Mauricio Lima / NYT
Mauricio Lima / NYT

Budapeste impede que refugiados embarquem

Com a medida, Hungria pretende conter fluxo de imigrantes para países vizinhos

Jamil Chade, CORRESPONDENTE, GENEBRA, O Estado de S. Paulo

01 Setembro 2015 | 20h12

Diante do impasse político sobre o que fazer com milhares de refugiados que têm chegado todos os dias, a Europa parou alguns de seus trens, deixando centenas de pessoas impedidas de viajar, e vê uma proliferação de acusações entre capitais.

O governo da Hungria decidiu nesta terça-feira adotar uma medida drástica e fechou sua principal estação ferroviária para impedir que refugiados seguissem viagem para Áustria e Alemanha. O incidente reforçou a falta de estratégia da Europa para lidar com o maior fluxo de refugiados desde a 2.ª Guerra.

Na segunda-feira, os húngaros liberaram a viagem para os refugiados, mesmo sem vistos. O resultado foi o desembarque de um número recorde de pessoas em Viena, com mais de 3,6 mil refugiados em apenas um dia. Os austríacos criticaram a iniciativa e fecharam sua fronteira.

A polícia de Budapeste reverteu sua política nesta terça-feira, esvaziou a estação de Keleti e impediu que centenas de pessoas embarcassem. Nenhum trem entrava ou saía, enquanto refugiados se queixavam de que haviam gastado tudo que tinham em passagens e as mostravam em sinal de protesto. 

Horas depois, a estação foi aberta apenas para cidadãos locais e turistas. Os refugiados passaram a tentar entrar na estação por janelas ou portas laterais, todas trancadas.

“Estamos vivendo um grande caos”, relatou ao Estado o porta-voz do Alto-Comissariado da ONU para Refugiados em Budapeste, Babar Baloch. “Duas mil pessoas estão fora da estação protestando.” Os refugiados gritavam “Alemanha, Alemanha” e “Merkel, Merkel”, numa referência ao destino que gostariam de tomar. 

Indecisão. A classe política europeia ecoou a confusão na estação de Budapeste. A ministra do Interior da Áustria, Johanna Mikl-Leitner, culpou a Alemanha pelo caos e exigiu que Berlim esclarecesse qual era sua política. Segundo ela, os alemães estariam incentivando o fluxo cada vez maior ao indicar que estão prontos para receber 800 mil pessoas em 2015 – enquanto cobram que todos recebam mais pessoas. 

A chanceler alemã, Angela Merkel, voltou a pedir nesta terça-feira que os refugiados sejam distribuídos de forma igualitária pela Europa e indicou que vai insistir para que um acordo nesse sentido seja alcançado em até duas semanas. Governos do Leste Europeu e da Grã-Bretanha são contrários à imposição de cotas. O primeiro-ministro espanhol, Mariano Rajoy, alertou que “nenhum país pode ser obrigado” a receber refugiados.

O chanceler austríaco, Werner Faymann, atacou a Hungria, acusando o país de ter “permitido por dias que as pessoas embarcassem” e a questão fosse “transferida” ao vizinho. “Que tipo de política é essa?” Ele defendeu que a União Europeia (UE) corte verbas da Hungria, o que enfureceu Budapeste.

O governo húngaro convocou o embaixador austríaco no país para pedir explicações e demonstrar sua irritação. “É incompreensível que um líder de um país vizinho fale nesse tom e com base em mentiras”, atacou o chanceler húngaro, Peter Szijjarto. Janos Lazar, chefe de gabinete do primeiro-ministro húngaro, Viktor Orban, acusou os partidos de esquerda da Europa pela situação. 

Orban estará quarta-feira em Bruxelas para tentar negociar uma saída para a crise com a UE.

Budapeste também exigiu um esclarecimento por parte da Alemanha, indicando que 1,8 mil estrangeiros chegaram ao país em 24 horas. 

A polícia de Budapeste informou nesta terça-feira que reforçará a segurança em pontos da capital pelos próximos sete dias e prendeu em um dia mais de 500 pessoas que tentavam cruzar a fronteira com a Sérvia. Dois mil pedidos de asilo foram feitos em apenas uma noite.

Recepção. Se na Hungria o caos tomava conta das proximidades da estação, em Munique, as autoridades deram prioridade à organização da chegada dos estrangeiros – cerca de 2,2 mil apenas nesta terça-feira. Doações da população local encheram os depósitos da estação de trens, obrigando a polícia a pedir às pessoas que não se mandassem mais alimentos e roupas. 

Ao Estado, representantes da ONU relataram que passageiros que chegavam para trabalhar pela manhã em Munique, vindo das cidades vizinhas, entregavam seus sanduíches e cafés aos refugiados.

No total, mais de 350 mil pessoas chegaram à Europa entre janeiro e o final de agosto, um recorde. Os dados da ONU, porém, alertam que as mortes já superam a marca de 2,6 mil.

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