Britânicos veem fechamento de jornal com desconfiança

A decisão da News Corporation de fechar o tabloide britânico News of the World, na quinta-feira, não ajudou muito a silenciar a revolta sobre as revelações que o jornal obteve grampeando os telefones de cidadãos privados. Em vez disso, pode ter jogado mais lenha na fogueira da indignação. Uma onda de desconfiança e de condenação se ergueu de todas as direções dirigida principalmente contra Rupert Murdoch, uma figura tão poderosa como polêmica.

Jennifer Preston e Jeremy Peters, O Estado de S.Paulo

09 de julho de 2011 | 00h00

O establishment da mídia britânica, usuários de Facebook e do Twitter e até empregados do próprio Murdoch questionaram sua iniciativa. Alguns disseram que era um complô para salvar a aprovação pelo governo da ampliação do controle da News Corp. sobre a empresa de comunicações via satélite British Sky Broadcasting, ou BSkyB. Outros a viram como uma mera reformulação da marca.

Já há indícios de que o News of the World pode ser reconstituído de alguma forma. De acordo com fontes próximas à empresa, a News Corp. já vinha estudando o lançamento de uma edição dominical de seu outro tabloide, The Sun. O fim do News of the World, que circula somente aos domingos, parece criar uma oportunidade para isso. A News International, de Murdoch, é a maior editora de jornais da Grã-Bretanha, um status que confere a seu dono uma tremenda influência econômica e política. Além de publicar o News of the World e o Sun, a News International possui também o Times, um jornal menor, mas de maior prestígio.

Prós e contras. O News of the World tem uma circulação de 2,7 milhões, volume que confere escala à News International entre os anunciantes e um domínio do mercado que, segundo analistas, Murdoch provavelmente não quer ver reduzido. "Sua participação significativa no mercado jornalístico é uma parte muito importante de sua base de poder no país - ela é essencial para sua força e influência", diz Claire Enders, da Enders Analysis, uma empresa de pesquisa de mídia.

De acordo com ela, a News Corp., provavelmente, não abrirá mão desse poder e seria inteligente em analisar uma publicação semelhante ao News of the World sob uma marca diferente. Não fazer isso, sustenta Claire, seria um problema empresarial grave no que diz respeito à situação econômica de seus jornais e de suas receitas.

Outros especialistas questionam se o sucesso do News of the World seria reproduzido com tanta facilidade. "Creio que eles ficariam muito pressionados a aumentar a circulação do Sun a esse nível", diz George Brock, diretor de jornalismo da City University, em Londres. Para ele, um Sun dominical, provavelmente, não seria uma compensação completa. A vantagem para a empresa de Murdoch seria conter qualquer ameaça à compra pendente da BSkyB pela empresa.

A News Corp. enfrenta também uma fuga de anunciantes, algo que os usuários de mídias sociais acreditam poder acelerar criando uma campanha online para encorajar um boicote à companhia. Um usuário do Twitter, Paul Friend, criou um documento no Google com os e-mails dos presidentes executivos das empresas que anunciam no jornal. Centenas de pessoas enviaram menagens para os executivos com suas queixas. Na quinta-feira de manhã, mais de 20 empresas disseram que suspenderiam ou reavaliaram seus gastos publicitários no jornal.

À medida que o escândalo se ampliava durante a semana, a mídia social tornou-se um importante veículo para as pessoas expressarem seu descontentamento. Um coro crescente de usuários do Facebook e do Twitter pede uma prestação de contas completa das alegações de que executivos do News of the World subornaram policiais, mentiram para membros do Parlamento e contrataram investigadores para ouvir mensagens de correio de voz deixadas em telefones celulares de uma garota assassinada e de vítimas de ataques terroristas.

David Babbs, diretor executivo da 38 Degrees, uma organização de defesa de interesses da população, disse que mais de 110 mil assinaturas foram recolhidas nos últimos dias cobrando um inquérito completo sobre o caso. A organização está pedindo que o governo rejeite o pedido de Murdoch para obter uma posição controladora na BSkyB. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

SÃO JORNALISTAS DO INTERNATIONAL HERALD TRIBUNE

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