Bush pode fazer história se atacar o Iraque

Se desencadear um ataque contra o Iraque George W. Bush entrará para a história como o primeiropresidente dos Estados Unidos a iniciar uma guerra preventiva. Acomeçar pela legalidade da decisão, a idéia divide aadministração, o Pentágono e provoca intenso debate entre osamericanos. Na semana passada, a comissão de Relações Exterioresdo Senado realizou dois dias de audiências públicas sobre o quefazer com o regime de Saddam Hussein. Sobre alguns pontos, há acordo. Bush está determinado a tirarSaddam Hussein antes de concorrer à reeleição, em novembro de2004. A maioria dos americanos acredita, como o presidente, queo líder iraquiano é o diabo encarnado, está desenvolvendo armasde destruição em massa e que estas precisam ser destruídas. Estáclaro também que, ao contrário do que aconteceu uma na Guerra doGolfo, quando dezenas de países - incluindo todos os vizinhos doIraque com a única exceção do Irã - aliaram-se ao Estados Unidospara expulsar as tropas de Bagdá que tinham invadido o Kuwait,desta vez Washington conta o apoio apenas da Inglaterra e deIsrael. O debate interno no governo teve pelo menos dois resultados,até agora. Mostrou, por um lado, que são reduzidas as chances deuma ação militar acontecer este ano. A primavera de 2003 é operíodo mais provável para uma ação. A discussão parece ter tidotambém algum impacto sobre o planejamento militar da ação. Um plano prevendo a mobilização de 250 mil soldados para umataque terrestre ao Iraque, vazado há algumas semanas ao NewYork Times, foi anonimamente criticado por generais do Pentágono em entrevistas ao Washington Post, na semana passada. Os chefesmilitares chamaram atenção para a falta de um exame maiscuidadoso sobre os custos da operação, em vidas, dinheiro eprejuízos políticos para os Estados Unidos. Eles sublinharam, também, a necessidade de se pesar o preço davitória, que envolveria a ocupação militar do Iraque por dezenasde milhares de americanos, por um período indeterminado. A rivalidade entre grupos da oposição iraquiana no exílioapresenta outro grave problema para a era pós-Saddam e influinos cálculos de Washington. Um vazio de poder em Bagdá poderialevar rapidamente à desintegração do Iraque e ao ressurgimentode um forte movimento de independência dos curdos, que reclamamterritórios onde vivem, no norte do Iraque, sudeste da Turquia enoroeste do Irã, para um futuro Curdistão. Esta é umaperspectiva que provoca pesadelos na Turquia, país membro daAliança Atlântica e base de lançamento indispensável paraqualquer operação militar contra o Iraque. Na semana passada, oPentágono assumiu parte das responsabilidades de financiar asatividades da oposição iraquiana, que era até agora doDepartamento de Estado. Os militares ouvidos pelo Post, que, segundo o jornal,incluíram membros do comando conjunto das forças armadas,deixaram clara sua preferência pela continuidade da estratégiaatual de contenção de Saddam, apoio financeiro à oposição a seuregime, dentro e fora do Iraque, e à reativação e fortalecimentodo regime de inspeções de armas pelas Nações Unidas, suspenso hátrês anos, quando Bagdá expulsou os inspetores. Um militar dareserva, citado pelo Post sem ser identificado, colocou emdúvida a motivação de Bush, insinuando que haveria um cálculo depolítica interna ou o desejo pessoal de acertar contas comSaddam pela tentativa de assassinato de seu pai, o ex-presidenteGeorge W. Bush, durante uma visita que ele fez ao Kuwait em1993. As críticas fizeram aparecer novas alternativas. Uma delas é ada "guerra de dentro para fora". Em lugar de uma invasãoclássica, a operação começaria com um assalto maciço a algunscentros de comando e controle e outros pontos estratégicos. Asuposição é que o êxito de tal operação provocaria um levantepopular e uma rebelião de militares iraquianos contra Saddam.Outro caminho seria bombardear pelo ar essas instalações. O secretário da Defesa, Donald Rumsfeld, afastou na semanapassada duas das idéias oferecidas pelos críticos de suaestratégia preferida, que é atacar com tudo. Ele descartou ointeresse dos Estados Unidos pela reativação das inspeções daONU, que Bagdá recolocou na mesa, na última sexta-feira, com umconvite para que o chefe do regime de inspeção e destruição dearmas criado pelo Conselho de Segurança, após a guerra do Golfo,visite Bagdá. "O Iraque tem armas químicas e biológicas, elestêm apetite por armas nucleares, trabalham nisso há anos e hámuito que não sabemos sobre seus programas", afirmou ele."Seria necessário um regime de inspeção tão intrusivo, aceito erespeitado pelos iraquianos, que é difícil começar a imaginarque eles concordariam". Na semana passada, em visita a Washington, o rei Abdullah, daJordânia, advertiu Bush sobre as conseqüências nefastas que umaguerra contra o Iraque provocaria no Oriente Médio, onde ossentimentos americanos já estão perto do ponto de combustão.Hoje, em visita a Teerã, o ministro das Relações Exteriores daArábia Saudita, Saud al-Faisal, firmou declaração conjunta com ogoverno iraniano. "Temos uma posição comum com o Irã", disse ochanceler saudita. "Opomo-nos a qualquer ataque militar contraos países islâmicos e da região e ambos nos opomos a um ataquemilitar americano contra o Iraque". O debate no Senado, na semana passada, refletiu aspreocupações com a necessidade de legitimar um ataque contraSaddam, a busca de apoio da comunidade internacional e os riscosde iludir-se com cenários de um rápido colapso do regime deBagdá. A administração recusou-se a participar das audiências,que serão reiniciadas em setembro.

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