Bush repudia "ameaça" da Coréia do Norte, mas negocia

Três horas depois de uma porta-voz da administração Bush ter afirmado, ontem, que os Estados Unidos não negociarão com a Coréia do Norte sob ameaça, e pedido ao país que desative seu programa de armas nucleares, fontes oficiais informaram que uma delegação americana de alto nível irá, no mês que vem, a Pyongyang, para discutir com a autoridades norte-coreanas a situação criada pelo país asiático, ao renegar um acordo de não proliferação nuclear assinado com Washington em meados da década passada em troca de combusível, alimentos e outros tipos de assistência. "Pedimos à Coréia do Norte para reverter seu curso atual e a dar os passos necessários para cumpriri com suas obrigações perante a Agência Internacional de Energia Atômica" (AIEA), disse a porta-voz Claire Buchan, em Crawford, onde o presidente Geroge W. Bush passa os feriados de fim de ano. A declaração foi feita depois que a assessora de segurança do presidente, Condoleezza Rice, fez uma conferência telefônica com os membros do Conselho de Segurança para avaliar a situação. A contradição entre a denúncia da aparente operação de chantagem desencadeada pelo regime norte-coreano para obter novas concessões e ajuda dos EUA e o sinal de disposição de Washington de jogar o jogo do regime de Jim Jong-il, enviando uma delegação de alto nível a Pyongyang, ilustra a complexidade da situação que a possível reativação do programa nuclear da Coréia do Norte representa para Bush, no momento em que o presidente prepara o país para possível guerra contra o Iraque. Fontes oficiais admitiram à agência Reuters que a decisão norte-coreana de retirar os inspetores do AI EA e de dar os passos necessários para iniciar a produção de plutônio causou consternação na administração - em parte porque sugere que a Coréia do Norte, que tem comprovada capacidade de produzir e lançar armas nucleares contra alvos situados a milhares de quiômetros de seu território, incluindo as cidades da costa oeste americana, representa uma ameaça mais clara e mais iminente do que o Iraque, contra o qual os EUA se preparam para guerrear em nome da destruição de um arsenal cuja existência não está sequer confirmada. Na medida em que alimenta a impressão de que a administração escolheu o alvo errado para garantir a segurança dos americanos e de seus aliados, a crise com a Coréia do Norte poderia causar uma rápida erosão do apoio que existe na opinião pública americana para uma ação punitiva contra o Iraque. "Minha impressão é que isso cria muita ansiedade (na administração)", disse uma fonte oficial. A Coréia do Norte é um dos três países que Bush incluiu no seu "eixo do mal", ao lado do Iraque e do Irã. Até agora, a Casa Branca vinha minimizando a ameaça de reativação do programa de armas nucleares feitas pela Coréia do Norte.

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