas ninguém mesmo, pode esculhambar o bebê real. Isso é estranho, porque fora sua inesgotável capacidade de causar engarrafamentos em torno do Palácio de Buckingham para mais um cortejo de aniversário da rainha, a monarquia britânica não tem nenhum poder real.

O fato de o primogênito da duquesa de Cambridge, Kate Middleton, ser o terceiro na linha de sucessão do trono não é mais mundanamente importante do que eu ser a terceira na fila da loja da London Tesco do meu bairro. Sendo assim, por que o Daily Mail criou uma reluzente Royal Baby Magazine (Revista do Bebê Real)? Por que houve um aplicativo Royal Baby para acompanhar o progresso minuto a minuto da gravidez de Kate? E este foi apenas um de muitos. Há ainda o Guess the Name of the Royal Baby (Adivinhe o Nome do Bebê Real) e o Royal Baby Run, no qual seu avatar anda com o pimpolho ungido equilibrando sobre um travesseiro de veludo.

Enquanto isso, os britânicos devem esbanjar US$ 95 milhões em espumante para brindar o nascimento; US$ 38 milhões em comidas para festas comemorativas; US$ 86 milhões em suvenires comemorativos, de botas femininas a docinhos; US$ 117 milhões em DVDs e livros, incluindo uma história das fraldas que têm vestido o bumbum do bebê real; e US$ 37 milhões em brinquedos com o tema do bebê real.

Tudo isso quando a Grã-Bretanha ainda se arrasta para sair de uma penosa recessão. No entanto, talvez isso seja parte da razão. O fervor sobre a gravidez e o parto real distrai as massas de suas enormes contas de gasolina. Não se pode condenar a plebe apreensiva por se agarrar a uma ocasião de irrestrita satisfação - especialmente quando se trata do primeiro neto de sua amada Diana.

Além disso, pode ser irracional entrar em êxtase pela continuação de uma monarquia sem nenhum poder político, mas nações não são construções racionais e a história da Grã-Bretanha é contada em reis e rainhas. A cultura britânica, contudo, não é mais como era. Ela foi comprometida por um dilúvio de importações, como Mad Men e World War Z, uma imigração sem precedentes e a União Europeia espezinhando a soberania nacional.

Os britânicos se aferram com unhas e dentes a seu senso de identidade e, quando se trata de identidade, agarra-se a tudo que puder - especialmente se a vitrine nacional atrai uma polpuda quantidade de dólares turísticos. Por decorativa que seja a instituição, ao menos para os britânicos, esse nascimento simbolicamente perpetua a existência de seu próprio país.

Mais surpreendente é o estardalhaço nos EUA. Dezenas de câmeras do lado de fora do St. Mary's Hospital, onde a duquesa deu à luz, eram americanas. Duas das maiores redes de TV tinham âncoras em Londres para cobrir o nascimento. Teremos perdido a vergonha? Então, não cortamos o cordão umbilical com a monarquia britânica enfaticamente e não sem algum custo? Sendo assim, por que tantos americanos parecem acreditar que Elizabeth II, seu ranheta filho Charles, os robustos netos Will e Harry, a cativante duquesa e seu recém-nascido ainda nos pertencem?

Meus conterrâneos ianques não parecem minimamente fascinados pelas figuras reais apagadas em outros países europeus. Os americanos só se interessam pela realeza britânica - algo que alguém terá de me explicar algum dia. Talvez eu tenha vivido tempo demais na Grã-Bretanha, porque estou confusa.

Benefícios. Para a Grã-Bretanha, contudo, a mania do bebê real é bastante benéfica, saudável até. Na Grã-Bretanha contemporânea, o privilégio se inverteu para desvantagem. Embora o país ainda precise abrigar uma aristocracia em alguma parte, é difícil encontrar alguém que admita pertencer a ela.

O sotaque tradicional britânico está virtualmente extinto, suplantado pelo inglês londrino, bem mais na moda - mesmo pessoas como George Osborne, secretário das Finanças, tem visitado o populacho nas fábricas e começa a abandoar o H aspirado.

As camadas superiores continuam de cabeça baixa por boas razões. Quem se colocaria no caminho da má vontade, da inveja e da acidez econômica acusatória que envenenam as cartas ao editor do Guardian? Ao contrário de sua anacrônica reputação de polidez e civilização, o britânico moderno pode ser uma das pessoas mais desagradáveis e mais ressentidas do planeta.

A família real é tudo o que resta na Grã-Bretanha de uma elite que aceita alegremente seu status elevado sem pudor. O início de uma nova geração traz um sopro de boa vontade, de otimismo e de esperança que é um tônico para a alma britânica. Meu Deus, eles estão sendo gentis - mesmo com uma criança que tem mais de uma vantagem do ponto de vista de classe. Porque ninguém pode, ninguém mesmo, esculhambar o bebê real. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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