Sputnik/Alexei Babushkin/Kremlin via Reuters
Sputnik/Alexei Babushkin/Kremlin via Reuters

Pressa russa por vacina expõe disputa geopolítica capaz de atrasar cura da covid

Especialistas em saúde alertam que atropelo de regras para se chegar primeiro a um imunizante – obsessão que evoca as corridas e espacial e nuclear – pode tornar a pandemia mais duradoura, ao impedir uma alocação mais eficiente das doses

Rodrigo Turrer, O Estado de S.Paulo

15 de agosto de 2020 | 21h00

O anúncio foi feito com ares de triunfo de nação predestinada. No meio da semana, a Rússia confirmou o registro da primeira vacina contra a covid-19, mesmo sem todos os testes usuais. Ela se chama Sputnik V, referência ao primeiro satélite orbital lançado pela União Soviética, em 1957, e já começou a ser produzida. A busca por uma vacina se tornou uma versão repaginada, e arriscada, das corridas espacial e nuclear daquele período. 

Especialistas em saúde pública alertam que essa pressa pode resultar em uma pandemia mais duradoura, ao impedir a alocação mais eficiente das doses para prevenir a covid-19. Alguns países estão usando seu dinheiro para tentar comprar o primeiro lugar na fila de suprimentos, caso uma vacina experimental se mostre eficaz.

EUA, Reino Unido, União Europeia e Japão saíram na frente na corrida para estocar vacinas contra o coronavírus e, juntos, já reservaram mais de 1,3 bilhão de doses – todos esses imunizantes estão em fase de testes. O Brasil fechou acordo em junho para receber 100 milhões de doses da vacina produzida pela Universidade de Oxford e pela farmacêutica AstraZeneca. Israel desenvolve sua vacina e diz que pode ter 15 milhões de doses até o fim do ano. Todas a empresas farmacêuticas da Índia, uma potência no setor, fecharam acordo para garantir doses ao país durante a produção. Ao menos 165 vacinas contra o coronavírus foram criadas, e 31 vacinas em testes em humanos.

Os projetos envolvem empresas de ao menos 31 países. Alguns países estão usando seu dinheiro para tentar comprar o primeiro lugar na fila de suprimentos, caso uma vacina experimental se mostre eficaz. Especialistas em saúde pública alertam que tal corrida pode resultar em uma pandemia mais duradoura, ao impedir a alocação mais eficiente das doses para prevenir a covid-19.

“Tal competição estimulou um fenômeno que ficou conhecido como nacionalismo da vacina – a disputa de governos para garantir a seus cidadãos doses de candidatas promissoras”, disse ao Estadão David Fidler, pesquisador de saúde global do Council on Foreign Relations e ex-consultor jurídico da OMS. “A disputa internacional para encontrar uma vacina aumentou temores de que a necessidade dos países de declarar vitória sobre a pandemia logo poderia levá-los a contornar as salvaguardas que protegem as pessoas de produtos médicos não comprovados.”

Não é só a Rússia que está fazendo isso. Pesquisadores nos Estados Unidos, Reino Unido e China trabalhando em vacinas rivais também estão alterando regulamentações estabelecidas para acelerar seu trabalho. A China começou a testar uma vacina não aprovada em seus militares. O presidente Donald Trump já foi acusado por especialistas de acelerar o processo para obter uma vacina antes de novembro e tentar tirar vantagens eleitorais dela na eleição americana. 

Mas a Rússia simplesmente atropelou as regulamentações. A vacina russa sequer havia começado os testes clínicos de fase três – quando a substância é testada em milhares de pessoas. O lançamento apressado de uma vacina ineficaz – ou pior, insegura –, argumentam os especialistas, seria um grande revés para os esforços globais de imunização em massa.

Este risco levanta dúvidas sobre a real vantagem de um país de um país ter a vacina primeiro. “Para a Rússia, liderar a corrida das vacinas é um caminho para uma maior influência geopolítica. Mas o país também está tentando evitar parecer dependente das potências ocidentais, com as quais as relações são historicamente ruins”, disse Nikolas Kirrill Gvosdev, estudioso de relações internacionais russo-americanas no Colégio de Guerra Naval dos EUA. 

