Buenos Aires estará mais perto de Brasília e distante de Caracas

Recuperação da relação comercial com Brasil une rivais, assim como política externa pautada por negócios

Rodrigo Cavalheiro, correspondente/Buenos Aires, O Estado de S.Paulo

22 de novembro de 2015 | 03h00

Qualquer dos empresários que seja escolhido presidente pelos argentinos terá uma política externa mais ligada a negócios e menos a ideologia.

O governista Daniel Scioli, cuja fortuna foi construída pelo pai, dono de uma rede de eletrodomésticos nos anos 70, sustenta que metade de sua política externa será dedicada ao Brasil. Ele visitou a presidente Dilma Rousseff dias antes do primeiro turno e recebeu o apoio do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva em sua campanha. 

“Scioli forjou um perfil de mais diálogo e de composição para os problemas bilaterais”, avalia o economista Dante Sica, diretor da consultoria Abeceb. “Ele mudará a forma de relacionamento, ainda que o tom seguirá dependendo da macroeconomia argentina”, diz Sica.

Este ano, o comércio entre os dois países atingiu o nível de 2009. A má fase decorre do baixo crescimento no Brasil e de travas ligadas ao controle do câmbio na Argentina. Importadores e exportadores locais têm dificuldade para conseguir dólares para quitar dívidas ou comprar equipamentos.

Sica prevê que Scioli proteja setores com baixa competitividade – disparidade aumentada pela desvalorização de 40% do real em relação ao peso. 

O opositor Mauricio Macri, cujo pai foi um dos principais empreiteiros do país nos anos 80 e 90, prevê uma abertura mais veloz – ainda que tenha dito essa semana que não liberará importações repentinamente. O ritmo favoreceria a pressão brasileira por avanço em acordos como o negociado pelo Mercosul com a União Europeia. “Talvez Scioli se preocupe mais em manter as alianças regionais e Macri se dedique a acelerar a aproximação com os EUA. Mas isso não interfere na relação dos dois com o Brasil”, avalia o sociólogo Ricardo Rouvier.

Bolivarianos. Integrantes da equipe de Scioli dizem que ele dispensa proximidade excessiva com Equador, Bolívia e Venezuela. Macri tem insistido que usará contra Caracas, caso o país não liberte presos políticos como Leopoldo López, a cláusula do Mercosul que exige dos integrantes seguir regras democráticas. Macri dificilmente conseguiria a suspensão venezuelana, pois é preciso unanimidade, mas colocaria pressão sobre Brasil, Uruguai e Paraguai. No debate de domingo, ele questionou Scioli se ele faria a mesma denúncia. O governista não respondeu.

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