Bush aconselha Chávez a aprender com o episódio

O presidente George W. Bush defendeu hoje a conduta dos Estados Unidos durante o fracassado golpe de estado contra o presidente Hugo Chávez, na semana passada, e disse que "se há lições a serem aprendidas, é importante que ele (Chávez) as aprenda".Em sua primeira declaração pública sobre o assunto, Bush reiterou a explicação oferecida por altos funcionários de seu governo nos últimos dias para rebater as críticas sobre a lentidão da resposta americana e as suspeitas de envolvimento de seu governo na tentativa de remoção de Chávez por poder pela força."Minha administração foi muito clara, quando havia problemas nas ruas na Venezuela, que apoiamos a democracia e não apoiamos ação extra-constitucional", disse ele, ao receber o presidente da Colômbia, Andrés Pastrana, na Casa Branca.O líder americano não repetiu diretamente o argumento usado por seu porta-voz, Ari Fleischer, na sexta-feira passada, segundo o qual Chávez foi o principal responsável pelos eventos. Mas disse que "é muito importante que o presidente Chávez faça o que ele disse que faria para tratar das razões pelas quais houve tanto tumulto nas ruas". Entre essas razões, Bush apontou o cerceamento dos meios de comunicação pelo governo de Caracas. "Quando as coisas esquentaram na Venezuela, ele (Chávez) fechou a imprensa".Paralelamente, o subsecretário de Estado para a América Latina, Otto Reich, fez um primeiro aceno a Chávez desde os eventos do fim da semana, dizendo que os EUA receberam bem as manifestações do líder venezuelano sobre seu interesse em melhorar as relações com Washington."Se o presidente Chávez é sincero, e não tenho razões para duvidar de sua sinceridade, creio que ele encontrará (uma atitude) cooperativa dos EUA".A declaração é consistente com o novo foco das ações americanas em relação à Venezuela, na Organização dos Estados Americanos (OEA). Tendo deixado de consultar e coordenar sua reação com os governos da região no momento mais agudo da crise, na sexta-feira passada, quando estes emitiram um comunicado conjunto condenando "a ruptura da ordem constitucional" na Venezuela, os Estados Unidos concentrarão seus esforços agora na mobilização do apoio do continente, por meio da OEA, para conter as inclinações autoritárias de Chávez e tentar uma missão de mediação entre o líder venezuelano e seus adversários.Mas qualquer ação nesse sentido depende de um pedido da Venezuela à OEA. Ao mesmo tempo, as suspeitas criadas entre países latino-americanos sobre o comportamento dos EUA durante a tentativa de remoção forçada de Chávez animam poucos a participar de ações hemisféricas que possam ser interpretadas como uma justificativa da ação dos golpistas.Assim, os chanceleres de apenas seis nações centro-americana e caribenhas, além do ministro das Relações Exteriores da Venezuela, eram esperados numa assembléia geral extraordinária da OEA, convocada para hoje, para ouvir um relato do secretário-geral da organização, César Gaviria, que regressou de Caracas para conduzir uma investigação preliminar sobre o golpe fracassado. O encontro parecia, por antecipação, fadado ao fracasso.Embora o episódio tenda agora a esvaziar-se, até pelo menos quando a situação na Venezuela esquentar novamente, diplomatas latino-americanos e vários analistas concordam que o episódio abalou o prestígio e a credibilidade dos Estados Unidos na região. "Para um país que tem a promoção da democracia como meta no continente, esse episódio é muito negativo", disse Peter Hakim, presidente do Diálogo Interamericano.Internamente , as suspeitas de conivência dos EUA com o golpe fracassado deram munição nova aos adversários de Otto Reich.Cubano-americano e anticastrista radical, Reich foi nomeado durante um recesso parlamentar para comandar a diplomacia de Bush para a região, apesar das objeções do presidente da subcomissão do Senado para Hemisfério Ocidental, Christopher Dodd, democrata de Connecticut, que até hoje recusa-se a convocar uma sabatina para confirmá-lo no cargo. Dodd alega que o envolvimento de Reich no fornecimento ilegal de armas para os contras na Nicarágua, durante a administração Reagan, nos anos 80, quando ele ocupou cargos de confiança no Departamento de Estado, o desqualificam.O senador deixou clara sua opinião sobre a responsabilidade de Reich pelo fiasco de Caracas. Numa referência velada ao subsecretário de Estado, Dodd disse, na quarta-feira, que espera que "no futuro haja mais supervisão de adultos na formulação da política dos EUA para o nosso próprio hemisfério". Reich disse que responderia se o senador lhe desse a oportunidade de uma audiência pública para confirmá-lo no posto que ocupa. Para ele, Dodd está interessado apenas em "assassinar" seu caráter. "A questão não é assassínio de caráter, é de competência", respondeu um porta-voz do senador."Embora os detalhes da tentativa de golpe na Venezuela não sejam todos conhecidos, está claro que a vasta maioria dos governos do hemisfério cumpriram suas responsabilidades sob a Carta Democrática e denunciaram os esforços inconstitucionais para remover do poder um governo livremente eleito", afirmou Dodd, sugerindo que os EUA deveriam ter acompanhado os países da região. Reich, que tomou conhecimento da decisão durante reunião que convocou com diplomatas da região, na tarde da sexta-feira, disse na ocasião que tinha dúvidas se os fatos em Caracas caracterizavam uma ruptura da ordem constitucional.Segundo o New York Times, Reich afirmou também, numa reunião fechada, que a administração havia recebido relatos segundo os quais "forças paramilitares estrangeiras", provavelmente cubanas, teriam participado da supressão das manifestações anti-Castro em Caracas.Funcionários americanos disseram que a posição pública de Washington sobre os acontecimentos na Venezuela, refletidas por declarações feitas na sexta-feira dos porta-vozes da Casa Branca e do Departamento de Estado, foram ditadas pelo Conselho de Segurança da presidência, mais especificamente pelo assessor senior para América Latina, John Maisto.Maisto e Reich tem pelo menos uma coisa em comum: ambos foram embaixadores dos EUA na Venezuela. Reich assumiu a responsabilidade política pela reação americana à tentativa de golpe. Ele disse ao New York Times que, depois de ter reexaminado a seqüência de eventos na sexta-feira, "encontrei muito pouca coisa que faria diferente".

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