Bush recebe pressões internas para mudar o curso no Iraque

Relatórios de grupos de estudo costumam mofar nas estantes. E era isto que o governo Bush esperava do "Iraq Study Group", a comissão bipartidária formada em março. Mas com o agravamento da situação no Iraque e o crescente desencanto da opinião pública americana com a política externa do presidente, recomendações de luminares do establishment americano podem ser convenientes para um governo que até agora se recusa a ver a luz no fim do túnel.As conclusões desta comissão somente serão formalmente apresentadas no começo de 2007, após as eleições no Congresso em novembro, nas quais os republicanos perigam perder sua maioria, em parte devido ao desgaste no Iraque. Mas sintomaticamente, opções exploradas por este grupo de estudo bipartidário começaram a vazar. Enquanto Bush insiste publicamente que irá "manter o curso", a comissão sinaliza a necessidade de mudanças significativas de rumo, como uma retirada gradual das tropas americanas do Iraque e o aliciamento de inimigos dos EUA, como o Irã e a Síria, para participarem de um esforço conjunto para conter a escalada de violência. EstabilidadeEm termos mais específicos foi vazada à imprensa a alternativa da comissão bipartidária de "stability first", ou seja, antes de tudo é preciso estabilizar a situação no Iraque mesmo ao preço de uma "acomodação política com os insurgentes" e o adiamento da consolidação democrática.Extra-oficialmente em conversas com repórteres dos jornais mais influentes do país, alguns altos funcionários do governo americano se dizem receptivos às alternativas propostas por este grupo de estudo, em particular porque um dos seus co-presidentes é James Baker, ex-secretário de Estado e "consigliere" da família Bush há mais de 30 anos.Não é à toa que o precário governo do primeiro-ministro iraquiano Nouri al-Maliki busca repetidamente garantias da Casa Branca de que não existe um cronograma para a retirada das tropas americanas ou que seu projeto de "unidade nacional" segue prestigiado por Washington. Mas os alertas sobre a necessidade de mudança de rumo se multiplicam e um dos mais sintomáticos foi dado pelo influente senador republicano John Warner no sentido de que o governo Maliki tem dois ou três meses para colocar as coisas sob controle. Em caso contrário, uma mudança de curso na política americana será inevitável.Já James Baker não quis comentar a substância das propostas que estão sendo delineadas pela comissão bipartidária, mas em várias entrevistas à televisão ele enfatizou que existem alternativas aos planos de "manter o curso" no Iraque ou simplesmente sair do buraco. A opinião em Washington é a de que o leal Baker jamais viria a público sem o beneplácito do clã Bush, em particular do pai do atual presidente, ou mesmo da Casa Branca.No seu governo, o primeiro presidente Bush foi à guerra contra o Iraque de Saddam Hussein, mas repeliu o plano de ocupar o país e criar uma nova ordem no Oriente Médio. O ex-presidente obviamente nunca julgou ou criticou publicamente as ambições do seu filho no poder. É fascinante a idéia de que ele agora esteja atuando através do porta-voz James Baker. Mais fascinante ainda é se o atual presidente estiver escutando.

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