Sgt. Victor Mancilla/U.S. Marine Corps via AP
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Mario Vargas Llosa
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O mundo livre ainda depende da liderança dos EUA

A liberdade não é um mero ruído que emite a garganta em ocasiões de exceção, diz o escritor

Mario Vargas Llosa, O Estado de S.Paulo

05 de setembro de 2021 | 05h00

Há algum tempo escutei uma conferência de uma escritora afegã que vivia na Europa. Era monarquista e falava com nostalgia de seu país quando era um reino. Recordava uma Cabul onde as mulheres estudavam na Universidade e onde ela e seus amigos escritores e artistas se reuniam em encontros aos quais compareciam mulheres que bebiam e fumavam como os homens. Não sei se seu testemunho, impregnado de melancolia, desfigurava a realidade.

E recordo agora Kipling, que, relatando os problemas que teve o império britânico para lidar com os afegãos, recordava que estes, depois de parecer derrotados, saíam das montanhas, como lagartixas, para golpear duramente os soldados britânicos. E concluía: “Por isso, pode-se dizer que os afegãos nunca perderam uma guerra”.

Como vimos, pelo caos que foi o aeroporto de Cabul nesses dias de espanto, com mortos e feridos entre a multidão, sobretudo feminina, que apavorada pretendia invadir os aviões que chegavam lá para escapar, os americanos deveriam ter lido esse texto de Kipling antes de planejar uma guerra de 20 anos de que, falemos claramente, saíram derrotados uma vez mais. A defesa do mundo livre – sem aspas – vai bem mal desde que os EUA foram derrotados pelo Vietnã. E, com certeza, a influência da poderosa China de hoje se apressa para ocupar, diretamente ou através de sua influência econômica, lugares que os EUA deixam livres.

Isso apresenta um sério problema para o Ocidente, de que ninguém, ou muito pouca gente, quer falar. O comunismo, ao mesmo tempo em que os países livres sofriam derrota atrás de derrota, desaparecia para todos os efeitos práticos, começando pela Rússia, seguida pela China e os países-satélite, que optavam por um sistema capitalista de “compadres”, no qual se pedia dos empresários apenas que respeitassem a política do Estado – ao que eles se prestavam sem maiores problemas – de maneira que, em vez de um mundo socialista radical, parecíamos estar rumando para um sistema muito estendido de regimes populistas e corrompidos que prevaleceriam sobre as genuínas democracias, do que seria exemplo flagrante o ocorrido nos últimos anos na América Latina, com Jair Bolsonaro no Brasil, a Cristina Kirchner, na Argentina, e o reconstruído grupo dos países esquerdistas de Puebla, desta vez sob os auspícios do populista número um do mundo atual, o mexicano Andrés Manuel López Obrador.

A Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) parece cada dia mais uma brincadeira, ou pelo menos um sério equívoco desde que o ex-presidente Donald Trump recordou aos países-membros que, se quisessem que os EUA se encarregassem de sua defesa, “teriam de pagar por isso”. E almejou cobrar. Ninguém que eu saiba estava disposto a aceitar totalmente essa admoestação, que poderia ter posto em apuros econômicos, ou afundado na catástrofe, alguns países-membros dessa organização encarregada de zelar pela defesa dos países democráticos. 

O resultado foi que, logo após viver a experiência horrível do Afeganistão, a defesa do Ocidente está em ruínas, ainda que momentaneamente – momentaneamente não quer dizer para sempre – não haja ameaças diretas aos países que, recordemos, inauguraram a liberdade, criaram e impulsionaram os primeiros sindicatos, a escola, a saúde para toda Terra. O grande legado do Ocidente ao mundo não merece ser defendido melhor do que agora, logo depois de ver como os americanos abandonaram Cabul destruindo no próprio aeroporto as armas que não queriam deixar nas mãos do Taleban, um espetáculo vergonhoso que o presidente Joe Biden chamou de “a mais extraordinária façanha do nosso tempo”? 

A verdade é que não houve façanha alguma nessa caótica saída do Exército americano de um país no qual nunca deveria ter entrado, a não ser que fosse com a estrita convicção de ganhar essa guerra, como nunca deveria ter entrado no Vietnã a menos que tivesse estado disposto a derrotar os norte-vietnamitas com todo o peso de sua força militar, algo que, sem dúvida, teria posto em perigo a paz no restante do mundo, o que é dizer muito.

Em uma diatribe contra a política de seu próprio país, acompanhada de muitas verdades, o professor Jeffrey Sachs disse que em ambas as intervenções militares, os EUA nunca se preocuparam em abrir uma escola, uma fábrica ou um sistema de saúde digno e que pelo fato de as intervenções serem exclusivamente militares, os EUA conquistaram a hostilidade desses países onde iam somente guerrear e críticas do restante do mundo. 

Ainda que eu não esteja sempre de acordo com o professor Sachs, creio que há muita verdade em sua furiosa apresentação do problema que descreve. Não é verdade que os países do terceiro mundo devam receber a modernidade e a civilização como um presente do mundo desenvolvido. Há exemplos hoje – entre eles estão Cingapura, Coreia do Sul e Taiwan – de países que sem maiores ajudas progrediram fantasticamente e criaram as condições que já fortaleciam os países ocidentais. 

No mundo atual de fronteiras abertas ou prestes a se abrir, tampouco é obrigação da aliança introduzir a modernidade e o desenvolvimento em países que podem fazê-lo por si mesmos, aproveitando o regime de liberdade que existe para as transações internacionais. Mas sim, está dentro das obrigações do Ocidente defender a liberdade que alcançamos e que é nosso grande legado ao mundo de hoje e de amanhã. 

A liberdade não é uma palavra sem respaldo, um mero ruído que emite a garganta em ocasiões de exceção. É uma maneira de sair da barbárie e do horror que vimos esses dias no aeroporto de Cabul, onde milhares de mulheres tentavam fugir para não ter que passar o resto de seus dias ensimesmadas sob uma burca, sem poder estudar, nem trabalhar, nem sair às ruas desacompanhadas, animalizadas por um sistema de cameleiros que não variou em um cúspide desde que, há centenas de anos, surgiu aquela região nos desertos da Arábia, sem que até hoje tenha sido capaz de se modernizar e enfrentar, como fizeram as outras, a realidade do nosso tempo. 

Em casos como o do Afeganistão e de tantos países africanos é sim uma obrigação moral e material do que há de melhor no Ocidente atuar de maneira decidida em defesa da mulher ou, melhor dito, simplesmente dessa civilização que permitiu a Karl Popper e muitíssimas pessoas do mundo de hoje dizer que, apesar de todos os desastres à nossa volta, “nunca estivemos melhor”.

A Aliança Atlântica não é um artifício, é uma realidade. O mundo está dividido ainda, como escreveu Sarmiento no século 19, entre a civilização e a barbárie. Permitir, por uma questão de dinheiro, como queria Trump, que essa aliança que preserva as melhores coisas que sucederam ao Ocidente se desmorone é demencial. O mundo livre tem de se defender e para isso precisa da liderança – real, não fictícia – dos EUA, que não apenas é o país mais próspero da aliança, mas também o mais bem armado, que deve assumir essa liderança sem as mesquinhas exigências de Trump nem os esforços retóricos de Biden de exibir como um triunfo o que foi uma ignominiosa derrota a um país que ainda não saiu totalmente da Idade Média. Rússia e China assistiram com serenidade a catastrófica partida dos americanos do aeroporto de Cabul. Não a esquecerão, e o pior é que no futuro a tenham presente. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

*É PRÊMIO NOBEL DE LITERATURA 

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