Britânicos sentem o peso do Brexit

Perda do mercado comum europeu começa a ser notada no cotidiano do Reino Unido

Veridiana Jordão - especial para o Estadão

LONDRES - Durante muito tempo o Brexit foi uma abstração. Os críticos previam uma queda na economia, causada pela perda de acesso ao mercado europeu. Os defensores diziam que o impacto seria compensado com acordos comerciais com o restante do mundo. Mas a discussão, antes travada com cálculos econométricos, agora chegou ao bolso e à mesa dos britânicos.

“Perdemos 27 países de acesso para nós. Essa é a maneira mais simples de explicar o que estamos passando. Tínhamos um oceano de oportunidades e agora temos de pescar em um lago”, afirmou Simon Spurrell, diretor da empresa de queijo Cheshire Cheese Company.

Para Cátia Gomes, gerente do restaurante Over Under, em Clapham, no sul de Londres, o problema é a falta de produtos. “Boa parte dos nossos fornecedores são europeus e todos os dias falta alguma mercadoria. Por exemplo, já ficamos uma semana sem copos descartáveis”, disse.

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Franco Doretto, chefe de cozinha do restaurante italiano Bardo St Jame’s, no centro de Londres, reclama que o gargalo é a falta de funcionários. “Precisamos de pessoas para trabalhar em diversas áreas do restaurante. A falta de profissionais é um pesadelo, porque significa que a nossa equipe está trabalhando mais horas do que o normal.”

Os depoimentos refletem a realidade de diversas empresas no Reino Unido. Desde que o país deixou a União Europeia, em 31 de janeiro, vários setores da economia enfrentam dificuldades em se adaptar às novas regras e medidas impostas pelo governo.

Impacto

Muitas destas dificuldades foram mascaradas pelos efeitos da pandemia. Agora, com a reabertura, após a vacinação, ficaram evidentes os obstáculos criados pelo Brexit. Segundo o Escritório de Responsabilidade Orçamentária (OBR, na sigla em inglês), que faz previsões econômicas, a saída da UE reduzirá o PIB britânico em 4% no longo prazo, duas vezes mais do que os 2% de impacto da covid-19.

Um dos principais efeitos práticos do Brexit é a escassez de mão de obra. “A falta de profissionais é resultado da combinação de Brexit e pandemia. Os europeus, que antes circulavam livremente, retornaram aos seus países na pandemia e agora precisam de visto para entrar no Reino Unido. Isso causou um impacto em diversos setores na economia”, afirmou Iain Begg, professor da London School of Economics.

Simon Spurrell, co-fundador da empresa de queijo britânica Cheshire Cheese Company Foto: Veridiana Jordão/Estadão

Alexis Torrente, gerente de restaurante há mais de 20 anos, reclama do alto custo para treinar novos profissionais. “São mais de duas semanas para treinar um barista ou um garçom. Com o aumento da oferta de emprego, as pessoas não ficam muito tempo na mesma empresa. Se você me perguntar a quantidade de funcionários que eu preciso neste mês, respondo que é a mesma quantidade que eu precisava no mês passado. Isto gera prejuízo”, disse.

Burocracia

Para piorar o cenário, as novas regras para importação e exportação travaram o comércio britânico. “São declarações alfandegárias, normas alimentares, verificação de mercadorias e assim por diante. As empresas estão sentindo o efeito desta mudança, porque exportar e importar agora é mais caro e leva mais tempo”, disse Begg.

O Brexit tirou o Reino Unido do mercado europeu, de 445 milhões de consumidores, e de um território aduaneiro ainda maior, que se estende do Atlântico à Turquia. Para as empresas britânicas, a mudança significa mais papelada e custos. A UE comprava metade das exportações britânicas. Segundo o OBR, o comércio exterior do Reino Unido deve cair 15% este ano.

De acordo com o diretor do Centro Europeu de Economia Política Internacional do Reino Unido, David Henig, os britânicos trocaram um cenário de livre-comércio por outro com barreiras comerciais – e estão sofrendo as consequências desta decisão. “Isso é normal, agora que o Reino Unido e a UE abandonaram o livre-comércio, existe um aumento da burocracia e dos protocolos a serem seguidos”, disse.

No entanto, Henig explica que as empresas não foram avisadas das mudanças. “Os detalhes do processo de exportação ficaram disponíveis um pouco antes do Natal do ano passado. Foi um processo muito rápido e as empresas não tiveram tempo para se prepararem. Contudo, o governo não tinha certeza de quais setores da economia precisariam de mais ajuda. Esta foi uma grande mudança, mas de uma forma não planejada.”

Surpresa

Por mais de 20 anos, Nigel Symonds, diretor da Workstation, empresa de venda de móveis, fez negócios com clientes em diversos países da Europa. Mas a burocracia para continuar os negócios europeus o surpreendeu. “Recebemos pouquíssima orientação e assistência do governo. Foi um processo horrível, desafiador e também estressante. Tivemos de contratar pessoas para nos ajudar a entender tudo. Foi um caos”, afirmou.

Alterações

As mudanças na economia britânica também começam a ter impacto dentro do Reino Unido. Segundo Henig, a inflação deu um salto, os produtos ficaram mais caros e há menos escolhas para os consumidores.

Segundo o OBR, o índice de preços deve sofrer a maior aceleração dos últimos 30 anos, podendo chegar a 5% em 2021. “O Reino Unido escolheu este caminho. E teremos uma perda econômica como resultado disso. Portanto, o Reino Unido precisa agora passar por essa transição”, disse.

De acordo com Cátia Gomes, gerente do restaurante Over Under, foi necessário reajustar o valor de tudo. “Os itens que compramos da Europa aumentaram de preço e, consequentemente, o estabelecimento precisou subir o valor de seus produtos. O cliente reclama, mas não temos muito o que fazer.”

Torrente também se queixa da escassez. “Já aconteceu de ficarmos uma semana sem cerveja, porque o nosso fornecedor não conseguiu fazer a entrega. Muitas vezes perdemos clientes, porque eles estão acostumados com certos produtos e, de repente, não temos para oferecer. Ou seja, mais prejuízo para a empresa”, afirmou. 

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