Carlos Barria/Reuters
Carlos Barria/Reuters

Bullying da China está ficando perigoso; leia artigo 

Xi claramente percebeu como empresas ocidentais de tecnologia têm exacerbado tensões sociais em suas sociedades, ampliado desigualdades de renda e estabelecendo monopólios capazes de dominar governos

Thomas L. Friedman / The New York Times, O Estado de S.Paulo

21 de outubro de 2021 | 05h00

Desde que Deng Xiaoping abriu a China para o mundo, no fim dos anos 70, muitos no Ocidente quiseram vê-la vencer, porque pensávamos que a China — apesar de sua brutal e autoritária estrutura política — estava a caminho de uma maior abertura econômica e social. Lamentavelmente, o presidente Xi Jinping reverteu os passos nessa direção de maneiras que poderiam representar perigo real para o futuro desenvolvimento da China e perigo real para o restante do mundo.

Tudo o que Xi anda fazendo atualmente está erodindo a confiança entre empreendedores chineses e estrangeiros sobre quais regras valem para negócios dentro da China agora, enquanto que, ao mesmo tempo, erode a confiança externa na China — que engoliu Hong Kong — de que o país não avançará agora contra Taiwan, o que poderia desencadear um conflito direto com os EUA.

Ainda que eu não queira que a estratégia linha-dura de Xi seja bem-sucedida — isso representaria um perigo para todos os países e economias livres no Pacífico — também não quero que a China quebre ou se fragmente. Estamos falando de um país de 1,4 bilhão de pessoas, cuja desestabilização afetaria de tudo, do ar que respiramos ao preço dos calçados que compramos, até a taxa de juros das hipotecas de nossas casa. Isso é um verdadeiro dilema. Infelizmente, porém, não acho que Xi se dê conta de quanta incerteza seu comportamento recente ocasionou — dentro e fora da China.

Para aqueles que não estão acompanhando em casa, permitam-me começar a explicação com uma pergunta: o que você teria pensado se lesse esse jornal em 2008, um ano após a Apple lançar o iPhone, e a manchete da capa afirmasse que Steve Jobs estava desaparecido? Haveria milhões de buscas no Google, “Por onde anda Steve Jobs?”.

Bem, se existe um equivalente na China para Steve Jobs, ele é Jack Ma, o cofundador da gigante do varejo eletrônico Alibaba. Alguém viu Ma ultimamente? Garanto a você que muita gente perguntou este ano ao Google, “Por onde anda Jack Ma?”.

Apesar de reportagens afirmarem que Ma apareceu brevemente em Hong Kong, também houve rumores de que talvez ele tenha passado o ano anterior sob algum tipo de confinamento domiciliar. Desde que Ma discursou em outubro de 2020 criticando as agências reguladoras das finanças na China, Xi avançou contra o império global da Alibaba e bloqueou o que teria sido a mais valorizada abertura de capital de todos os tempos, de uma afiliada da empresa, programada para ocorrer em novembro do ano passado.

Foi como se Xi dissesse, “Quer saber, se eu tiver de escolher entre ver Alibaba, Tencent, Baidu e todas as outras gigantes chinesas da tecnologia como campeãs globais — com todos os seus recursos próprios de finanças e dados, mas escapando do jugo do Partido Comunista chinês — ou tê-las como empresas de segundo escalão, mas sob meu próprio controle, preferirei a segunda opção".

Xi claramente percebeu como empresas ocidentais de tecnologia têm exacerbado tensões sociais em suas sociedades, ampliado desigualdades de renda e estabelecendo monopólios capazes de dominar governos — e não quer absolutamente esse capitalismo irrestrito para a China. Compreendo. Mas desaparecer com fundadores dessas empresas? Muitos jovens inovadores chineses tem de estar se perguntando, “Qual é o meu futuro aqui? Quais são as novas regras?”.

Uma segunda anedota: depois de a ministra das Relações Exteriores australiana, Marise Payne, expressar apoio, em abril, a uma investigação independente a respeito das origens da pandemia de coronavírus, a China suspendeu suas importações de cevada, carne, vinho e carvão da Austrália. Sério? Isso foi uma reação exagerada e absurda de intimidação, notada por todos os vizinhos da China no Pacífico.

Depois, duas semanas atrás, a China mandou 150 aeronaves de seu Exército de Libertação Popular sondar o espaço aéreo próximo a Taiwan, o que foi apenas o mais recente lembrete de que a China realmente leva a sério a possibilidade de tomar Taiwan à força. Uma possibilidade que devemos temer.

Mas Pequim, também. Porque esse comportamento intimidador poderia ser um erro de cálculo de Xi — e por muitas razões, mas nenhuma delas mais importante que esta: semicondutores.

Sim, aqueles minúsculos chips, os tijolos da economia digital do século 21, são uma vulnerabilidade oculta neste cenário.

Taiwan é uma rocha sólida cravada num mar tempestuoso, habitada por 24 milhões de pessoas. Mas essa pequena ilha é lar da mais sofisticada — segundo aclamação mundial — fabricante de microchips do planeta, a Taiwan Semiconductor Manufacturing Company, ou TSMC.

