Britânicos vendem armas ao Irã e à Síria

Parlamento contesta contratos equivalentes a R$ 41,6 bi com países acusados de violações

LONDRES, O Estado de S.Paulo

18 de julho de 2013 | 02h39

Uma comissão do Parlamento da Grã-Bretanha revelou ontem que o país fechou 12 bilhões de libras (R$ 41,6 bilhões) em contratos de armamentos para 25 dos 27 países da lista violação de direitos humanos feita pela Secretaria do Exterior do próprio país. Há três acordos de venda de armas no valor de 143 mil libras (R$ 483 mil) para o regime de Bashar Assad, na Síria, e 62 contratos com o Irã no valor de 803 milhões de libras (R$ 2,7 bilhões).

No relatório, a Comissão de Controle de Exportação de Armas ressaltou a existência de um conflito de interesse entre a política de venda de armas no país e sua política de direitos humanos. Entre outros países que estão na lista britânica de violadores dos direitos humanos da chancelaria britânica - que também foram beneficiados com grandes pedidos de armas - estão China, Rússia, Sri Lanka, Bielo-Rússia e Zimbábue.

O caso da Síria preocupou a comissão porque um dos contratos, de microfones submarinos, pode violar as sanções internacionais contra o regime de Assad. Os outros dois, segundo o governo, foram fechados com entidades de ajuda internacional que atuam no país.

O maior temor da comissão, no entanto, é a possibilidade de aliados de Assad, como Teerã e Moscou, repassarem as armas vendidas por Londres para o regime sírio.

Apenas com o Irã, há 62 licenças de vendas de armas, a maioria de material de criptografia. Os negócios com a Rússia incluem a venda de equipamento biotecnológico, armas para franco-atiradores, armas com miras a laser e drones.

O governo britânico garantiu à comissão que não concederia licenças para a exportação de materiais que podem ser usados para reprimir dissidentes ou provocar conflitos regionais e internos. O relatório recomenda que, no caso do Irã e da Rússia, esses contratos devem ser revistos.

"O governo deveria agir com um julgamento muito mais cauteloso na hora de conceder licenças para regimes autoritários, em contradição com sua autodeclarada política externa", disse o presidente da comissão, o deputado John Stanley. "Continuaremos a pedir esclarecimentos do primeiro-ministro. Gostaríamos de saber se o equipamento de criptografia tem uso militar."

Por meio de seu porta-voz, o primeiro-ministro britânico, David Cameron, informou que o país tem uma das políticas de controle de armas mais rigorosas do mundo.

O maior contrato do governo britânico é com Israel. As 381 licenças de exportação somam um total de 7,8 bilhões de libras (R$ 26,6 bilhões) em vendas de armas ou materiais estratégicos.

A China e a Arábia Saudita têm também contratos bilionários, no valor de 1,4 bilhão de libras (R$ 5 bilhões) e 1,8 bilhão de libras (R$ 6,3 bilhões), respectivamente. Outro parceiro de exportação que foi contestado pela comissão é o Sri Lanka. "Foram 600 fuzis vendidos para um país com histórico amplo de abuso de direitos humanos", disse Stanley.

A venda de armas para a Argentina também provocou críticas da comissão. O país, que já entrou em guerra com Londres em razão do controle das Malvinas, há 31 anos, comprou munição de pequeno calibre, armas a laser e material de criptografia. O relatório destaca que durante o conflito, um navio britânico foi torpedeado com mísseis comprados da França.

Dos 27 países da lista de violadores dos direitos humanos, apenas Coreia do Norte e Sudão do Sul não têm contratos de licença de armas com Londres. Cuba tem três, mas não efetuou nenhuma compra.

O relatório, que foi fechado em maio, foi divulgado um dia depois de o chanceler William Hague anunciar que a Grã-Bretanha enviaria material de proteção contra armas químicas para os rebeldes sírios, em meio a denúncias de uso de gás sarin por parte das forças de Assad. / AFP e REUTERS

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.