Bush quer "pagar para ver" na ONU

O bom senso e a tradição parlamentar aconselham a não se colocar em votação propostas condenadas de antemão ao fracasso. A decisão do presidente George W. Bush de ignorar o conselho e insistir na votação de uma resolução do Conselho de Segurança das Nações Unidas que legitime um ataque ao Iraque, mesmo sabendo ela não será adotada e, se for, será vetada pela França (e, possivelmente, também pela Rússia e pela China), causa espanto entre políticos e diplomatas em Washington.Segundo funcionários americanos, há duas explicações para a atitude do presidente americano. A primeira, manifestada no domingo pelo secretário de Estado Colin Powell, é que os EUA acreditam que ainda poderão obter o apoio necessário para alcançar o mínimo de nove votos que garantiria a adoção da proposta americana, inglesa e espanhola, que dá até à próxima segunda-feira a Saddam Hussein para revelar todas as armas que têm, ou ser desarmado pela força. Essa manifestação de apoio político é particularmente importante para o primeiro-ministro britânico, Tony Blair, cujo alinhamento automático com Bush gera intensa oposição entre os ingleses e em seu próprio Partido Trabalhista.A provável abstenção paquistanesa, anunciada hoje, tornou improvável o sucesso da estratégia americana. Para alcançar os noves votos, os patrocinadores da proposta precisam do apoio do Chile, México, Angola, Camarões e Guiné, que até hoje não estava garantido.Mas ainda que consigam esses votos, Bush e Blair enfrentam o veto certo da França e, possivelmente, também da Rússia e da China.Tecnicamente inválida se for vetada por qualquer um dos membros permanentes do Conselho, uma resolução aprovada por nove membros perderia qualquer vestígio de significado como expressão da vontade da maioria por um veto tríplice. Diante de tais riscos, evitar a votação seria o caminho mais sensato para evitar a derrota certa e preservar o Conselho de Segurança e as Nações Unidas.Mas Bush quer que ver "quem está conosco" e que está contra, como disse na entrevista coletiva que deu na semana passada, e decidiu pagar para ver.Sua posição reflete um cálculo da direita americana, segundo o qual a confrontação com o Iraque transformou-se numa oportunidade única não apenas para terminar com a guerra inacabada contra o regime de Saddam Hussein, como para resolver outra grande pendência da agenda internacional no pós-guerra-fria: expor a irrelevância das Nações Unidas, implodir o Conselho de Segurança e rearranjar a ordem internacional com base no poder econômico, político e militar dos EUA, a única superpotência.Bush já havia deixado claro o desprezo de sua administração pelo multilateralismo em decisões como a denúncia do tratado de Kyoto sobre mudanças climáticas, a recusa americana de integrar o Tribunal Penal Internacional e várias outras decisões.Comentaristas conservadores estão deliciados com a oportunidade oferecida pela atual crise, porque ela permite realizar seu projeto e culpar a França pelo desastre. William Safire, ex-redator de discursos para Richard Nixon e colunista de The New York Times, resumiu hoje o argumento da direita. "Ligas de nações muito pesadas para agir precisam de ser realinhadas em coalizões mais ágeis e com maior capacidade de resposta", escreveu, depois de historiar os recentes fracassos na ONU em intervir de forma eficaz em crises internacionais. "Podemos agradecer à tentativa de tomada de poder franco-germânica na ONU por ter precipitado a crise diplomática que pode levar à era pós-Conselho de Segurança".

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