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Gilles Lapouge
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Budistas e não violência

Era de se esperar que um Nobel da Paz denunciasse as infâmias contra os rohingyas

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

19 Outubro 2017 | 05h00

Há pouco mais de um mês, ouvimos os ecos de uma nova tragédia: em Mianmar, país quase exclusivamente budista que sofreu longos anos de ditadura militar, populações pertencentes a uma minoria muçulmana, os rohingyas, foram expulsas de suas casas – e até mortas – por comandos budistas.

Os infelizes, entre eles mulheres e crianças, tentaram ir para um país vizinho, Bangladesh, lugar infinitamente pobre, onde a chegada dessas centenas de milhares de pessoas provocou um caos inacreditável, no qual os rohingyas que não foram feridos nem assassinados sobrevivem em condições de indigência.

O mundo está cansado desses genocídios, perseguições e extermínios que pairam sobre o planeta como uma nuvem de abutres. A caçada aos rohingyas é só mais um capítulo dessa história. No entanto, levanta duas questões singulares.

A primeira é a personalidade da mulher que, sem ter o título, cumpre o papel de chefe de Estado e, anos atrás, recebeu o Prêmio Nobel da Paz por sua ferrenha oposição à violência dos generais de Rangum. 

Essa mulher é Aung San Suu Kyi, que agora é ministra das Relações Exteriores e presidente do Conselho de Estado, o que lhe dá poderes executivos. E ela está sob a mira de seus velhos inimigos, os generais birmaneses. Então, seria de se esperar que essa “combatente da liberdade”, mesmo sendo budista, denunciasse as infâmias cometidas contra os muçulmanos rohingya. Nada. Silêncio. Surdez. Cegueira.

Outro ponto de interrogação: são budistas os generais de Rangum – cúmplices óbvios do assassinato de um povo muçulmano – e a “soldadesca”, que persegue os rohingyas na estrada para Bangladesh?

Budistas? É desses homens e mulheres vestidos de açafrão, com um sorriso eterno no rosto e um respeito pela vida até de galinhas e moscas, é dessas pessoas que cantam o amor por todos os povos, é dessa gente doce que inventou e espalhou a mais bela palavra de ordem do mundo, o “não à violência!”, é desses seres gentis que vem um barbarismo sangrento como o de Gengis Khan, como o da SS de Hitler, como o da Al-Qaeda e do Estado Islâmico? Sério?

Sim. Eles mesmos. Os especialistas em budismo respondem. Alegam circunstâncias atenuantes. Não querem que, de repente, os budistas saiam da caixinha dos “santos” para se mudarem para a caixinha do “diabo”, com os nervos à flor da pele. “Sim”, afirma o etnólogo Bénédicte Brac de la Perrière, o budismo deveria seguir o Buda, especialmente em Mianmar, onde ele está ligado ao ramo “teravada”, que prega “o caminho da moderação”. Mas então por que essa fúria contra os rohingyas?

Doutrina. Bom, alguns budistas, apavorados com a violência dos rohingyas, começaram uma “contraofensiva”, uma espécie de “budismo violento”. É o caso do monge Wirathu, que fez discursos de ódio e morte contra os muçulmanos. Mas não entre em pânico. O clero budista retirou do monge Wirathu o direito de pregar. Também é reconfortante o fato de o budismo birmanês não ter negado nada, apesar da situação delicada. A “não violência” continua no cerne da doutrina.

No entanto, durante a busca, os “doutores em budismo” exumaram budistas antigos e não muito sorridentes, como no século 3 a.C., o império budista de Asoka e a “realeza” do Sri Lanka. Enfim, permanece o essencial: os monges budistas não podem comer carne, a menos que seja uma oferenda. E são proibidos de trabalhar porque, nunca se sabe, um gesto desajeitado ao cavar a terra pode matar alguns animais.

Isso mostra o quão delicada é a vida de um bom budista “não violento”. Jesus Cristo pregou uma admirável religião de amor, mas seus discípulos massacraram Constantinopla nas Cruzadas, os monges espanhóis atearam fogo nas bruxas e nos luxuriosos. Decididamente, as religiões não são um “rio de águas tranquilas”. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU 

*É CORRESPONDENTE EM PARIS

 

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