Busca por identidade leva jovens ao EI

Halima Khanom, de 32 anos, viu a irmã Sultana no noticiário. Imagens de uma câmera de segurança mostravam Khadiza e suas amigas de 15 anos, Shamima Begum e Amira Abase, passando tranquilamente pela segurança do Aeroporto de Gatwick, na Grã-Bretanha, e embarcando no voo 1966 da Turkish Airlines para Istambul. Mais tarde, subiriam no ônibus que as levaria até a fronteira síria.

Katrin Bennhold, THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

22 de agosto de 2015 | 02h03

As imagens transformaram as três meninas de Bethnal Green, como agora são conhecidas, nos ícones de um novo e preocupante fenômeno: jovens atraídas para uma subcultura jihadista que dá poder às mulheres, segundo Sasha Havliceck, um dos fundadores e diretor executivo do Institute for Strategic Dialogue.

Calcula-se que 4 mil ocidentais tenham viajado para Síria e Iraque - mais de 550 seriam mulheres - para se engajar no Estado Islâmico (EI), mostra um relatório divulgado pelo instituto que ajuda a administrar o maior banco de dados sobre mulheres que se mudaram para a região.

Os homens, em geral, se tornam combatentes, como as gerações anteriores de jihadistas que procuravam os campos de batalha da Bósnia, do Afeganistão e do Iraque. São escassas, no entanto, as informações sobre as mulheres ocidentais do EI. Impedidas de combater, elas dão apoio aos esforços do grupo para a construção de um Estado como mulheres, mães, recrutadoras e, às vezes, propagandistas da violência online.

Muitas são solteiras e jovens, ainda adolescentes ou com pouco mais de 20 anos - a mais nova de que se tem notícia tinha 13 anos. Seus perfis diferem em termos socioeconômicos, de etnia e nacionalidade, mas frequentemente têm uma maior escolaridade e são mais estudiosas que os colegas homens.

Especialistas em segurança agora afirmam que elas podem representar uma ameaça para o Ocidente tanto quanto os homens. Por terem menor probabilidade de serem mortas e maior de perder o cônjuge em combate, talvez tentem voltar para casa, doutrinadas e amarguradas.

Uma em cada quatro mulheres do banco de dados do Institute for the Strategic Dialogue já é viúva. Mas, se elas constituem um bem estratégico para o EI, não são levadas em conta na maioria dos aspectos do contraterrorismo ocidental.

As moças de Bethnal Green, esguias adolescentes, com sorriso fácil e sotaque londrino, eram elogiadas pelos professores e admiradas pelas colegas da Bethnal Green Academy.

"Até pouco tempo atrás, as moças procuravam homens bonitos. Hoje, elas querem muçulmanos praticantes", disse Zahra Qadir, de 22 anos, que faz trabalho de 'desradicalização' para a Active Change Foundation, a instituição de caridade de seu pai em East London.

O EI está fazendo um jogo deliberado com essas jovens, elaborando seus cantos de sereia voltados especialmente para as suas vulnerabilidades, frustrações e sonhos, e preenchendo um vazio do qual, até o momento, o Ocidente não tomou conhecimento.

Na Grã-Bretanha da austeridade, após o 11 de Setembro, uma época em que uma profunda crise de identidade e de valores varre o país, enquadrar-se na sociedade pode ser mais difícil para as jovens muçulmanas do que para os rapazes.

Sentindo uma crescente hostilidade pelo Islã e pelos cortes de gastos que afetaram as mulheres e os jovens das comunidades proletárias, como a sua, elas se opõem às liberdades e oportunidades ocidentais que seus pais procuraram. E estão convencidas de que a moda ocidental sexualiza as jovens desde muito cedo, enquanto as feministas ocidentais veem no hijab um símbolo de opressão.

Respondendo aos familiares nos esporádicos telefonemas e conversas nas plataformas de mídia social sobre os motivos de sua fuga, as jovens disseram que queriam deixar para trás uma sociedade imoral e buscar a virtude e um sentido religioso. Em uma das mensagens no Twitter, nove dias antes de deixar a Grã-Bretanha, Amira escreveu: "Sinto que não pertenço a esta época".

As moças muçulmanas em geral superam os rapazes na escola, mas em casa sofrem restrições. Muitas, como Khadiza, têm irmãs cujos casamentos foram arranjados quando elas eram adolescentes. Khanom, hoje com 32 anos, tinha 17 quando casou, apenas um ano a mais que Khadiza. E elas usam o véu, que as identifica como muçulmanas nas ruas, onde frequentemente são hostilizadas.

