Bush tenta equilíbrio no debate sobre imigração

No pronunciamento que fez na segunda-feira à noite, o presidente americano endureceu no seu esforço para amaciar os conservadores, ao destacar que está despachando em caráter temporário até seis mil soldados da Guarda Nacional para reforçar a vigilância na fronteira com o México e conter o fluxo de imigrantes ilegais. Mas Bush é um presidente em uma posição cada vez mais fraca, com margem de manobra que diminui na medida em que cai sua taxa de aprovação, inclusive na sua base tradicional. Obrigado a se deslocar para o seu flanco direito, Bush espera que este discurso lei-e-ordem não apenas satisfaça os conservadores, mas os aplaque em relação aos componentes não policialescos da reforma de imigração. Tarefa difícil. MilhõesBush quer convencer a base conservadora a aceitar a realidade de que milhões de ilegais já trabalham no país e prepara um cenário para que a legalização do seu status seja possível, além de expandir o programa de vistos temporários. Bush deixou claro que o ajuste do status não é a mesma coisa que anistia, termo maldito para os conservadores. O presidente faz esta jogada tática quando o Senado debate o seu pacote de reforma de imigração, que, se aprovado, será mais flexível do que as rígidas medidas já passadas pela Câmara (entre elas, converter os ilegais em criminosos). Os defensores de uma ampla reforma de imigração sabem que mais controle na fronteira é condição básica para que as outras propostas avancem, mas em particular entre deputados republicanos na Câmara o foco é na repressão e a legislação aprovada exclui a expansão do programa de vistos temporários ou qualquer medida que facilite a legalização do status dos ilegais. Portanto, há um vasto fosso que dificulta um compromisso entre as duas Casas. Bush quer encanar este compromisso enquanto está em curso um debate passional. Isto ficou claro quando ele afirmou no discurso que existe um meio termo "racional" entre abrir um caminho automático para a cidadania e um programa de deportação em massa. Mas quem está no meio do caminho, muitas vezes não chega a lugar algum, em especial um presidente que já parece estar mancando a dois anos e meio do final do mandato.Base republicanaOs planos de Bush para reforçar a segurança na fronteira poderão frustrar a base conservadora e ao mesmo tempo prejudicar seu projeto de atrair o crescente eleitorado "hispânico" para o Partido Republicano, além de obviamente de inquietar o presidente mexicano Vicente Fox. No seu empenho de se equilibrar na cerca, Bush prioriza agora o componente de segurança e ao mesmo tempo insiste que não está militarizando a fronteira. As complicações não param por aí. Com o discurso de segunda-feira, o presidente entra em um terreno perigoso e que foge ao convencional. O debate sobre imigração não segue as típicas linhas partidárias. Ele divide os republicanos e coloca grande parte da oposição democrata na estranha situação de apoiar os planos de Bush. O presidente continua na cerca. É uma condição frágil e desconfortável, como a de milhões de imigrantes ilegais.

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