Busca argentina por laços com Irã irrita judeus do país

Argentina vê em Teerã um cliente para suas exportações e o governo iraniano, por sua vez, quer atenuar o isolamento diplomático

SIMON ROMERO, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

25 de novembro de 2012 | 02h08

Dezoito anos se passaram desde que um homem dirigindo uma perua Renault carregada de explosivos lançou-se contra a sede do centro comunitário judaico em Buenos Aires, matando 85 pessoas. As investigações não progrediram. Os mandados de prisão expedidos pela Interpol não deram em nada. Com idades avançadas, alguns suspeitos de envolvimento com o atentado começaram a morrer.

Mas na árdua busca por justiça para as vítimas do atentado, que figura entre os mais graves ataques antissemitas cometidos desde o fim da 2.ª Guerra, poucas coisas exasperaram mais as lideranças judaicas argentinas do que os movimentos feitos nas últimas semanas pelo governo de Cristina Kirchner para estreitar as relações da Argentina com o Irã, que esconde nos altos escalões de seu establishment político diversas pessoas acusadas pelos promotores argentinos de ter autorizado o atentado.

Ambos os países têm razões internas para buscar relações mais próximas. Com a desaceleração de sua economia, a Argentina vê no Irã um cliente importante para suas exportações agrícolas: o comércio entre os dois países cresceu mais de 200% ao longo dos últimos cinco anos, atingindo US$ 1,2 bilhão. Por sua vez, o Irã tenta atenuar seu isolamento diplomático, expandindo laços amistoso já estabelecidos com outros países da América Latina, notadamente Venezuela, Bolívia e Equador.

"Não conseguimos entender isso", diz Guillermo Borger, o presidente da Associação Mutual Israelita-Argentina (Amia), que foi atacada em 1994. "O mundo está fechando as portas para o Irã e, agora, vamos dar aos iranianos a chance de dizer que a Argentina é, em certa medida, um país amigo. Os iranianos insistem em afirmar que não há ninguém por lá que tenha tido envolvimento com o atentado, então por que a Argentina quer conversa com eles?"

O estado de espírito é bem diferente em Teerã, onde as autoridades reagiram muito bem à meia-volta diplomática dos argentinos. "Esperamos que as acusações contra nossa gente sejam abandonadas", diz Hamid Reza Taraghi, que dirige o departamento internacional do influente Partido da Coalizão Islâmica. "Essa aproximação ajudará a reduzir a pressão internacional sobre o nosso país."

Tanto o ex-presidente argentino Néstor Kirchner quanto Cristina, sua viúva e sucessora na presidência, deram forte apoio às investigações, uma posição bastante diversa da adotada por Carlos Menem, que era o presidente quando o atentado foi cometido e foi formalmente acusado de obstrução da Justiça. Menem, hoje senador, nega a acusação.

O inquérito sofreu com denúncias de suborno, atrasos e incompetência, mas Alberto Nisman, um promotor especial que assumiu o caso em 2005, parece ter trazido novo alento ao caso. Ele acusa o grupo libanês Hezbollah, que tem fortes laços com Irã e Síria, de ter executado o atentado, e também diz que autoridades iranianas participaram do planejamento e financiamento. Apesar disso, a Argentina e o Irã estão se reaproximando.

Nem todos os judeus argentinos, que formam a maior colônia judaica na América Latina, com cerca de 250 mil pessoas, são contrários às conversas. Numa entrevista, Sergio Burstein, que apoia Cristina e é líder de um grupo que representa parentes de vítimas do atentado, disse que as negociações representam uma "centelha de esperança" de que o Irã entregue os acusados para que serem julgados na Argentina.

Assim como muitos aspectos do atentado permanecem misteriosos, dúvidas e segredos recobrem as conversas entre autoridades iranianas e argentinas. a chancelaria argentina rejeitou o pedido de informações sobre o conteúdo das negociações feito por sobreviventes do atentado e por lideranças judaicas no país.

O chanceler Hector Timerman, que conduz os esforços de aproximação diplomática, também se recusou a conceder uma entrevista para falar sobre as negociações, que foram iniciadas depois de o Irã ter se negado por diversas vezes a cumprir os mandados internacionais de prisão expedidos pela Justiça argentina contra nove pessoas. Entre os suspeitos estão o ex-presidente do Irã Ali Akbar Hashemi Rafsanjani e o general Ahmad Vahidi, atual ministro da Defesa do país.

Embora investigadores argentinos e americanos tenham chegado à conclusão de que o atentado foi cometido por um militante do Hezbollah, Nisman sustenta que a decisão de atacar a Amia foi tomada em 1993, numa reunião na cidade iraniana de Mashhad, com a presença de Rafsanjani.

Outras pessoas envolvidas nas investigações, incluindo James Bernazzani, um ex-agente do FBI, contesta a participação direta do Irã. Bernazzani, que auxiliou os argentinos em suas diligências investigativas, critica a utilização do cruzamento circunstancial de telefonemas, sem que as conversas tenham sido interceptadas, para sustentar a acusação de que Mohsen Rabbani, adido cultural do Irã na Argentina em 1994, estava envolvido na coordenação do atentado.

Além disso, Bernazzani questiona o uso que os investigadores argentinos fizeram do testemunho de um dissidente iraniano cuja confiabilidade foi posta em questão.

Obviamente, Ibrahim Hussein Berro, o libanês de 21 anos, identificado por meio de uma análise de DNA, que se achava ao volante da perua Renault, morreu na explosão. Quanto a outro suspeito, Samuel Salman El Reda, um colombiano que os promotores argentinos acusam de ter coordenado a célula do Hezbollah que executou o atentado, há indícios de que ele esteja vivendo no Líbano.

Já os iranianos envolvidos no caso não parecem ter seus movimentos cerceados pelos mandados de prisão expedidos contra eles. Falando da cidade iraniana de Qom, Rabbani concedeu em outubro uma entrevista a um jornal brasileiro em que o ex-adido cultural do Irã na Argentina zomba da investigação argentina e proclama sua inocência. Adriana Reisfeld, presidente do Memória Ativa, grupo que representa parentes de pessoas mortas no atentado, diz que não tem esperanças de que a aproximação com o Irã leve à conclusão do caso. "Não podemos deixar que o caso seja encerrado e esquecido."

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