Bush tem apoio, mas sem fervor patriótico

A venda de bandeiras norte-americanas aumentou entre 15% a 25% nas últimas semanas no comércio atacadista, segundo os dois principais fabricantes do produto, a Annin & Co., de New Jersey, e a Valley Forge Flag, da Pensilvânia. Também em alta está a demanda das lojas por uma bandeira com uma estrela azul que simboliza a solidariedade com os soldados em tempos de guerra.Se a exibição de bandeiras aumentou em algumas partes do país por causa da confrontação no Iraque, ela é certamente bem menos visível do que nas semanas e meses que se seguiram aos atentados de 11 de setembro de 2001, quando os norte-americanos, atordoados pela surpresa e pela dimensão do atentado, enrolaram-se na "Old Glory", seu pavilhão nacional. Também Empresas especializadas informam que aumentou a venda de itens simbólicos da paz, como um alfinete de lapela com a pomba de Pablo Picasso que vários artistas exibiram durante a cerimônia de entrega do Oscar, no domingo passado.Vista à luz da causa que o presidente George W. Bush invocou - a libertação de um povo do jugo de uma brutal ditadura - para justificar sua decisão de iniciar uma guerra não provocada, invadindo um país soberano, o fato mais saliente é que o apoio de mais de 70% registrado pelas pesquisas de opinião não se traduziu até agora em demonstrações de fervor patriótico.Em contraste com o que aconteceu depois do 11 de setembro, são raras as bandeiras nos automóveis ou nas casas. Para G. Keith Haller, presidente de uma empresa de opinião pública em Bethesda, um subúrbio de Washington, no Estado de Maryland, a pouca disposição das pessoas da cidade para abanar bandeiras reflete a angústia que a guerra alimenta mesmo entre aqueles que apóiam a decisão de Bush, que não são maioria na região metropolitana da capital. "Há uma enorme ansiedade sobre as conseqüências dessa guerra no futuro da América", disse Haller. Micheal L. Subin, o presidente da Câmara de Vereadores de Gaithersburg, cidade vizinha a Bethesda, "porque o presidente Bush não foi capaz de transmitir à população que interesses norte-americanos estão em jogo" no conflito.As declarações de Haller e Subin foram feitas antes do que prometia ser uma vitória gloriosa, com o colapso do regime de Saddam Hussein seguido de cenas de iraquianos agradecidos a seus libertadores, assumir os primeiros contornos de um desastre político militar, com cenas de uma carnificina seguida por uma ocupação militar que promete anos de imensos riscos e de escassos benefícios para os Estados Unidos.Mortes podem reduzir apoio à guerraCom a guerra mal parada depois de apenas uma semana de hostilidades, especialistas em opinião pública advertiram que a expectativa frustrada de uma guerra rápida e relativamente indolor poderá colidir na próxima semana com o aumento acelerado do número de baixas e reduzir o apoio da população à guerra, que é amplo, mas raso.Com cerca de 30 soldados caídos nos primeiros sete dias do conflito e um suspeito baixo número de menos de 50 feridos (a quantidade de feridos em guerra costuma ser de duas a três vezes o número de mortos), a contabilidade das baixas já excede as da trágica intervenção na Somália, em 1993, onde os EUA perderam 18 soldados, ou da guerra contra o terrorismo iniciada depois do 11 de setembro, incluindo a invasão que derrubou o regime do Taleban no Afeganistão.Na Guerra de Kosovo, em 1999, travada quase que integralmente do ar, os EUA não perderam um único soldado. Na primeira Guerra do Golfo, morreram 147 soldados em combate, um terço por fogo amigo, e outros 235 pereceram em acidentes e por outras causas.Os EUA perderam 58.203 soldados entre 1964 e 1975 na Guerra do Vietnã, 36.568 nos menos de três anos da Guerra da Coréia, no início da década de 50, 405.399 na 2.ª Guerra Mundial e 116.516 na 1.ª Guerra Mundial. Segundo o The Washington Post, o hospital militar Walter Reed, na capital norte-americana, recebeu instruções na semana passada para estar pronto para receber feridos nas próximas semanas.Uma pesquisa realizada em fevereiro pelo Programa sobre Atitudes em Política Externa da Universidade de Maryland mostrou que os norte-americanos acreditavam que uma guerra no Iraque poderia custar a vida de até mil soldados. Mas, à medida que o conflito foi ficando mais próximo e inevitável, as expectativas sobre baixas diminuíram. Na véspera do início da guerra, apenas 37% das pessoas ouvidas diziam esperar perdas pesadas.Segundo Steven Kull, que dirige a pesquisa da Universidade de Maryland, três fatores influenciam a atitude da opinião pública americana durante as guerra: a legitimidade do conflito aos olhos do mundo, a justiça e viabilidade da causa e, acima de tudo, que os EUA estão ganhando.Para ele, a guerra atual apresenta um quadro complexo à luz desses fatores. Com todos os problemas que os generais estão enfrentando, o público acha que o avanço da campanha militar foi satisfatório e, até agora, compensou a falta de legitimidade internacional da invasão do Iraque. A maior parte dos norte-americanos acha válido o objetivo apresentado por Bush de tirar as armas de destruição em massa que o Iraque supostamente ainda possui, removendo o regime de Saddam Hussein. O risco de uma deterioração do apoio popular à guerra aumentará se as forças invasoras não encontrarem armas de destruição em massa e a oposição internacional à guerra aumentar nas próximas semanas.Veja o especial :

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