Bush volta à cena para defender seu legado

Ex-presidente inaugura biblioteca e tenta melhorar imagem do Partido Republicano

DENISE CHRISPIM MARIN , CORRESPONDENTE / WASHINGTON, O Estado de S.Paulo

29 de abril de 2013 | 02h02

Depois de quatro anos e de duas eleições longe dos holofotes, o ex-presidente dos Estados Unidos George W. Bush voltou à cena política para defender seu legado. Na última quarta-feira, em Dallas, ele recebeu elogios de três outros ex-chefes de Estado e de seu constrangido sucessor, Barack Obama, durante a inauguração de sua biblioteca presidencial.

O retorno de Bush à cena política americana se dá em um momento de reagrupamento das correntes republicanas para as eleições parlamentares de 2014 e presidenciais de 2016. Jeb Bush, ex-governador da Flórida apontado como possível candidato à Casa Branca, dependerá essencialmente da melhoria da imagem de seu irmão para ter sucesso na campanha.

George W. Bush dedicou-se à pintura de quadros e a palestras bem remuneradas nos últimos quatro anos. Hoje, tem aprovação de 47% dos americanos, segundo recente pesquisa do Washington Post, porcentual equivalente ao de Obama. Michael Barone, analista político conservador, não tem dúvidas de que a criação da Biblioteca Bush e o evento de inauguração servirão para melhor a imagem do ex-presidente.

O prédio de US$ 250 milhões, administrado pelo Arquivo Nacional, dará aos visitantes e pesquisadores um recorte favorável ao governo Bush. "Embora não estivesse fisicamente presente, seu nome tem estado muito mais no centro dos debates políticos do que o de qualquer outro presidente americano", disse Barone. "Nenhum presidente falou mais negativamente de seu antecessor como Obama. Talvez só Franklin Roosevelt (1933-1945) sobre Herbert Hoover (1929-1933)."

O retorno de Bush aos holofotes, entretanto, não chega a tremer os pilares da política americana. "Ele não tem interesse em ter mais nenhum papel na política e somente prejudicará as ambições de seu irmão pela presidência", afirmou Thomas Mann, especialista do Brookings Institution.

A inauguração da biblioteca levantou uma nova discussão sobre as decisões mais controvertidas tomadas por Bush, em especial, sobre a invasão do Iraque e a demora em reagir ao desastre causado pelo furacão Katrina, em 2005.

"Eu acredito que a liberdade é uma bênção de Deus. Nós expandimos a liberdade em casa ao elevarmos os padrões de nossas escolas e reduzirmos os impostos para todos. Nós liberamos uma nação da ditadura e tornamos pessoas livres da aids. E, quando a liberdade foi atacada, nós tomamos decisões difíceis para manter a segurança do nosso povo", afirmou Bush.

Elogios. Obama, que no poder adotou parcialmente estratégias criadas por Bush, como o aumento de soldados no Iraque e no Afeganistão e o uso de aviões não tripulados (drones), elogiou o antecessor. "Ele é um bom homem", disse. "Ele trabalha com seriedade."

Os ex-presidentes Jimmy Carter (1977-1981), George H. Bush (1989-1993) e Bill Clinton (1993-2001) também compareceram. Carter elogiou Bush por ter ajudado "os mais necessitados do mundo". Clinton disse que não teria conseguido aprovar no Congresso o plano de alívio contra a aids, como Bush conseguiu.

O próprio Obama afirmou que a tentativa de seu antecessor promover uma reforma imigratória, abortada por seus colegas republicanos no Congresso, abriu caminho para seu governo insistir na aprovação de nova legislação sobre o tema. "Se nós conseguirmos, será em grande parte graças ao trabalho duro do presidente George W. Bush", reconheceu Obama.

Segundo Mann, mesmo com os discursos generosos de seus pares e a passagem do tempo, Bush terá dificuldades em mudar sua imagem. Os americanos continuam a pagar pelos erros cometidos por ele. Entre os mais sérios estão a redução de impostos, a guerra do Iraque e a conversão do superávit nas contas públicas em déficit.

Mas, sobretudo, segundo Mann, por ter tornado o conservadorismo moderado um alvo de escárnio entre os radicais da direita. "Seus instintos eram ruins e ele demonstrou pouco interesse em assuntos e política pública", afirmou o analista.

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