Bush eleva o tom contra Moscou e exige saída de tropas

Após críticas por discurso brando, presidente pressiona Rússia a aceitar acordo com Geórgia

Patrícia Campos Mello, O Estadao de S.Paulo

12 de agosto de 2008 | 00h00

O presidente dos EUA,George W. Bush, exortou ontem a Rússia a aceitar o cessar-fogo oferecido pela Geórgia e iniciar a retirada das tropas do país, endurecendo a retórica contra os russos. "O governo russo tem de mudar de rota e aceitar este acordo de paz como um primeiro passo para resolver o conflito", disse Bush em pronunciamento na Casa Branca. "A escalada brutal" dos ataques contra a Geórgia "ameaça o relacionamento da Rússia com os EUA e o mundo", afirmou.Para Bush, os russos não cumpriram sua promessa de enviar soldados apenas para Ossétia do Sul e Abkházia, para restituir o status quo, e agora estão em uma missão para depor um governo eleito democraticamente. "Esse tipo de atitude é inaceitável no século 21", disse o presidente. Segundo ele, a Casa Branca tem "informações confiáveis" de que os russos pretendem atacar Tbilisi.Bush elevou o tom contra Moscou após sofrer várias críticas pela fala branda que havia usado para condenar as ações russas. "A retórica tinha sido bem comedida; a frase usada por Bush no sábado - ?preservar a integridade territorial? - é apenas um clichê diplomático", disse Stephen Sestanovich, especialista em Eurásia no Council of Foreign Relations. O colunista do The New York Times William Kristol, afirmou que os EUA "devem à Geórgia um esforço sério de defesa de sua soberania". A invasão russa na Geórgia deixa Washington em uma saia-justa estratégica. "Os EUA estão em uma posição desconfortável. Afinal, a Geórgia mandou 2 mil soldados para o Iraqu e patrocinando a entrada do país na Otan", disse Sestanovich. Analistas não acreditam que a Casa Branca tenha dado sinal verde para a Geórgia intervir na Ossétia do Sul - e apontam que o presidente georgiano, Mikhail Saakashvili, cometeu um grande erro de cálculo. Mas simplesmente não fazer nada mandaria a mensagem errada para vários aliados dos americanos. "A confiabilidade dos EUA como um aliado na região está em jogo, vários países estão examinando a situação", disse Sestanovich.Por isso, Bush intensificou a condenação, embora analistas acreditem que a Casa Branca esteja de mãos atadas. Os EUA não querem bater de frente com a Rússia - precisam dos russos para isolar o Irã e estão enfraquecidos militar e politicamente para atuar em mais um conflito. E será difícil concatenar uma ação conjunta para determinar sanções ou algum tipo de ação. Além disso, o Pentágono descarta o uso de força militar. DISPUTA DE INFLUÊNCIA"Agora, se a Rússia continuar conduzindo a guerra e invadir Tbilisi para depor Saakashvili, a história muda", diz Charles A. Kupchan, professor de Relações Internacionais da Universidade de Georgetown e ex-diretor de assuntos europeus no Conselho de Segurança Nacional. Para ele, o conflito mostra que a briga entre Ocidente e Rússia por esferas de influência está longe de acabar.Segundo o embaixador americano na ONU, Zalmay Khalilzad, os EUA querem pressionar a Rússia para que o país se sinta impelido pela opinião pública a reverter suas ações - já que uma resolução do Conselho de Segurança da ONU seria impossível, já que Moscou tem poder de veto. Para Khalilzad, "a Rússia está nostálgica por causa da perda de seu império e ficou irritada pelo desejo da Geórgia de se aproximar do Ocidente". Moscou argumenta que os georgianos estavam fazendo uma limpeza étnica na Ossétia do Sul e na Abkházia e Saakashvili iniciou as agressões ao invadir o território. O premiê Vladimir Putin criticou os EUA por levar de volta as tropas georgianas que serviam no Iraque. Em artigo no Washington Post, o ex-presidente soviético Mikhail Gorbachev defende a ação russa. "O Exército da Geórgia atacou a capital da Ossétia do Sul com lançadores de foguetes desenhados para destruir grandes áreas. A Rússia tinha de reagir. Acusar a Rússia de agressão contra ?a pequena, indefesa Geórgia? é não apenas hipócrita, mas mostra falta de senso de humanidade."

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