Bush revive obsessão dos EUA com sandinistas

Em 1979, o líder da revolução sandinista Daniel Ortega entrou triunfalmente em Manágua no topo de um tanque após derrubar a corrupta ditadura da família Somoza. Hoje, ele circula pela capital na sua campanha presidencial a bordo de um carro Mercedes-Benz. Nos comícios, Ortega invoca Deus, e não Fidel Castro. O hino sandinista que qualifica os "ianques" de "inimigos da humanidade" foi substituído na atual campanha eleitoral por uma adaptação em espanhol do "Give Peace a Chance", de John Lennon.A reinvenção do Comandante Ortega não pacifica o governo Bush. Na sua aversão ao líder sandinista e desconfiada de suas promessas de moderação e reconciliação, a Casa Branca de 2006 parece reeditar o roteiro do governo Reagan, que nos anos 80 colocou o pequeno país da América Central no epicentro da Guerra Fria. Hoje o inimigo da Casa Branca não é o bloco soviético, mas o petropoder venezuelano. Para Washington, Ortega apenas trocou de patrono. Hoje é mais um afilhado de Hugo Chávez. PassadoOrtega nega que esteja no bolso de Caracas, que vendeu combustíveis e fertilizantes com desconto para prefeituras sandinistas. Ortega também nega que seja o mesmo radical esquerdista. Desde que perdeu as eleições de 1990 para Violeta Chamorro, ele fracassou outras duas vezes na tentativa de retornar ao poder pelo voto e também nos esforços para provar que enterrou seu passado revolucionário com o fim da Guerra Fria. A rigor, Ortega nunca partiu. Após perder em 1990, ele prometeu "gobernar desde abajo".Agora Ortega pode vencer no voto, com chances de derrotar quatro oponentes até no primeiro turno neste domingo, graças a mudanças na legislação eleitoral instigadas pelos sandinistas há seis anos. Ortega precisa de apenas 35% dos votos e uma vantagem de cinco pontos sobre o rival mais próximo para evitar um segundo turno, onde suas possibilidades de vitória seriam mais difíceis. Antes, eram necessários 45% dos votos no primeiro turno. InterferênciaO quadro favorável para Ortega alarmou o governo Bush, e seu embaixador em Manágua, Paul Trivelli, foi à carga, acusando o candidato sandinista de "não democrático" e advertindo que a Nicarágua pode perder milhões de dólares em ajuda em caso de sua vitória. Sem sucesso, Trivelli tentou unir dois candidatos direitistas contra Ortega. O embaixador silenciou depois de a Organização dos Estados Americanos (OEA) ter condenado governos estrangeiros de estarem "interferindo ativamente" no processo eleitoral nicaraguense, num recado tanto para Washington, como para Caracas.E nem Washington gostou da interferência de Oliver North, que apareceu em Manágua para fazer campanha contra Ortega. A aparição reavivou a memória do grande escândalo do governo Reagan. Ex-assessor da Casa Branca, North esteve no coração do escândalo de ajuda clandestina dos EUA a rebeldes anti-sandinistas nos anos 80. North disse que a vitória de Ortega seria a "pior coisa" que poderia acontecer para a Nicarágua. Dirigentes sandinistas rebateram que a intromissão de North era a "melhor coisa" que poderia acontecer para o seu candidato. Momento históricoNo meio deste fogo cruzado, analistas como Michael Shifter, do Inter-American Dialogue, em Washington, advertem contra a "obsessão" do governo Bush com Daniel Ortega, pois o momento histórico é outro. Dissidentes do sandinismo, como o candidato presidencial Edmundo Jarquín, dizem que o problema não são fantasias revolucionárias. Para Jarquín, Ortega não passa de um "caudilho autoritário e corrupto, cujo único objetivo é a sobrevivência política".Quando os sandinistas e o Partido Liberal Constitucionalista controlavam o Congresso, Ortega forjou "el pacto" no ano 2000 com o ex-presidente direitista Arnaldo Alemán (hoje sob prisão domiciliar após ser condenado por corrupção), para dividir as instituições governamentais. Agora é um novo pacto. Ortega finalmente compensou financeiramente Jaime Morales por ter ocupado pessoalmente, após a revolução, a mansão do ex-líder dos "contras" (os rebeldes anti-sandinistas). Houve também uma compensação política. Morales é seu companheiro de chapa nas eleições que vão decidir o futuro do segundo país mais pobre do hemisfério, depois do Haiti.

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