Bush admite dificuldade para montar ministério antiterror

Políticos e analistas previram hoje que o presidente George W. Bush conseguirá apoio do Congresso para constituir o novo Departamento da Segurança. Mas as dificuldades administrativas e os riscos políticos da empreitada foram reconhecidas hoje pelo próprio presidente americano, num encontro com líderes no Congresso. "Temos muito trabalho a fazer para implementar esse novo departamento", disse Bush, que, até alguns meses atrás, era contrário à idéia - defendida então pela oposição democrata - que apresentou ao país, na noite de quinta-feira. O porta-voz da Casa Branca, Ari Fleischer, chamou atenção para as tensões que a proposta criará no Congresso quando chegar o momento de decidir quais as comissões da Câmara e do Senado terão o poder de supervisão sobre o novo ministério. Fleischer disse que será difícil convencer "pessoas importantes e poderosas no Capitólio a conceder um pouco de sua importância e um pouco de seu poder". Primeiro ministério criado nos Estados Unidos desde o Departamento de Educação, 25 anos atrás (o Departamento dos Veteranos de Guerra, estabelecido em 1989, consistiu apenas numa mudança de nome da antiga Administração dos Assuntos dos Veteranos), o futuro Departamento da Segurança nascerá com o objetivo de simplificar e agilizar a coleta, a análise e a resposta a ameaças terroristas, missão que é prioridade absoluta dos Estados Unidos desde os ataques de 11 de setembro do ano passado e está espalhada hoje por inúmeras repartições em vários ministérios. O plano apresentado por Bush prevê a consolidação de mais de 20 dessas repartições, que hoje empregam 170 mil pessoas e custam US$ 37,5 bilhões, sob um comando único. Ele quer que o novo departamento esteja operando em janeiro próximo. "O grande desafio é criar uma soma que seja maior do que a soma das partes", disse Paul Light, vice-presidente e diretor de estudos governamentais da Fundação Brookings. "Há muitas muitas coisas a fazer, a começar, por exemplo, por encontrar um prédio grande o suficiente para alojar o novo departamento", acrescentou. "Além disso, leva tempo construir uma nova cultura burocrática unificada". Especialistas em segurança nacional disseram que concordam com o objetivo de Bush, mas manifestaram-se preocupados pelo fato de o plano de reforma não abranger a Agência Central de Inteligência, a CIA, e tocar apenas superficialmente no Federal Bureau of Investigation, o FBI. As falhas das duas agências em trocar e analisar pistas e informações que possuíam sobre pelo menos três dos participantes da conspiração terrorista de 11 de setembro estão no centro da crise que deixou Bush na defensiva e forçou-o a rever sua oposição inicial à criação de um novo ministério para zelar pela segurança dos EUA na guerra contra o terrorismo. "Muito vai depender de quanto poder o novo secretário terá", disse ao Washington Post o coronel marine aposentado Gary Anderson. Se o titular do novo departamento, que será provavelmente o atual diretor de Segurança , Tom Ridge, deixar de integrar as várias partes no novo ministério de uma forma coordenada e eficaz, a iniciativa de Bush poderia não passar de "uma rearrumação das cadeiras no convés do Titanic", disse Anderson. John Byron, que se aposentou da Marinha como capitão de mar e guerra e faz comentários frequentes na imprensa sobre temas de segurança destoou do coro de aprovação com que o plano de Bush foi recebido. "Isso não conserta nada", disse ele. "O que teremos é um ministro angustiado no comando de uma força improvisada e sem poder para obrigar o FBI e a CIA a cooperar". A reação negativa de Byron é baseada, em parte, pelo temor de que, no esforço político e administrativo de montar uma nova estrutura para proteger os EUA contra novas ações terroristas, o governo deixe de tomar as medidas necessárias para impedir a repetição das falhas do FBI e da CIA, que facilitaram os atentados de 11 de setembro. Esse cenário provoca pesadelos na Casa Branca. Tendo informado ao país, através de vários membros de sua administração, que considera um novo ataque terrorista inevitável, e apresentado agora a proposta de criação do novo ministério como a solução, o líder americano está, pela primeira vez, arriscando parte do enorme capital político que acumulou desde 11 de setembro. Um novo ataque terrorista de grandes proporções contra o território americano poderia, por isso, produzir efeitos negativos para Bush, que, até agora, não foi desgastado pela controvérsia que envolve a atuação da CIA e do FBI e apresentou o plano de criação do ministério, em parte, para que as coisas permaneçam assim.

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