Brown dá a volta por cima

Brown dá a volta por cima

Pesquisas britânicas indicam um inesperado renascimento do austero e tristonho premiê trabalhista; o conservador Cameron terá de ser mais do que 'o voto da mudança'

, O Estado de S.Paulo

27 de março de 2010 | 00h00

Apenas 28% dos eleitores britânicos acham que o premiê Gordon Brown tem as características necessárias para ser um primeiro-ministro eficiente, segundo uma pesquisa de opinião publicada esta semana. Cerca de 60% dos entrevistados dizem que ele não tem. A coisa mais espantosa nisso? Que foi a melhor pesquisa que Brown e seu Partido Trabalhista obtiveram em 18 meses.

Aliás, a pesquisa coloca os trabalhistas apenas dois pontos atrás dos conservadores de David Cameron e dentro do alcance de um hipotético, e histórico, quarto mandato. Há somente três meses, uma perspectiva dessas pareceria implausível. Brown - sem carisma, austero, tristonho e impopular - havia passado o último trimestre do ano passado combatendo uma tentativa de golpe lançada por membros de seu próprio gabinete, enquanto conservadores se refestelavam numa vantagem de dois dígitos nas pesquisas.

Os rumores da morte de Brown parecem ter sido prematuros. Um colunista comparou seus poderes de sobrevivência aos do russo Rasputin, e os conservadores agora avaliam que acabar com Brown pode requerer mais astúcia, determinação e sorte do que pensavam. Uma eleição que já foi vista como uma barbada, agora não é muito garantida - apesar do fato de que, mesmo alguns dos colegas ministeriais de Brown, admitem que mal conseguem suportar "a ideia de outros cinco anos de Gordon".

A pesquisa, que mostrou os conservadores com 37% e os trabalhistas com 35%, foi significativa por duas razões. A primeira retratou a oposição em uma batalha para atingir um importante patamar de 40%. A segunda colocou os governistas bem na marca de 35% que estrategistas do partido admitem ser o mínimo necessário para o governo impedir a vitória dos conservadores. Ela melhorou o ânimo dos trabalhistas e seguramente vincou as testas dos conservadores.

Isso porque a oposição precisa de uma vitória com vantagem de seis a sete pontos para conseguir uma maioria estreita de cadeiras na Câmara dos Comuns. (Na Grã-Bretanha, um partido com maioria parlamentar dirige o governo. Se nenhum partido obtiver uma maioria definida, tem-se um parlamento travado. O partido com maior pluralidade forma um governo, a menos que o partido minoritário consiga formar uma coalizão maior.)

Sombra de Bush. Esse ônus do voto popular cabe aos conservadores em razão das seções eleitorais obsoletas da Grã-Bretanha, que não levam em conta mudanças populacionais recentes e deverão ser redesenhadas na próxima legislatura. Especialistas em eleições concordam em que uma vitória dos conservadores com cinco pontos de vantagem ainda deixaria os trabalhistas como o maior partido - mesmo com 20 cadeiras ou mais aquém de uma maioria - no resultado eleitoral mais espantoso em décadas. Assim, com ecos de George W. Bush em 2000, Brown poderia perder na votação popular e reeleger-se.

Mas o que explica sua extraordinária resistência apesar dos revezes e humilhações? Com certeza não é a economia. Brown - que certa vez se vangloriou de ter dado um fim aos ciclos de expansão e crise como ministro das Finanças - presidiu o maior e mais espetacular crash em 60 anos. O déficit orçamentário da Grã-Bretanha está projetado para atingir US$ 275 bilhões este ano, ou 13% do PIB. Também não é porque o eleitorado gosta do premiê.

Relatos de bastidores de parlamentares trabalhistas pintam um quadro de um primeiro-ministro vociferando contra inimigos reais ou imaginários, que intimida seus assessores. Até Alistair Darling, chanceler de Brown, queixou-se dele. Mas, de algum a forma, quanto mais punição Brown absorve, mais obstinado ele se torna; quanto mais impopular ele é, mais simpático ele parece aos trabalhistas. O idiossincrático apoio britânico aos perdedores ao menos ajuda a explicar a resistência de Brown, assim como um sentimento semelhante ajudou John Major a vencer "de virada" em 1992. Pode haver também um senso de que tempos difíceis requerem um líder duro.

Se as eleições forem, de fato, um referendo em que os eleitores são questionados se estão, a) felizes com o atual governo, e b) se não, prontos a endossar a oposição, então, neste momento, o público britânico parece inclinado a responder negativamente às duas perguntas. Isso explica os números da pesquisa e suscita o espectro de um Parlamento travado.

Antecipando essa possibilidade, Brown prometeu um referendo sobre a eliminação do sistema eleitoral por maioria simples da Grã-Bretanha. É duvidoso que o público aceite esse encaminhamento. Mas é uma carta que Brown poderá jogar se a eleição chegar a um impasse.

Apesar de ser uma medida favorável aos trabalhistas, as chances são de que não chegarão a isso. A campanha de Cameron não teve um começo fácil, mas os conservadores esperam que, na hora da verdade, os eleitores simplesmente não tolerarão a ideia de outros cinco anos de Brown.

"Vote na Mudança" é o slogan conservador - uma promessa simples, não obstante vazia, que não arrisca a fazer nenhuma promessa. E este é o problema: Cameron vence Brown numa disputa direta, embora ainda tenha de selar o acordo, sobretudo porque boa parte da muito falada "Middle Britain" (os setores médios da Grã-Bretanha) ainda despreza os conservadores.

Esta eleição deve ser realizada antes de junho. Haverá, pela primeira vez, três debates de líderes na televisão. Ninguém pode prever com segurança que impacto, se algum, eles terão na campanha.

O que parece provável é que Brown se beneficiará das expectativas reduzidas. Isso, por sua vez, aumenta a pressão sobre Cameron, para mostrar que ele não é meramente uma melhor escolha que Brown, mas uma figura talhada para o cargo por direito próprio. / TRADUÇÃO CELSO M. PACIORNIK

É EX-CORRESPONDENTE EM WASHINGTON DO JORNAL "THE SCOTSMAN"

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