A cerca de 160 quilômetros de lá, do outro lado do estreito, fica a China continental, com 1,4 bilhão de habitantes. A maioria deles é da mesma etnia, fala a mesma língua e come o mesmo tipo de comida que os habitantes de Taiwan. Mas os chineses do continente nunca foram capazes de dominar a fabricação dos mais avançados chips lógicos que a TSMC fabrica.

A TSMC é a maior fornecedora mundial de microchips, detendo em torno de 50% do mercado, apesar de Dan Wang, um analista de tecnologia da firma de pesquisa Gavekal, ter afirmado em março a respeito da participação no mercado da TSMC: “Acho que esse dado ainda subestima sua importância, porque esses chips são os mais avançados que existem”.

Realmente, a TSMC e sua concorrente sul-coreana Samsung possuem as únicas fundições no mundo capazes de produzir os chips mais avançados, de 5 nanômetros, e há expectativa de que a TSMC inicie a produção de sua próxima geração de chips, de 3 nanômetros, em 2022. Quanto menores os transistores nos chips, mais capacidade de processamento eles comportam. A maior fabricante de chips da China, a Semiconductor Manufacturing International Corporation, não chega nem perto disso. A empresa é competitiva somente em relação a chips de 28 nanômetros e apenas começou a produzir chips de 14 nanômetros.

Passei algum tempo recentemente no Vale do Silício questionando desenvolvedores americanos de chips a respeito de qual segredo da TSMC a China é incapaz de replicar.

Sua resposta foi curta: confiança.

A TSMC é uma fundição de semicondutores, o que significa que ela fabrica chips projetados por diferentes empresas — particularmente Apple, Qualcomm, Nvidia, AMD e até mesmo a Intel. Ao longo dos anos, TSMC construiu um ambiente excepcional de confiança, entre parceiros que compartilham propriedades intelectuais com a TSMC para fabricar chips de sua própria autoria. Ao mesmo tempo, grandes fabricantes de maquinário — como a americana Applied Materials e a holandesa ASML — alegram-se em vender duas melhores ferramentas de fabricação de chips para a TSMC. Isso garante que a empresa taiwanesa permaneça sempre na vanguarda da engenharia de materiais e da litografia envolvidas na fabricação e na gravação das bases de qualquer semicondutor.

E enquanto maior fornecedora de chips para os produtos da Apple, a TSMC é constantemente pressionada a ultrapassar fronteiras de inovação para acomodar os ininterruptos e curtos ciclos de produção da Apple de novos telefones e iPads. Isso força todo o ecossistema da TSMC a melhorar cada vez mais, com cada vez mais rapidez. Desta maneira, os custos da TSMC baixam cada vez mais, o valor de seu ecossistema aumenta cada vez mais, e o número de pessoas que podem aderir a ele e se beneficiar disso se amplia cada vez mais.

“A TSMC sempre atuou como uma startup — foi obstinada — e sempre sintetizou o que havia de melhor para todos”, explicou Steve Blank, um inovador na área de semicondutores que leciona um curso em Stanford a respeito da geopolítica das tecnologias avançadas. A Intel, principal fabricante de chips dos EUA, meio que perdeu o rumo, por fabricar tudo por conta própria e apenas para si mesma, acrescentou Blank. “Assim, ela não teve clientes que a pressionassem, porque era cliente de si mesma e, como resultado, se tornou complacente.” Pat Gelsinger, o novo diretor executivo da Intel começou a reverter esse processo.

Eu costumava me preocupar com a possibilidade de a grande ideia de Xi — o “Made in China 2025”, seu plano de domínio sobre todas as novas tecnologias do século 21 — fazer o Ocidente comer poeira. Mas me preocupo menos com isso hoje em dia. Tenho grande respeito pela destreza da China no setor de manufatura. A indústria de chips desenvolvida internamente no país ainda é boa o suficiente para inovar muito, com seriedade, assim como os setores de supercomputação e aprendizagem de máquina do país.

Mas a principal coisa que a gente aprende ao analisar a indústria de chips é que todas as mais avançadas e atuais tecnologias do setor são tão complexas — exigindo tantas contribuições e equipamentos tão sofisticados — que nenhuma empresa detém o melhor de todas as categorias; então, elas precisam de muitos parceiros confiáveis.

E se a China acredita que poderá ser bem-sucedida em tomar Taiwan apenas para ter acesso à TSMC, pode estar redondamente enganada. Muitas das máquinas e dos produtos químicos usados pela TSMC para fabricar chips vêm dos EUA e da União Europeia, e esse fluxo seria imediatamente interrompido.

Não, você não consegue fabricar os melhores chips do mundo atualmente sem silício ou parceiros confiáveis. E tudo o que Xi vem fazendo — da Austrália a Taiwan, a Jack Ma — os está afastando. Como um executivo da indústria americana de chips definiu para mim a respeito de Xi, “Os chineses replicaram e imitaram”, mas nunca criaram um tipo de ecossistema similar ao da TSMC, “porque não há confiança”. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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