Britânicos reabrem inquérito sobre morte de Jean Charles

Policiais que mataram brasileiro em 2005 irão depor; família acompanhará novo inquérito que começou nesta 2ª

Agências internacionais,

22 de setembro de 2008 | 06h39

Depois de três anos de a polícia britânica ter matado Jean Charles de Menezes, o inquérito sobre a morte do brasileiro foi reaberto nesta segunda-feira, 22. Os dois policiais que mataram a tiros o eletricista, em 2005, em uma estação de metrô de Londres, depois de tê-lo confundido com um suposto homem-bomba, devem depor, pela primeira vez, em um inquérito público sobre o caso que começa na capital britânica.   Veja também: Entenda o novo inquérito sobre o caso Jean Charles   Jean Charles tinha 27 anos quando foi atingido na cabeça por sete tiros disparados pela polícia antiterrorista do Reino Unido, ao embarcar numa estação do metrô de Londres em 22 de julho de 2005. O brasileiro foi confundido com o suspeito de uma tentativa de atentado a bomba ocorrida nas ruas de Londres no dia anterior. As tensões estavam elevadas na capital britânica, porque duas semanas antes quatro terroristas suicidas haviam atacado o sistema de trânsito da cidade e matado 52 pessoas. O inquérito, que pode demorar três meses, deverá ser o mais detalhado exame público dos acontecimentos que levaram à morte de Jean Charles. Dezenas de testemunhas são esperadas para prestar depoimento numa corte improvisada no Estádio Oval de Cricket de Londres, incluindo os outros passageiros do metrô que presenciaram o incidente.   A legislação britânica exige a realização de um inquérito quando alguém morre inesperadamente, violentamente ou de causa desconhecida. Ninguém foi condenado pela morte de Jean Charles: em 2006 os promotores decidiram que não buscariam a condenação criminal dos policiais envolvidos e a Comissão Independente de Denúncias contra a Polícia disse que eles não enfrentariam medidas disciplinares por causa da ação.   No ano passado, uma corte britânica condenou a força policial por ter colocado em perigo a segurança pública ao fazer os disparos. A mãe e o irmão de Jean Charles devem ser ouvidos em algumas partes do inquérito. "A família está muito feliz, porque foi uma longa batalha para chegar a este ponto", disse Estelle du Boulay, porta-voz da família. "Foi uma longa espera."   Segundo a BBC, a família do brasileiro criticou o anonimato concedido a policiais em posição-chave no caso e a possível ocultação de documentos confidenciais por motivo de segurança nacional. A mãe de Menezes, Maria, e o irmão dele, Giovani, viajam do Brasil para o Reino Unido, e devem acompanhar os trabalhos do inquérito por um mês, à partir de 3 de outubro.   Investigações   No total, já são quatro as investigações sobre a morte do brasileiro, que resultou ainda em um julgamento criminal. A primeira examinou as circunstâncias em que o brasileiro foi baleado e resultou em processo contra a polícia metropolitana, que foi considerada, em 2007, culpada de violar normas de procedimento, colocando a segurança pública em risco no episódio que resultou na morte do eletricista brasileiro, mas não pela sua morte.   Equipes de policiais à paisana seguiram Jean Charles do momento em que ele deixou um conjunto habitacional onde, acreditava-se, também estaria um suposto militante suicida, Hussain Osman, e seguiu para a estação de Stockwell. O brasileiro foi morto à queima-roupa dentro de um vagão do trem que havia parado na plataforma.   Uma outra investigação examinou as ações dos oficiais no comando horas depois que Jean Charles foi morto. Supostamente eles haviam divulgado informações imprecisas sobre a identidade da vítima. Este inquérito concluiu que eles não haviam planejado enganar o público deliberadamente, mas foram criticados pela forma como lidaram com as informações.   Um último inquérito foi estabelecido para analisar uma queixa da família Menezes sobre a forma como foi tratada após a morte de Jean Charles. Mas a queixa foi rejeitada. A investigação que começa nesta segunda-feira é parte das leis de Inglaterra e País de Gales, que determina que todas as mortes violentas devem ser apuradas. Este tipo de inquérito conta com um júri e é presidido por um juiz, mas é diferente de um tribunal criminal porque o juiz decide quem deve apresentar evidências para que toda a estória seja revelada para o júri. Já os casos criminais ocorrem em torno de advogados que apresentam evidências e testemunhas que reforçam a sua versão dos acontecimentos.   Atirar para matar   Segundo a imprensa britânica, o caso deve selar o destino do chefe da polícia metropolitana, Ian Blair, muito criticado na época e hoje sob pressão por alegações de racismo na polícia e favorecimento de um amigo. A polícia deve se defender procurando explicar a pressão que enfrentava após os ataques de 21 de julho de 2005. Também vai procurar defender a tática de atirar para matar que, alega, era a única forma de defesa contra um homem-bomba nas ruas de uma cidade britânica.   Neste sentido, o veredicto do inquérito iniciado nesta segunda-feira pode, em parte, ditar a forma que a ação de combate ao terror pode adotar futuramente no país.   Matéria atualizada às 7h40.

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