Bush usará discurso para obter apoio doméstico

Confrontado em casa e no exterior com crescentes dúvidas sobre a sabedoria e a legitimidade de desencadear uma guerra para desarmar o regime de Saddam Hussein, o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, dirá hoje à noite que utilizará o discurso anual sobre o estado da nação, diante de uma sessão conjunta do Congresso, para mobilizar o apoio dos norte-americanos "para algumas grandes causas". Ele deverá afirmar não ter dúvidas de que os EUA estão à altura dos desafios, "porque somos um grande país".O porta-voz da Casa Branca, Ari Fleischer, adiantou que a falade Bush, programada para começar às 21h em Washington(meia-noite em Brasília), seria apenas parcialmente dedicada àquestão do Iraque e não conteria um ultimato a Saddam Hussein.Com sua popularidade em queda acelerada e a aura deinvencibilidade que conquistou depois dos atentados de 11 desetembro de 2001 posta em dúvida pelo desempenho medíocre daeconomia norte-americana, o aumento do desemprego nos primeirosdois anos de seu governo e uma séria derrapada na condução dascomplexas relações com a Coréia do Norte, Bush tem, de fato,outras questões tão urgentes quanto uma possível guerra no GolfoPérsico a tratar com os norte-americanos. A mais importante delas é defender o ambicioso programa deestímulo econômico que apresentou no início do mês. Recebido comcríticas entre os próprios senadores de seu Partido Republicano,a proposta, que prevê a eliminação de impostos sobre dividendos,terá que passar por mudanças consideráveis antes de virar lei. Outro desafio de Bush para esta noite é convencer osnorte-americanos sobre seus planos de privatização parcial dosistema de seguridade social e de ampliação, também viaprivatização parcial, do seguro médico federal, cujos custoscrescentes tornam-se proibitivos no ambiente de déficits fiscaiscrescentes produzidos pela combinação da política econômica deBush com um crescimento anêmico. Mas, mesmo que tenha programado reservar apenas uma parte de sua fala ao Iraque, este era o tema pelo qual milhões deansiosos americanos pretendiam medir o discurso de seupresidente. "O que o país espera do presidente hoje à noite éque ele passe da fase da declaração para a da persuasão", disseSandy Berger, que foi conselheiro de segurança da Casa Branca nogoverno Bill Clinton. De fato, as sondagens de opinião divulgadas nos últimos dezdias apontaram, sem exceção, uma forte erosão da simpatiapopular por Bush e uma oposição substancial dos norte-americanosa uma ação armada contra o Iraque. Cerca de metade das pessoasouvidas nas várias pesquisas disseram que querem ver mais provasde que o regime de Saddam possui armas de destruição em massa.Por maioria ainda mais ampla, de 70%, elas manifestaram-secontrárias a uma nova guerra no Golfo Pérsico que não tenha oendosso formal do Conselho de Segurança na ONU. Fleischer disse hoje que, do ponto de vista da administração,tal endosso "é desejável mas não é mandatório". Entre aquelesque Bush precisa convencer hoje à noite sobre a conveniênciapolítica de uma solução militar do Iraque está ninguém menos doque o general reformado Norman Schwarzkhopf, que comandou astropas dos EUA e dos países aliados na primeira Guerra doGolfo. Ecoando uma posição comum na população, o ex-general disse aojornal The Washington Post que quer ver mais provas de queSaddam Hussein tem armas de destruição em massa. Schwarzhopfelogiou o desempenho do secretário de Estado Colin Powell, queera o chefe do estado-maior conjunto na Guerra do Golfo, mas nãoescondeu sua reservas em relação ao secretário da Defesa, DonaldH. Rumsfeld, que é um dos arquitetos da estratégia belicosa deWashington. "Algums coisas que ele diz me preocupam", afirmouo ex-general, de 68 anos, que em Tampa, Flórida, onde está ocomando central das forças armadas norte-americanas. Embora seu discurso, que deve ter audiência recorde, dirija-seprimeiramente ao público doméstico, Bush usará a ocasião tambémpara tentar ganhar a simpatia internacional para sua ofensivaanti-Saddam. Ele deverá lembrar que foi sob a liderança dos EUA, em seugoverno, que o Conselho de Segurança aprovou por unanimidade, hádois meses, o retorno dos inspetores de armas ao Iraque. E usaráo relatório que o chefe dos inspetores, Hans Blix, apresentou nasegunda-feira ao Conselho de Segurança para martelar a tesesegundo a qual Saddam Hussein mais uma vez não cumpriu apromessa de desarmamento que fez à ONU. Como parte do esforço político e diplomático para ganhar apoioe garantir a legitimidade de uma ação armada contra o Iraque,Rumsfeld terá uma sessão secreta amanhã com líderes do Congressopara passar-lhe algumas das provas que o executivo afirmapossuir sobre as manobras do regime de Bagdá para enganar osinspetores da ONU. Powell deverá levar essas informações aoConselho de Segurança na semana que vem.

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