Bush afirma que "horas cruciais" estão por vir

Confrontado, em casa e no exterior, com crescentes dúvidas sobre a sabedoria e a legitimidade de desencadear uma guerra para desarmar o regime de Saddam Hussein, o presidente americano, George W. Bush, afirmou nesta terça-feira, durante o seu discurso anual sobre o Estado da Nação, diante de uma sessãoconjunta do Congresso, que ?horas cruciais? estão por vir. Bush revelou que pediu uma reunião do Conselho de Segurança da ONU para o próximo dia 5 para que o secretário de Estado, Colin Powell, possa mostrar provas sobre o programa de armas proibidas de Saddam e as ligações entre a rede terrorista Al-Qaeda e o Iraque. "SeSaddam Hussein não se desarmar totalmente, pela segurança donosso povo e pelo paz do mundo, comandaremos uma coalizão paradesarma-lo". Bush destacou também que os EUA continuarão a lutar por esforços pela paz para o Oriente Médio. ?Doze anos atrás, Saddam enfrentou a possibilidade de ser a última vítima numa guerra que ele começou (ao invadir o Kuwait) e que perdeu?, disse Bush, no discurso que durou exatamente uma hora e que começou no Congresso às 21 horas locais (meia-noite em Brasília). ?Para salvar-se, Saddam concordou em abrir mão de todas as armas de destruição em massa, mas nos 12 anos seguintes ele violou sistematicamente aquele acordo.? O presidente norte-americano foi enfático ao afirmar que omundo não pode esperar um perigo iminente para desarmar SaddamHussein. "Alguns dizem que não devemos intervir até que aameaça seja iminente. Desde quando existem terroristas e tiranosanunciando suas intenções um dia antes de atacar? Confiar narazão de Saddam Hussein não é uma opção", advertiu Bush.O pronunciamento foi preparado com a clara intenção de mobilizar o apoio dos americanos e dos países amigos para ?grandes causas?, entre elas uma ação militar contra o Iraque. Bush lembrou que, três meses atrás, o Conselho de Segurança da ONU deu a Saddam uma oportunidade final para desarmar-se. ?O ditador do Iraque não está se desarmando, ele está enganando.? Empenhado em estabelecer um vínculo até agora não comprovado entre o regime de Bagdá e os ataques terroristas de 11 de setembro de 2001, Bush prosseguiu: ?Hoje, o perigo mais grave da guerra ao terror, o perigo mais grave para a América e o mundo, são os regimes fora-da-lei que buscam e possuem armas nucleares, químicas e biológicas.? Segundo ele, esses regimes ?poderiam usar tais armas para fazer chantagem, terror e assassinatos em massa e as usariam sem a menor hesitação?. Embora cerca de metade do discurso fosse dedicada ao Iraque ? e a outra, a questões internas ?, a Casa Branca antecipou que Bush não daria um ultimato a Saddam. Ele procurou equilibrar sua tentativa de convencer seus concidadãos sobre o risco que o Iraque representa para os EUA e o mundo com a apresentação de uma visão otimista sobre suas políticas domésticas, que não vão bem e são vistas por boa parcela dos americanos como ameaças mais imediatas a seu bem-estar. Com sua popularidade em queda acelerada e a aura de invencibilidade que conquistou depois do 11 de Setembro posta em dúvida pelo desempenho medíocre da economia americana, o aumento do desemprego nos primeiros dois anos de seu governo e uma séria derrapada na condução das complexas relações com a Coréia do Norte, Bush também deu prioridade à defesa do ambicioso programa de estímulo econômico que apresentou no início do mês, que inclui o segundo drástico corte de impostos em dois anos. ?A economia cresce quando os americanos têm mais dinheiro para gastar e para investir, e a maneira melhor e mais justa de garantir que os americanos tenham dinheiro é não fazê-lo desaparecer com impostos.? Outro desafio de Bush ontem à noite foi convencer os americanos sobre seus planos de privatização parcial do sistema de seguro social e de ampliação, também via privatização parcial, do seguro médico federal, cujos custos crescentes tornam-se proibitivos no ambiente de déficits fiscais crescentes produzidos pela combinação da política econômica de Bush com um crescimento anêmico. Mesmo que Bush tenha reservado apenas metade de sua fala à confrontação com Bagdá ? uma confrontação que armou a partir do discurso que fez ao Congresso em 29 de janeiro do ano passado, quando incluiu o Iraque, a Coréia do Norte e o Irã num ?eixo do mal? ?, a reação dos americanos, nos próximos dias, a seus argumentos anti-Saddam influirá nas escolhas que o presidente fará. ?O que o país espera do presidente é que ele passe da fase da declaração para a da persuasão?, disse, antes do discurso, Samuel Berger, que foi conselheiro de segurança da Casa Branca no governo Clinton. De fato, as sondagens de opinião divulgadas nos últimos dez dias apontaram, sem exceção, uma forte erosão da simpatia popular a Bush e uma oposição substancial dos americanos a uma ação armada contra o Iraque. Cerca de metade das pessoas ouvidas nas várias pesquisas disseram que querem ver mais provas de que o regime de Saddam possui armas de destruição em massa. Por maioria ainda mais ampla, de 70%, elas manifestaram-se contrárias a uma nova guerra no Golfo Pérsico que não tenha o endosso formal do Conselho de Segurança na ONU. Fleischer disse ontem que, do ponto de vista da administração, tal endosso ?é desejável, mas não é mandatório?. Entre aqueles que Bush precisava convencer ontem à noite sobre a conveniência política de uma solução militar do Iraque estava ninguém menos do que o general reformado Norman Schwarzkopf, que comandou as tropas dos EUA e dos países aliados na Guerra do Golfo. Ecoando uma posição comum na população, o general disse ao Washington Post querer ver mais provas de que Saddam tem armas de destruição em massa. Schwarzopf não escondeu sua reserva em relação ao secretário da Defesa, Donald Rumsfeld, um dos arquitetos da estratégia belicosa de Washington. ?Algums coisas que ele diz me preocupam?, afirmou.

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