Bush condena clonagem humana

Apenas algumas horas depois do anúncio da primeira tentativa de clonagem humana para fins terapêuticos, o presidente George W. Bush reiterou sua condenação a esse tipo de experiência científica. Líderes republicanos e democratas previram que o Congresso dos Estados Unidos agirá logo para proibi-la. "O presidente deixou claro que se opõe 100% a qualquer tipo de clonagem de embriões humanos", afirmou Jennifer Millerwise, uma porta-voz da Casa Branca. Bush já havia se declarado pela proibição da clonagem humana no final de julho, quando se prontificou a assinar um projeto de lei aprovado pela Câmara de Representantes, por 265 votos contra 162, banindo a prática. Na mesma ocasião, os deputados rejeitaram por 249 votos a 178 um projeto alternativo que proibia a clonagem reprodutiva mas a permitiria, para fins terapêuticos. O presidente chamou a clonagem humana de "moralmente indefensável e cientificamente pouco sólida". A legislação adotada pela Câmara prevê pena de 10 anos de cadeia e multa de até US$ 1 milhão aos infratores. O debate da legislação no Senado foi adiado por causa dos ataques terroristas de 11 de setembro. Mas, diante do anúncio feito hoje pela Advanced Cell Technology, três senadores prevêm que ele será retomado e levará rapidamente à proibição da clonagem humana nos EUA. "Acho isso muito, muito perturbador e penso que a maioria do Congresso também acha", afirmou o senador Patrick Leahy, democrata de Vermont e um dos políticos mais liberais e progressitas do Senado americano. "As pessoas preocupam-se com as implicações éticas", reforçou o senador Richard Shelby, republicano do Alabama. "Vamos ter um grande debate e, no final, não acredito que vamos permitir a clonagem de embriões humanos". O líder da maioria democrata no Senado, Tom Daschle, de Dakota do Sul, classificou de "desconcertante" o anúncio da primeira clonagem de células humanas e deixou clara sua desaprovação. "Acho que estamos indo na direção errada", afirmou. Senador sai em defesa da clonagemEssa, no entanto, não é uma visão unânime. ?Diante desse novo avanço, o Senado refletirá e constatará que não podemos parar a marcha da ciência", disse o senador Dick Durbin, democrata de Illinois. "Trata-se de saber onde colocamos o limite aproriado entre a questão moral (que a clonagem apresenta) e as políticas públicas". Durbin tem aliados no Partido Republicano, na comunidade científica e nos lobbies que batalham por fundos federais para a pesquisas da cura de várias doenças. Mas, com a popularidade de Bush na estratosfera e o país em guerra contra o terrorismo e dominado por um forte ânimo conservador, os adeptos de uma solução capaz de equilibrar as preocupações éticas com as promessas de descobertas científicas oferecidas pela clonagem têm pouco espaço para prosperar. O uso de fundos federais para pesquisas com clonagem foi proibido em 1997. Em agosto passado, Bush interrompeu suas férias para anunciar uma ordem executiva que limitou o financiamento federal de pesquisas com células-tronco de embiões a apenas 60 linhagens dessas células existentes em laboratórios. Os cientistas acreditam que as células-tronco podem conter o segredo da cura de várias doenças, do mal de Alzeihmers a diabetes infantil. A decisão de Bush proibiu o uso de células-tronco dos mais de 100 mil embriões que estão guardados em clínicas de fertilidade, bem como a produção de novos embriões com propósitos terapêuticos. Sua oposição à clonagem terapéutica é consistente com essa decisão. Onze estados dos EUA já adotaram diversos obstáculos à clonagem humana, da proibição do uso de fundos públicos ao total banimento. Japão, Índia e a maioria dos países da Europa proibiram ou impuseram severas restrições. Os governos do Grupo dos Sete, que reúne as nações economicamente mais avançadas, declararam-se recentemente pela proibição total. Na semana passada, a comissão juridical das Nações Unidas acatou uma iniciativa da França e da Alemanha propondo uma resolução banindo a clonagem. A aprovação pelas 189 nações representadas na Assembléia Geral é dada como certa. Na Inglaterra, para onde vários cientistas americanos que trabalham nesse campo mudaram-se nos últimos anos, os adversários da clonagem estão na ofensiva. A organização não governamental Human Genetics Alert (HGA), que defende a proibição total, iniciou uma campanha para emendar um projeto de lei que a Câmara dos Comuns deve votar esta semana proibindo "o implante numa mulher de um embrião criado de outra forma que não a fertilização". David King, da HGA, disse que o governo "não deve deixar nenhuma abertura (legal) para cientistas inescrupolosos".

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