Bush desperdiçou chances com Teerã

Para Mohamed ElBaradei, diretor da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), "uma combinação de ignorância e arrogância" durante o governo de George W. Bush desperdiçou incontáveis oportunidades diplomáticas com o Irã e com isso lhe permitiu seguir adiante com seu programa nuclear. Referindo-se por duas vezes ao ex-vice-presidente americano Dick Cheney como "Darth Vader", ElBaradei me contou numa entrevista que "a política americana consistia de dois mantras - o Irã não deve ter o conhecimento e não deve girar uma única centrífuga. Eles viviam dizendo, espere, o Irã não é a Coreia do Norte, ele vai ceder. Isso foi um erro absoluto". Em vez de explorar a oferta de uma "grande barganha" iraniana em 2003, ou apoiar a mediação europeia em 2005 que dependia de os EUA concordarem com a venda de um reator de energia nuclear francês, "nós tivemos Darth Vader e companhia dizendo que o Irã estava no eixo do mal e devíamos mudar esse regime". O resultado, disse ElBaradei, foi que em vez de conter o programa em poucas dezenas de centrífugas, "o Irã possui hoje cerca de 5.500 centrífugas, e 1 mil quilogramas de urânio pouco enriquecido, além de know-how". Mas ele rejeitou a ideia de que o Irã "poderia avançar para uma arma amanhã", situando um cronograma para isso em dois a cinco anos. Imaginem se Franklin Roosevelt, em 1942, tivesse dito a Josef Stalin, desculpe, cara, não gostamos de sua ideologia comunista por isso não vamos aceitar sua ajuda para esmagar os nazistas. Isso é um equivalente aproximado na escala de estupidez de Bush ao consignar a teocracia do Irã ao eixo do mal e não conseguir testar como o país poderia ter ajudado em duas guerras e no Oriente Médio em geral quando o conciliador Mohammad Khatami era presidente. Assim, aqui estamos, centenas de centrífugas depois, com o Irã conseguindo o que há muito ansiava: reconhecimento do regime pelo governo Barack Obama, abandono das ameaças e renúncia à exigência de suspensão do enriquecimento como condição para os EUA se juntarem a outras potências nas conversações nucleares. Isso é saudável. O realismo americano é agora fundamental. Ele deveria atentar para a visão de ElBaradei: "Não acredito que os iranianos tomaram uma decisão de avançar para uma arma nuclear, mas eles estão determinados a dominar a tecnologia, pois acreditam que isso traz poder, prestígio e uma apólice de seguro." Acho que é tarde para impedir o Irã de alcançar status de potência nuclear virtual - algo como o domínio de know-how que Brasil e Japão têm, sem uma arma. Os avanços do Irã nos últimos anos não podem ser desfeitos. O que pode ser transformado é o contexto em que o Irã opera. Isso, por sua vez, determinará quanto ele permanecerá "virtual". Um modificador de contexto foi o apelo de Obama por um mundo sem armas nucleares: é difícil argumentar pela não proliferação sem tratar do desarmamento. "Não se pode ter nove países dizendo a países como o Irã que armas nucleares são perigosas, mas precisamos continuar refinando nossos arsenais", disse ElBaradei, que recebeu o prêmio Nobel da Paz em 2005 e termina seu mandato ainda neste ano. "É um mundo diferente." Ele vê a necessidade de dois anos de conversações americano-iranianas em razão do grau de desconfiança, com "cada queixa sobre a mesa".*Roger Cohen é analista político

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.