No seu mundo, ir para a Síria e integrar-se ao califado é uma maneira de "assumir o controle do próprio destino", disse Tasnime Akunjee, um advogado que representa as famílias das três jovens. "É uma questão de escolha - a coisa mais humana", disse Akunjee. "Essas moças são inteligentes, são excelentes alunas. Quando você é mais inteligente que os outros, acha que pode fazer qualquer coisa."

Por serem muçulmanas, as jovens serão tratadas de maneira muito diferente das mulheres e das moças da minoria yazidi, que são levadas pelo EI como escravas e violentadas com a justificativa de que são infiéis.

O grupo tem uma "agência de casamentos" para mulheres ocidentais. Este ano, a ala da comunicação da Brigada Al Khanssaa, uma milícia da moral totalmente feminina, publicou um manifesto estabelecendo que as mulheres terão de concluir a educação formal aos 15 anos e podem casar-se com apenas 9, mas também elogiou sua existência no EI como "consagrada".

Abu Bakr al-Baghdadi, que se proclamou califa do EI, tomou uma alemã de ascendência iraquiana como sua terceira mulher e a encarregou de tratar dos problemas das mulheres no califado.

As redes sociais permitiram que os seguidores do grupo visassem diretamente às mulheres jovens, alcançando-as na intimidade dos seus quartos de dormir com propaganda inspirada na cultura pop ocidental - imagens de jihadistas no crepúsculo e mensagens sobre uma maior autonomia. Uma postagem recente vinculada a uma conta do Estado Islâmico parafraseou o popular anúncio de maquiagem da L'Oreal ao lado de uma moça com um véu: "Covered Girl (Jovem coberta). Porque eu valho a pena".

"É uma versão desvirtuada do feminismo", afirmou Sasha Havlicek, do Institute for the Strategic Dialogue, que deu o seu depoimento sobre as mulheres ocidentais que integram o grupo jihadista à Comissão de Relações Exteriores da Câmara dos EUA, no dia 29.

"Para as moças, entrar para o EI é uma maneira de se emancipar dos pais e da sociedade ocidental que as decepcionaram", disse Sasha. "Para o EI, isso é muito importante para o moral da tropa, porque os combatentes querem mulheres ocidentais. Na batalha de ideias, podem apontar e dizer: 'Olhem, elas escolheram o califado, não o Ocidente'".

Numa letra rabiscada numa página rasgada de um calendário, as moças fizeram uma lista detalhada para a sua viagem: sutiã, celular, aparelho para depilar, maquiagem e roupas quentes, entre outras coisas.

Descoberta no fundo do armário de uma das moças, a lista contém também um relato de uma quarta jovem que tinha planejado viajar, mas desistiu quando seu pai teve um derrame. Desde então, um juiz confiscou os passaportes dela, de três outras estudantes da Bethnal Green e de uma quinta moça.

Em geral, essas meninas são sensíveis à pressão do grupo. Se uma das jovens for para a Síria, disse Maher, será possível prever com maior precisão que as outras irão segui-la. Em grupos como o de Bethnal Green, as dúvidas são sufocadas e as opiniões, rapidamente reforçadas. Amira era talvez a mais ativa das amigas nas redes sociais, e seu comportamento deu indícios da gradativa radicalização das jovens.

Em suas mensagens, que costumava enviar sob o pseudônimo Umm Uthman Britaniya, há comentários adolescentes sobre moda, escola e o time favorito - o Chelsea - cada vez mais mesclados com postagens pedindo informações sobre como aprender árabe rapidamente e que comportamento seria islâmico ou não.

"Os piercings de nariz são Haram ou não?" pergunta numa das mensagens, questionando se eram proibidos pelo Islã. Duas semanas mais tarde, ela escreveu: "O Profeta (PBUH) amaldiçoou quem tira as sobrancelhas".

Depois que as moças desapareceram, soube-se que o pai de Amira, Hussen Abase, tinha sido filmado assistindo a uma reunião islamista em 2012, organizada por um notório pregador do ódio, Anjem Choudary, e também assistida por Michael Adebowale, um dos dois homens que atacaram e mataram um soldado britânico numa rua de Londres em 2013.

No vídeo, Abase, que apareceu em março na televisão britânica soluçando e abraçando o urso de pelúcia da filha e pedindo a ela que voltasse para casa, pode ser visto gritando "Allahu Akbar (Deus é o maior)", enquanto a bandeira americana é queimada nas proximidades. O pai de Amira ocasionalmente levava a filha nas passeatas. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

"Para as moças, entrar para o EI é uma maneira de se emancipar dos pais e da sociedade ocidental que as decepcionaram. Para o EI, é importante para o moral da tropa, porque os combatentes querem ocidentais. Na batalha de ideias, podem dizer: 'Olhem, elas escolheram o califado, não o Ocidente'"

Sasha Havlicek

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