Bush invoca guerra ao terror para limitar reajuste a funcionalismo

O presidente George W. Bush limitou a 3,1% o reajuste dos salários dos 2,7 milhões de funcionários civis do governo federal a partir de janeiro e suspendeu os aumentos diferenciados que eles recebem, de acordo com a cidade ou região em que trabalham, para manter sua remuneração competitiva com ocupações semelhantes no setor privado. A atualização salarial autorizada é um ponto percentual menor do que o aumento de 4,1% a ser concedido aos 1,3 milhão de soldados do país. Bush invocou uma cláusula da lei de 1990 que rege os salários da burocracia federal para justificar a decisão. Ele alegou que os EUA vivem "uma emergência nacional desde 11 de setembro de 2001", o dia os ataques contra Nova York e Washington. Uma atualização salarial maior do funcionalismo civil "interferiria com a capacidade da nação de levar adiante a guerra contra o terrorismo", afirmou o presidente. O Washington Post informou ontem, em manchete, que uma guerra contra o Iraque poderá custar até US$ 200 bilhões aos contribuintes americanos - o montante aproximado do déficit federal americano projetado para este ano e o equivalente a um terço do PIB do Brasil. A Guerra do Golfo, que o pai do atual presidente, George H. Bush, conduziu contra o Iraque, em 1991, saiu por apenas US$ 7 bilhões para os EUA, porque a maior parte da conta foi pagar pela Arábia Saudita, Japão, Alemanha e outras nações que se aliaram a Washington para expulsar as tropas de Saddam Hussein que haviam invadido o Kuwait e provocado o conflito. De acordo com a Federação Americana de Empregados do Governo (AFGE), o maior sindicato de funcionários públicos americanos, a concessão ao pessoal civil do mesmo reajuste dado aos militares representaria um custo adicional de US$ 1 bilhão no orçamento federal. A limitação do reajuste não deixará o funcionalismo federal americano à míngua. O aumento de 3,1% é maior do que a inflação de 2,1% projetada para 2002 e mais do que o dobro do reajuste que será dado aos aposentados pela Seguridade Social, o Inamps americanos, que será de 1,4%. Os cerca de 325 mil funcionários federais que trabalham na área metropolitana de Washington receberam no ano passado um salário médio anual de US$ 68.700, ou US$ 5.700 por mês. Ainda assim, a decisão de Bush foi mal recebida. O presidente da AFGE, Bobby L. Harnage Sr., classificou-a de "pobre". Deputados das áreas onde há forte concentração de funcionários lamentaram a medida. Além de ilustrar o impacto dos ataques terroristas de 11 de setembro sobre as prioridades do governo dos EUA, a restrição imposta ao reajuste do funcionalismo federal interromperá a execução de um plano que o Congresso americano adotou em 1990 para manter os salários da burocracia competitivos com os do setor privado e, desta forma, preservar a qualidade dos serviços prestados pelo governo. Embora o salário médio dos funcionários federais seja quase o dobro do salário médio dos americanos (US$ 5.500 por mês e US$ 3.100 por mês, respectivamente, no ano passado), sua remuneração está entre 20% e 25% abaixo da de profissionais do setor privado com qualificação equiparável. Eliminar essa diferença foi um dos objetivos da legislação adotada em 1990. Cerca de 50% dos 2,7 milhões de funcionários civis americanos (que incluem 30,4 mil no Congresso e 33,4 mil no poder judiciário) têm curso superior. E, destes, 30% concluíram o mestrado. Contados os 860 mil funcionários do correio, que tem lugar próprio no organograma oficial, o governo federal dos Estados Unidos emprega um total de 4,9 milhões de pessoas, ou o equivalente a 3,5% da mão de obra ativa do país.

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