NIKOLAY DOYCHINOV / AFP
NIKOLAY DOYCHINOV / AFP

Búlgaros se revoltam contra sistema político corrupto e transição do comunismo falida

País de 7 milhões de habitantes, o mais pobre da União Europeia, tem protestos há semanas pedindo a saída do populista Boiko Borisov, acusado de proteger uma oligarquia que comanda a Bulgária

Vladislav Púnchev / EFE, O Estado de S.Paulo

03 de agosto de 2020 | 15h04

SOFIA - Insatisfação, vergonha e cansaço. É isso o que muitos búlgaros sentem sobre o fato de que seu país seja o mais pobre e o mais corrupto da União Europeia treze anos após ingressar no bloco e trinta anos depois de uma transição fracassada em que a ditadura comunista deu lugar a uma oligarquia que domina a política e a economia.

A raiva ganhou força com os efeitos econômicos da pandemia e explodiu em uma onda de protestos que, há quatro semanas, exigem a queda do governo e uma regeneração política das instituições do Estado. 

Os manifestantes protestam contra o primeiro-ministro, o populista Boiko Borisov, e o procurador-geral, Ivan Geshev, a quem eles acusam de servir interesses de uma oligarquia econômica e não dos cidadãos.

Nova geração lidera a luta

Uma nova geração de búlgaros de 20 a 45 anos, que puderam viajar, trabalhar e estudar na Europa Ocidental, está no centro desses protestos vistos como uma oportunidade de realizar o sonho de democracia de seus pais quando o regime comunista terminou em 1989.

"Na Bulgária, nunca vivemos em uma democracia. Temos uma oligarquia que controla todas as instituições, não reconhece a divisão de poderes e o processo eleitoral é corrompido e manipulado", diz Atanas Sharkov, um dos jovens que acampou no centro de Sofia para pedir a renúncia de Borisov.

A transição para a democracia na Bulgária foi guiada por ex-líderes comunistas. Não houve revoltas populares, como na Romênia, nem movimentos sociais fortes, como na Polônia, e nem mesmo uma dissidência e oposição política, como aconteceu na República Tcheca.

"Houve um golpe ordenado e dirigido por Moscou que levou a uma privatização que foi um roubo de bens públicos. Os líderes do Partido Comunista se tornaram capitalistas da noite para o dia. Foi assim que a oligarquia evoluiu até o momento atual", explica Konstantin Sabchev, professor de História da Universidade de Sofia.

Nessa transição do comunismo para o capitalismo, a inflação e o desemprego dispararam, o Estado praticamente quebrou e uma debandada migratória começou: quase dois milhões de búlgaros deixaram o país. Em agosto do ano passado, cerca de 900 mil búlgaros trabalhavam no exterior, quase 13% da população do país. Hoje o país tem 7 milhões de habitantes. 

A epidemia de coronavírus fez, somente em março, 200 mil deles voltarem para casa, entre eles muitos dos jovens que agora estão no centro dos protestos. 

Ahmed Dogan e Delyan Peevski

Muitos búlgaros identificam os problemas com dois nomes: Ahmed Dogan e Delyan Peevski. O primeiro é um ex-agente da polícia secreta comunista que se tornou milionário e que até 2013 presidiu o Movimento por Direitos e Liberdades (DPS), o partido de minoria turca. Embora esteja na oposição há 30 anos e seja apenas a terceira força no Parlamento, o DPS "controla vastas áreas do sistema institucional búlgaro: judicial, executivo e legislativo", analisa o cientista político Ognyan Minchev.

O DPS, ainda controlado por Dogan nos bastidores, garante estabilidade parlamentar a todos os governos desde 1989, tanto do Partido Socialista, herdeiro dos comunistas, quanto dos governos conservadores e, mais recentemente, do populista Borisov. O gatilho para essa onda de protestos foi um vídeo em que policiais expulsaram um político da oposição de uma praia pública usada como propriedade privada por Dogan.

Delyan Peevski, na casa dos 40 anos, é protegido de Dogan e dono de um império da mídia. Sua nomeação em 2013 como chefe do serviço de espionagem provocou uma onda de protestos que muitos veem como antecedentes das manifestações atuais.

"Infelizmente, 2013 foi a última vez nesses 30 anos que a Bulgária perdeu a oportunidade de se tornar um estado de direito. Nada mudou desde então", afirmou um diplomata europeu de alto nível em anonimato. Segundo essa fonte, a concentração da mídia nas mãos de Peevski é o que faz da Bulgária o 111º lugar, de um total de 180, no Índice de Liberdade de Imprensa Repórteres Sem Fronteiras.

'Como a Rússia de Putin'  

"É um protesto moral de uma geração entre 15 e 45 anos que se recusa a viver em um Estado que cada vez mais se parece com a Rússia de Putin", define Evgeniy Daynov, professor de ciência política na New Bulgarian University. Ele acredita que as instituições são sequestradas por essa oligarquia.

Um búlgaro que pediu para não ser identificado disse que essa é "uma última luta pela democracia". Ele se mudou para a Alemanha com os pais há 20 anos. "Voltei para a Bulgária para tentar fazer o que meu pai não conseguiu. Para realizar o seu sonho de que a Bulgária seja um moderno país europeu". 

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