Bush volta a responsabilizar Arafat por conflito

Menos de doze horas depois de os Estados Unidos terem apoiado uma resolução do Conselho de Segurança das Nações Unidas pedindo um imediato cessar-fogo e conclamando Israel a retirar suas tropas dos territórios palestinos ocupados, o presidente George W. Bush evitou reafirmar que essa é a política de seu governo. Em lugar disso, Bush justificou a ofensiva israelense contra o quartel general da Autoridade Palestina em Ramallah e, tal como fizera seu secretário de Estado, Colin Powell, na véspera, colocou o ônus da cessação das hostilidades nos ombros do presidente da Autoridade Palestina, Yasser Arafat. No momento em que Bush falava com os jornalistas, em seu rancho, em Crawford, Texas, Arafat estava isolado e sob ataque, no único dos sete prédios remanescentes do complexo de Ramallah, depois de um dia de bombardeio israelense. Privado de água ou eletrecidade, o líder dos palestinos estava acompanhado por apenas alguns assessores. Bush disse que recebeu garantias de Israel de que Arafat não era o alvo do ataque. A situação tornava claro, no entanto, que o objetivo do primeiro-ministro Ariel Sharon, que já lamentou não ter matado Arafat num par de oportunidades que teve para fazê-lo, era, no mínimo, de humilhar e desmoralizar o presidente da Autoridade Palestina. Por sua parte, Bush deixou claro que considera Arafat o principal responsável pelo agravamento do conflito. "O presidente Arafat podia ter feito mais há três semanas e precisa fazer mais, hoje, para impedir os ataques terroristas", disse o líder americano. "Ele precisa falar e condenar os ataques terroristas em sua língua nativa". Pouco antes de Bush falar aos jornalistas, um bomba explodiu num café em Tel Aviv , ferindo pelo menos 29 pessoas, num novo ataque suicida. Minutos antes de Bush falar, o negociafdor palestino Saeb Arakat informou à CNN que as forças israelenses estavam disparando mísseis contra o que restava do QG de Ramallah. "Isso vai ser uma massacre", disse Arakat. As declarações de Bush, hoje, foram as primeiras depois do ataque suicida palestino em Netânia, que matou 22 pessoas, feriu dezenas, e levou o primeiro-ministro Ariel Sharon a declarar Arafat "inimigo do Estado de Israel" e ordenar a ofensiva militar contra a sede da AP. Perguntado especificamente sobre o cerco por forças israelenses do QG de Arafat, o presidente dos EUA disse que "Israel é uma democracia, e eu comprendo completamente a necessidade de Israel de se defender". Ele pediu que, ao agir para "garantir sua segurança interna", o governo israelense "certifique-se de que há um caminho para a paz". Bush disse que está "profundamente preocupado com a perda de vidas de inocentes" em Israel. Ele afirmou, também, que compreende que os palestinos "se sintam tão desesperançados" e reconheceu que, também entre eles, inocentes estão sendo mortos. Mas reiterou que a culpa pelo agravamento do conflito deve-se aos ataques terroristas palestinos contra a população civil de Israel. Respondendo à reação de alarme e crítica dos aliados europeus e árabes à postura americana, Bush disse que conversou com cinco líderes mundiais nesta manhã, sobre o conflito, para dizer-lhe que não se fez o suficiente, até agora, contra o terrorismo. Esses contatos incluíram o secretário geral das Nações Unidas, Koffi Annan, o rei da Jordânia, Abdullah I, o presidente do Egito, Hosni Mubarak, o primeiro-ministro da Espanha, José Maria Aznar, atual presidente da União Européia, e o príncipe-herdeiro da Arábia Saudita, Abdullah, que ofereceu um plano de paz a Israel, aceito por todos os Estados arabes, em troca da criação de um Estado palestino na Cisjordânia e em Gaza. "Todos os líderes mundiais precisam fazer mais", disse. Bush deixou claro que não tem intenção de falar pessoalmente com Arafat. "Ele receberá a mensagem e ouvirá o que acabo de dizer", afirmou. O presidente americano confirmou que manterá seu enviado especial, Anthony Zinni, na região. Mas descartou, por ora, qualquer nova iniciativa americana, tal como o retorno do vice-presidente Dick Cheney à região. A recente visita de Cheney é vista como um fracasso até por seus assessores. O vice-presidente, que partiu de Washington dizendo que seu objetivo era buscar apoio entre os países árabes para uma ampliação da guerra contra o terrorismo ao Iraque de Saddam Hussein, e que não discutiria o conflito entre israelenses e palestinos, foi forçado a mudar a agenda da viagem e a envolver-se no debate da crise mais antiga e mais urgente do Oriente Médio. Temendo o insucesso de sua primeira grande missão no exterior, Cheney não se encontrou com Arafat. Mas seus assessores disseram que o líder palestinos transmitiu-lhes garantias de que passaria a condenar e a agir para coibir os ataques suicidas. O fracasso da missão original de Cheney foi confirmado na quinta-feira pela decisão da cúpula da Liga Árabe, em Beirute, de aprovar uma declaração de apoio ao Iraque. Assessores do vice-presidente responsabilizam Arafat pessoalmente pelo acciramento. Por essa razão, Washington sequer comentou a oferta de cessar fogo que Arafat anunciou depois do mortífero atentado em Natânia. Segundo o jornal The Washinton Post, Cheney e o secretário de Defesa, Donald Rumsfeld, que representam o setor mais duro e belicoso da administração, têm tido mais influência junto a Bush na formulação da resposta dos EUA ao conflito no Oriente Médio do que o secretário de Estado, Colin Powell. De fato, ao apresentar a posição dos EUA frente ao ataque israelense contra Ramallah, Powell ateve-se à leitura de um texto, o que raramente faz. Segundo o jornal, o texto, cujo conteúdo foi reiterado pelas declarações de Bush, reflete mais as posições de Cheney e de Rumsfeld do que as do próprio secretário de Estado, cujo papel reduzido na busca de uma solução para a crise é ilustrativo da impotência diplomática dos EUA diante de um conflito que, segundo os especialistas e os aliados dos EUA na Europa e no mundo árabe, não terá solução sem um forte envolvimento direto de Washington, no mais alto nível.

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