“A Rússia não está apenas se voltando para seu parceiro estratégico de longa data, a Índia, mas também alcançando uma série de potências intermediárias, a maioria das quais teve atritos em suas relações com os EUA nos últimos anos”, afirma Gvosdev. “Esta oferta de vacina é o esforço da Rússia para estabelecer a liderança de um grupo intermediário de nações que querem evitar a escolha binária de Washington ou Pequim. E é parte dos esforços de Putin para manter um papel de liderança global.”

A lista de países interessados na vacina russa, mesmo sem ter passado por testes e regulações, já inclui as Filipinas, onde o próprio líder populista Rodrigo Duterte disse que vai tomar uma dose, além de países como Sérvia, Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, México e mesmo o Brasil. Segundo Kirill Dmitriev, chefe do fundo de riqueza soberana da Rússia, que pagou pelo desenvolvimento do Sputnik V, ao menos 20 países querem 1 bilhão de doses da vacina.

Em troca? Ninguém sabe ao certo. “Simplesmente nunca vivemos um contexto em que uma vacina para uma pandemia se confunde com a geopolítica”, disse Fidler. “Mas se a China usa até seus pandas para obter vantagens diplomáticas, financeiras ou militares, uma vacina segura e eficaz dará aos EUA ou China a capacidade de colocá-la à disposição de maneira que atenda a seus interesses nacionais. Os países de média e baixa renda têm experiência suficiente para reconhecer que o acesso a uma vacina dos EUA ou da China virá com amarras políticas.”

Além do uso da vacina como instrumento para obter vantagens, a disputa para ver quem usará as doses primeiro pode ser ferrenha. No começo da pandemia, mais de 90 países restringiram de alguma maneira o envio de equipamentos hospitalares, como ventiladores e respiradores, e até mesmo máscaras. O governo Trump, por exemplo, pediu à 3M Co. para parar de exportar máscaras N95 para o Canadá e a América Latina, devido à escassez de hospitais nos EUA.

Em março, a Alemanha proibiu temporariamente a maioria das exportações de equipamentos médicos de proteção. A Itália confiscou as exportações de máscaras. A China aproveitou o momento de necessidade da Itália (e o abandono percebido por seus aliados) e enviou aviões carregados de equipes da Cruz Vermelha chinesa com ventiladores, roupas de proteção e outros equipamentos. Foi um uso clássico do poder suave - seja um amigo e aliado agora, veja como isso pode render mais tarde.

'Tragédia da vacina'

Os países que adotam uma abordagem cada nação por si provavelmente reduzirão o acesso à vacina para outros países e aumentarão os preços, deixando as nações mais pobres especialmente em apuros. A preocupação é que o mundo verá uma repetição da situação na última pandemia, quando os países ricos adquiriram todo o estoque disponível de vacinas contra o vírus da gripe H1N1 em 2009-10. Quem tem acesso às vacinas e quanto está disposto a pagar terá consequências nas relações internacionais nos próximos anos, com as vacinas potencialmente se tornando uma alavanca nas disputas políticas.

“A OMS não tem nada em vigor que lhe dê autoridade para dizer aos países o que fazer com os suprimentos de vacinas”, disse Volker Gerdts, diretor do Departamento de virologia na Universidade de Saskatchewan. “A realidade política vai se impôr, e a pressão será tão forte que os apelos sobre eqüidade e saúde dos países de baixa renda não terão efeito”.

No fim das contas, ao menos quando as primeiras vacinas começarem a surgir, as nações poderão esquecer a cooperação e seguir o risco de agir sozinhas. “O nacionalismo da vacina não é apenas moral e eticamente repreensível: é contrário aos interesses econômicos, estratégicos e de saúde de todos os países”, escreveram Thomas Bollyky, diretor do programa de Saúde Global on council on Foreign Relations, e Chad Bown, economista do Peterson Institute, na revista Foreign Affairs. 

“À medida que os países aceleram para garantir seu próprio acesso antecipado às vacinas, eles estão falhando em retardar a disseminação do vírus em outros lugares, promovendo interrupções na cadeia de suprimentos, estimulando economias de maneira ineficiente e possivelmente gerando conflitos geopolíticos. Esta é a tragédia da vacina.”

 

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