Bush na África: um continente à deriva

A muito aguardada visita à África do presidente George W. Bush pode desapontar a muitos já que ele passou ao largo das áreas problemáticas do continente. Mas isso não deveria surpreender. As nações africanas em modernização, que Washington um dia considerou "âncoras regionais" que serviriam de locomotivas de crescimento e fontes de estabilidade, se tornaram desestabilizadoras.Em 1995, quando eu era assessor especial para a África (do presidente Bill Clinton), argumentei que os dois prismas dominantes pelos quais os EUA tinham visto, durante muito tempo, o continente - competição da Guerra Fria por Estados clientes e o movimento antiapartheid na África do Sul - tinham desmoronado e poderíamos adotar uma visão mais clara do continente. Sugeri Nigéria, Costa do Marfim, Zimbábue, Etiópia e Quênia como âncoras para a promoção de democracia, boa governança, redução da pobreza, desmobilização militar, alívio da dívida e melhoramentos em saúde, educação e outros indicadores sociais.Com populações grandes, economias vibrantes, regimes em democratização e estabilidade interna, esses países poderiam servir de entrepostos, fontes de energia, canais de comércio e investimento, forças de paz, modelos de comportamento adequado e abrigos para refugiados. À luz dos desdobramentos recentes, não deve surpreender que esse presidente avesso a crises não esteja visitando nenhum desses países.Na Nigéria, a promessa de um governo civil após a morte do general Sani Abacha deu lugar à instabilidade provocada por mais uma eleição fraudulenta, à agitação e desigualdade na região do Delta rica em petróleo, a uma corrupção galopante e um legado persistente de divisão étnica. O panorama auspicioso para a Costa do Marfim depois que Félix Houphouet-Boigny degenerou em crescentes tensões étnicas entre norte e sul, e evoluiu para uma guerra civil que requereu mediação internacional e milhares de soldados da paz estrangeiros.A transição bem-sucedida do Zimbábue do regime racista de Ian Smith é uma lembrança distante no momento em que o atual regime praticamente declarou guerra contra sua população, espalhando milhões de refugiados por todo o sul da África. A Etiópia e seus irmãos na Eritréia, após se livrarem do jugo de Mengistu Haile Mariam, se voltaram uns contra os outros numa guerra de fronteiras insensata e brutal e se engajando na promoção indireta de guerras desestabilizadoras por todo o Chifre da África.E, agora, o Quênia, aparentemente a mais estável das âncoras regionais, está envolvido numa disputa pós-eleitoral que desencadeou divisões étnicas, de classe e regionais latentes. Os próprios portos seguros da estabilidade regional tornaram-se desestabilizadores. Embora fatores internos tenham causado grande parte desses infortúnios, a comunidade internacional, incluindo os EUA, devem ser responsabilizados também.Um sério erro de cálculo foi concentrar-se em líderes africanos como supostos agentes de mudança em vez da promoção de reformas políticas e econômicas. Embora tivessem rejeitado completamente a era dos "homens fortes" na África, os EUA, em particular, respaldaram líderes que acreditamos que seriam precursores de um Renascimento africano. O período de namoro difere de país para país, mas se aplica a visões passadas de Robert Mugabe no Zimbábue, Konan Bédié na Costa do Marfim, Meles Zenawi na Etiópia, Olusegun Obasanjo na Nigéria, e Mwai Kibaki no Quênia. Nós nos persuadimos de que eles eram reformadores cujo interesse em democracia, transformação social e igualdade espelhava o nosso.Depois, Bush fez da "guerra ao terror" nosso tema dominante em política externa após o 11 de Setembro, o que prejudicou o engajamento americano na África de duas maneiras:Primeiro, desviou atenção, recursos financeiros e engajamento militar do continente para outras prioridades, em particular, a guerra no Iraque. A administração Bush reagiu de maneira morna ou não reagiu à deturpação de democracia, boa governança e serviços sociais nessas âncoras. Segundo, Bush, no geral, apoiou os líderes existentes que foram suficientemente espertos para se autoproclamar "aliados" na luta contra a Al-Qaeda e outros terroristas. IMPACTOOs EUA apoiaram as chamadas campanhas antiterroristas como a imprudente invasão etíope da Somália em 2006-07, sem considerar as conseqüências para a estabilidade regional, os fluxos de refugiados e o impacto humanitário. Essas considerações pesaram muito no Quênia, onde a ajuda americana ao presidente Kibaki cegou os EUA para a tragédia iminente. O anúncio, em dezembro, de que Kibaki tinha vencido as eleições presidenciais mergulhou o país numa crise política, humanitária e de segurança sem precedente. Seis semanas depois, protestos, repressão por forças de segurança e assassinatos por vingança deixaram mais de 100 mortos. A economia do Quênia também perdeu quase US$ 1,5 bilhão. A situação do país continua tensa e volátil. A violência destruiu a reputação do Quênia como um porto seguro da estabilidade. Por baixo da superfície da retórica pró-Ocidental e antiterrorista de Kibaki está a realidade de um país com uma disparidade crescente entre ricos e pobres, onde a distribuição de terras é desigual, a política se tornou étnica, e as feridas causadas pelas políticas de dividir para governar de Daniel Arap Moi durante os anos 90 continuam abertas.Durante muito tempo, o Quênia aceitou refugiados de conflitos vizinhos na Somália e na Etiópia; forneceu conexões de transporte para Uganda, Ruanda, leste do Congo e sul do Sudão; sediou negociações de paz regionais; e serviu de canal para investimentos em todo o Chifre da África. Agora ele não consegue realizar essas funções. O médico virou paciente.Um governo legitimamente eleito deveria continuar sendo a meta, junto com reformas institucionais e econômicas fundamentais e um processo de transição de justiça e desarmamento para ajudar a curar as feridas de duas décadas de violência interétnica.A mediação internacional deve buscar um acordo que inclua, entre outras coisas, o lançamento de uma revisão, com respaldo internacional, dos procedimentos eleitorais para assegurar que não torne a haver fraude e o Judiciário queniano possa resolver disputas; um período de transição para restaurar a governança democrática, incluindo um acordo de partilha de poder entre partidos e uma reforma constitucional.Esses passos para criar um governo sensível e transparente, enfrentar desigualdades sociais trágicas, e corrigir divisões de classe, étnicas e regionais são essencialmente as mesmas medidas requeridas nas outras chamadas âncoras africanas. Uma atenção internacional com a mente aberta para esses desafios - apoiada devidamente por incentivos, sanções e ajuda - pode garantir que essas âncoras regionais não só se mantenham, mas aumentem os esforços para revitalizar a África. TRADUÇÃO DE CELSO MAURO PACIORNIK*Donald Steinberg é vice-presidente para política do International Crisis Group. Publicado com autorização de Yale Global Online

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