Bush adverte em discurso que ameaça continua

Empenhado em preservar a grande popularidade que conquistou após os ataques de 11 de setembro e a atenção dos americanos focalizada na guerra contra o terrorismo, que segundo as pesquisas já começa a ser substituída pela economia como a principal preocupação dos americanos, o presidente George W. Bush usou ontem à noite seu primeiro discurso sobre o Estado da União para reforçar a noção de que os EUA continuam sob ameaça e a guerra iniciada em outubro contra o Taleban e a Al-Qaeda está longe de terminada, devendo estender-se para muito além das fronteiras do Afeganistão: "Nosso Exército pôs fim aos campos de treinamento terrorista no Afeganistão, mas ainda existem campos em pelo menos uma dúzia de países."Num discurso de quase 50 minutos freqüentemente interrompido por aplausos, Bush afirmou que, apesar de o país estar "em guerra e em recessão" e de o "mundo civilizado" enfrentar "perigos sem precedentes", o Estado da União "nunca foi tão forte". Mas alertou: "A maioria dos 19 homens que seqüestraram aviões em 11 de setembro foi treinada em campos no Afeganistão, assim como dezenas de milhares de outros. Milhares de assassinos perigosos, treinados nos métodos para matar, geralmente apoiados por regimes fora-da-lei, estão agora espalhados pelo mundo como bombas-relógio, armadas para explodir sem advertência."Ciente de que os americanos estão mais preocupados no momento com a possibilidade de perder o emprego do que de serem atingidos por um novo ataque terrorista, Bush procurou também pôr seus altos índices de aprovação (83%, segundo as últimas sondagens) a serviço do combate à recessão. Ele anunciou um plano para revitalizar a economia americana e acabar com a inflação, dizendo que, "quando a América trabalha, a América prospera, de forma que este plano econômico pode ser resumido em uma palavra: empregos".Para sublinhar aos americanos o sucesso da guerra contra o terrorismo até agora, Bush convidou o líder interino do Afeganistão, Hamid Karzai, que realiza uma visita de trabalho aos EUA, para assistir ao discurso nas galerias da Câmara dos Representantes, onde foi longamente aplaudido ao chegar e ao ser citado por Bush. "Terroristas que ocupavam o Afeganistão agora ocupam celas em Guantánamo", ressaltou o presidente. "América e Afeganistão são agora aliados contra o terror."Bush insistiu que os EUA continuarão a ser "firmes, pacientes e persistentes" na busca de seus dois maiores objetivos na guerra: o fechamento dos campos de treinamento de terroristas e o julgamento destes, e a prevenção de atos terroristas por regimes que desenvolvem armas químicas, biológicas ou nucleares. Advertiu que os EUA agirão contra os grupos terroristas - citando, entre outros, os palestinos Hamas e Jihad Islâmica e o libanês Hezbollah - se os países em que atuam não fizerem isso. E fez uma advertência direta ao que chamou de "eixo do mal" - citando Iraque, Irã e Coréia do Norte: "Não permitiremos que os regimes mais perigosos do mundo nos ameacem com as armas mais destrutivas."Com o país agudamente consciente do problema da segurança colocado pelo terrorismo e às voltas, ao mesmo tempo, com a primeira crise econômica em dez anos, Bush confirmou que pedirá ao Congresso um reforço de US$ 50 bilhões para gastos militares e a duplicação, para US$ 38 bilhões, do orçamento para a defesa interna, na proposta orçamentária que apresentará na semana que vem. Aplaudido de pé, disse que o objetivo é dar "segurança econômica" aos americanos.Numa tentativa de livrar-se do espectro do escândalo da Enron, que ronda sua administração e é um risco para seu índice de aprovação popular, Bush pediu mais transparência, responsabilidade e supervisão contábil no mundo das corporações, para evitar a repetição de um colapso como o dessa empresa, que acabou com os fundos de aposentadoria de milhares de seus empregados, todos investidos em ações da própria companhia. Sem citar o nome da Enron - a companhia energética do Texas que teve um importante papel no financiamento de sua carreira política -, o presidente conclamou o Congresso a aprovar leis que protejam esses fundos de pensão.Leia o especial

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