Bush ignora Senado e efetiva secretário para América Latina

Depois de esperar, por mais de seis meses, que a Comissão de Relações Exteriores do Senado considerasse a nomeação do cubano-americano Otto Juan Reich para o posto de secretário de Estado adjunto para América Latina, o presidente George W. Bush usou um artifício legal e o efetivou no cargo sem a aprovação dos senadores. Isso é possível quando a nomeação é feita durante um período de recesso parlamentar. Como agora. Um ativista conservador com laços estreitos com organizações anticastrsitas, Reich foi embaixador dos EUA na Venezuela e diretor do escritório de Diplomacia Pública no governo Reagan. Em sua mais recente ocupação de lobista, influiu na redação da lei Helms-Burton, pela qual os EUA tentaram estender o efeito de seu embargo econômico a Cuba a outros países, com base num questionável conceito de "extraterritorialidade". Bush usou a "nomeação durante o recesso" para efetivar também um outro conservador, o advogado Eugene Scalia, como procurador do departamento de Trabalho. Ele é filho do juiz da Suprema Corte Antonin Scalia. O bloqueio à confirmação de Reich foi comandado pelo senador Christopher Dodd, democrata de Connecticut e presidente da subcomissão do Senado para o Hemisfério Ocidental. Dodd recusou-se a marcar a sabatina de confirmação, alegando que Reich era candidato inaceitável por causa de atividades secretas e ilegais que o escritório de Diplomacia Pública realizou durante sua gestão para promover a rebelião armada contra o governo sandinista da Nicarágua, entre 1983 e 1986. Dodd disse que Reich não teria apoio dos dois partidos para ser confirmado. "Ele sabe que tenho os votos para ser confirmado e é por essa razão que se recusa a marcar a sabatina", disse Reich ao Estado, em setembro passado. Ele negou ter cometido qualquer ato ilegal. "Otto Reich não fez nada em sua carreira no governo que o desqualifique", afirmou recentemente o secretário de Estado, Colin Powell, insistindo para que Dodd marcasse a sabatina e discutisse abertamente suas objeções. Reich não é familiarizado com os temas brasileiros e do Cone Sul. Ele será o segundo titular consecutivo do mais importante posto da diplomacia americana para a região a não passar pelo processo de confirmação. O último ocupante do posto, o diplomata de carreira Peter Romero, exerceu-o interinamente por um período até ser efetivado pelo presidente Bill Clinton, também durante um recesso parlamentar. Antes dos ataques terroristas de 11 de setembro, Bush havia transformado a América Latina em prioridade da política externa americana. "Essas prioridades mudaram e não creio que a nomeação de Reich tenha qualquer significado quanto a isso", disse Peter Hakim, presidente do Diálogo Interamericano. "Nessa administração, a América Latina é um tema de Bush e o presidente deciciu que não aceitaria um ?não? dos senadores democratas à sua decisão de nomear Reich, que tem grande apoio entre os republicanos". Uma das preocupações suscitadas pela escolha de Reich na América Latina é que a diplomacia americana concentre suas energias em Cuba. Diplomatas na região disseram que as circunstâncias da nomeação do novo secretário adjunto reduzem sua capacidade política para que ele exerça plenamente o cargo.

Agencia Estado,

11 Janeiro 2002 | 19h40

Encontrou algum erro? Entre em contato

publicidade

publicidade

publicidade

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.